É um livro no mesmo tempo de observação etnográfica e de reminiscências — e daí a sua importância como documento científico e obra literária de primeira água. Entre todos os livros da obra numerosa de Luís da Câmara Cascudo, nenhum parece ter sido escrito com maior carinho; e em consequência desse especial desvelo do autor, nenhum atingiu às culminâncias literárias a que ele chegou.
A cada momento, o etnógrafo se reencontra ora com a criança que foi um dia e brincou nas praias cheias de jangadas de seu estado natal, o Rio Grande do Norte, ora com o adolescente esportivo, que se atirava ao mar alto, em cima dos seis paus boeiros da jangadas nordestinas, em busca de aventuras que viessem confirmar os seus sonhos venturosos da infância e seu desejo de igualar em denodo e feitos marítimos a vida do cotidiano heroíco que desde a mais remota meninice estava acostumado a ouvir, narrada pela boca e pelas palavras dos próprios jangadadeiros rio-grandeses-do-norte.
O livro foi escrito, originalmente, para a Societé d'Etudes Historiques Dom Pedro II, e, após, ampliado para o Serviço de Documentação. Ao perguntar-lhe alguém, um dia, se "podia escrever um ensaio sobre a jangada" Luís da Câmara Cascudo respondera afirmativamente: "Estava fiado nos velhos mestres, vivos e mortos, nas vozes desaparecidas ou ainda alertas soando em cima dos seis paus boeiros das jangadas do alto".
Já nesta simpes frase com que finaliza o seu prefácio, Luís da Câmara Cascudo revela a preocupação de fixar, além da vida heróica das façanhas, e dos lendários dos jangadeiros, também o seu linguajar característico, tenso e da mais rude e exata contensão verbal e sintática.
No primeiro capítulo, estuda Cascudo o oficio do jangadeiro, sua mulher rendeira; as suas pescas principais e de preparativos mais demorados — pesca do Voador, a Albacora, a Toninha, a Bicuda. Descrece as grandes festas praieiras: a procissão dos afogados.
A sua alimentação, o fumo, os dias de preceito, as superstições (a sereia do Paricé), as jangadas fantasmas, que tanto interesse apresentam para a nossa demonologia folclórica — tudo isso é objeto de pequenos ensaios, dentro do grande ensaio que é o capítulo sobre o jangadeiro, por vezes autêntico tratado de sociologia praieira.
A maneira bem típica e nordestina de norteação do jangadeiro, pelas "pedras marcadas" que cada um deles como objetos de propriedade pessol e instransferível porfia em assinalar, nas praias e colinas adjacentes — eis ainda outros aspectos da profissão, dos hábitos e da psicologia dos grandes mestres do jangadismo, que Luis da Câmara Cascudo nos revela, pela primeira vez no Brasil.
O segundo capítulo trata da origem histórica e evolução da jangada; vinda da Índia, mas fixada, com características atuais e típicas, apenas em praias do Nordeste brasileiro. A vela, a bolina, o remo de governo foram modificações principais e simplificadoras, que o gênio inventivo do jangadeiro nordestino introduziu na velha e complicada "jangada" que os portugueses encontrariam na Índia e, mais tarde, seriam também assinaladas em águas do Pacífico, às costas peruanas, como variedade de gôndola genovesa, apenas de pau de jangada e cobertas de palha.
Estuda Cascudo a nomenclatura, a construção, a geografia e a economia da jangada nordestina, num paralelo erudito e seguro com as demais jangadas, de outras épocas e outras origens geográficas.
E enriquece grandemente o seu livro com uma antologia sobre a jangada, mas esqueceu, na parte poética, as estrofes mais belas até feitas sobre ela, de autoria do poeta Joaquim Cardoso, em seu poema Imagens do Nordeste, onde aparece a "vela branca predileta mariposa da manhã", "cortando os ares ligeiros" como "gumes afiados" de faca "luzindo ao sol", "cortando a espuma do mar", "cintilando na distância", sob o céu profundo, "no profundo azul do mar".
Um último capítulo versa sobre o vocabulário da jangada, matéria do maior interesse para a confecção de um vocabulário de brasileirismos, verbetes, esse quase todos desconhecidos de nossos dicionaristas.