Uma das grandes festas de dezembro, a festa de Santa Bárbara reúne quase todos os pais, mães e filhos-de-santo no Mercado da Baixa dos Sapateiros.
É o grande Caruru da Bahia, quando os filhos de Iansã cumprem suas obrigações oferecendo grandes panelões de quinhentos e até mais de mil quiabos, dependendo de seus entedimentos com a santa. Antes, o candomblé era realizado no próprio mercado, mas o culto aberto foi proibido e as ofertas dos bichos de quatro pés aos santos passaram para os terreiros.
Conceição da Praia
No dia 8 de dezembro, homens e mulheres trocam os terreiros pelo grande espaço vazio que existe hoje entre a Rampa do Mercado e o Elevador Lacerda, onde antes havia o Mercado Modelo. Os atabaques são substituídos pelos berimbaus, as danças pela capoeira e os cânticos pelo samba de roda cantado até o dia amanhecer em volta das barracas que vendem peixe frito, batida e comidas típicas.
Alguns terreiros da Bahia, entretanto, batem para Nossa Senhora da Conceição, que no candomblé representa a divindade de Iemanjá, mãe de Iansã.
No último mês do ano, em apenas mais dois dias terreiros abrem. Não todos: o de Cecília do Bonocô (no Alto do Bonocô) é o mais importante que dedica suas festas a Oxalá. Iniciando o mês de janeiro, o terreiro de Olga de Ala Keto (Luís Anselmo, 69) bate animadamente anunciando o novo ano, bem como o candomblé de Oxumaré (av. Vasco da Gama), e muitas vezes o candomblé do finado Procópio, no Baixão, também abre as suas portas.
Honrarias
Para o etnólogo Valdeloir Rego, que também fabrica jóias inspiradas nas divindades negras, na verdade a vida do candomblé nunca se interrompe de janeiro a dezebro. Há sempre uma celebração de nome de Iawô (iniciação) ou uma confirmação de título de Ogan (para sexo masculino) ou uma confirmação para título de Eked (para o sexo feminino).
Existem também festas fixas de que somente os sacerdotes podem participar; uma delas é na madrugada do dia 31 de dezembro para primeiro de janeiro. Os pais-de-santo fazem uma prática divinatória fechada para saber quem vai governar o novo ano. É impressionante como todos os terreiros da Bahia mostram, noticiam ao mesmo tempo a divindade que está governando a humanidade.
Este ano foi governado por Oxossi. Há sempre uma expectativa muito grande no último dia do ano, pois poderá entrar como governante um santo de guerras, pestes e desgraças, e os terreiros têm de estar preparados para neutralizar, com seus trabalhos, as vontades desses deuses negros que são exigentes e caprichosos.
Mistério negro
A passagem de ano na Bahia, é sempre envolvida em mistérios, crenças e costumes herdados principalmente dos negros. Quem passar nas ruas mais velhas de Salvador, no Pelourinho, no Desterro, em Santo Antônio Além do Carmo e em muitos outros locais da cidade velha verá as donas-de-casa lavarem seus passeios, jogando fora "toda a sujeira do ano que passou". O cheiro de incenso toma, de ponta a ponta, as ruas tortuosas e estreitas, calçadas com pedras coração de negro. Todas as luzes das casas estão acesas. É um sinal de que todos estão acordados, até as crianças para que o ano "não passe por cima delas". Uma mesa pequena e humilde com farofa de dendê, xinxim de galinha e caruru também é chamada pomposamente de "mesa de ceia".
Meia-noite em ponto, enquanto os navios da baiana apitam longamente na Bahia de Todos os Santos, os filhos tomam a bênção aos mais velhos e as mulheres depois dos cumprimentos incensam as casas, dizendo baixinho: "Nossa Senhora incensou seu santo filho para cheirar, manda o bem entrar". Em muitas casas da velha Salvador, o incenso, a mirra e o estoraque — os presentes dos três reis magos — ainda são indispensáveis numa noite de ano.
Quando o dia do novo ano madruga na praia Boa Viagem o samba de roda anima-se, as barracas vendem mais batidas. É lá que se sabe todo o fuxico do candomblé e se espalha a notícia do novo comandante de cada dia que vai passar na Bahia naquele ano. Se é um santo muito forte como Omulu que vai comandar o mundo, a preocupação dos negros baianos é um pouco maior, mas não se desesperam: há sempre um belo galo vermelho, ou um bicho de quatro pés para acalmar os seus ânimos sagrados.
Práticas divinatórias
Dezesseis búzios, oito machos e oito fêmeas, decidem a sorte na Bahia, nas práticas divinatórias que funcionam de janeiro a dezembro. Milhares de pessoas pautam toda a sua vida a partir da posição em que caem os dezesseis búzios (dilogun). Quinze búzios caem para cima, um emborcado: é exu que está falando. Às vezes anuncia a vinda de um outro santo para falar, outras vezes ele mesmo dá conselho às pessoas e atende às consultas.
— Meu marido não me dá um desquite, eu não quero mais vê-lo, ele é insuportável, quero fazer um trabalho para que ele me deixe — diz uma turista para Olga de Ala Keto (Luís Anselmo, 69).
A mãe-de-santo (ou o pai) nunca diz nada. Quem fala são os búzios que determinam o que fazer. Colocar acaçá e uma galinha negra ao pé de uma jaqueira pode ser uma missão determinada pelo santo para o atendimento do pedido.
Às vezes os pedidos são severos. Pedem até a morte para se livrarem do companheiro ou da companheira. Outras vezes a consulta é apenas para orientar uma decisão que se deseja tomar. Jorge Amado — segundo contam — jamais faz uma viagem ou lança um livro sem fazer uma prática divinatória. O famoso pintor Caribé, antes de cada viagem ou de cada exposição, cochicha no ouvido de um galo o seu desejo antes de entregá-lo para o sacrifício. Pelo menos, é o que se comenta nos terreiros da Bahia, Vinícius de Morais e sua mulher Gessi, depois que fizeram a primeira prática divinatória, pretendem sempre se guiar pelas ordens dos santos através dos búzios.
A prática e o amor
Mas são os namorados e apaixonados que mais procuram as mães-de-santo para as práticas divinatórias. Segundo o etnólogo Valdeloir Rego, todos os ebós de amor são os mais estranhos. Às vezes uma mulher pretende prender um homem e terá que agir com todo cuidado, quase requinte.
Hoje, muitos amantes de Salvador, principalmente turistas, têm tido dificuldades para fazer o ebó para o seu amor porque quase sempre é necessário uma jaqueira tão larga que um homem não possa abarcar com os braços, e o futuro governador Antônio Carlos Magalhães, quando era prefeito, executando o seu amplo plano urbanístico da cidade, foi obrigado a derrubar quase todas que existiam nas encruzilhadas de barro que são hoje largas estradas asfaltadas. Mas algumas jaqueiras escaparam ao progresso, algumas delas podem ser encontradas numa encruzilhada no fim de linha de Brotas. Geralmente elas estão com uma fita branca amarrada em seu tronco (um trabalho) ou com uma bandeira branca em seu galho mais alto.
Como surgiu
Poucos que procuram as práticas divinatórias na Bahia conhecem a sua origem, a lenda africana de Oxum, deusa da beleza, que, apaixonada por Xangô, seu cunhado, irmão de Oxossi, fez o primeiro ebó que se conhece através das lendas.
Apesar de casada com Oxossi, Oxum era apaixonada por seu cunhado Xangô que sempre a evitava em consideração a seu irmão. Mas Oxossi viajava muito e um dia Xangô chegou à casa do irmão cansado e com fome. Pediu alguma coisa para comer e a cunhada preparou o seu prato preferido, mas cozinhou-o na água em que baixou a anágua (banhou-se). Xangô perdeu a cabeça e fugiu com sua cunhada, com quem vive até hoje em cada terreiro da Bahia, da África e de Cuba. Desde então, o ebó de amor mudou muito pouco porque as mulheres não conseguiriam uma bacia de ouro para se banhar.
Carrego da morte
Cercado de lendas e atualmente de edifícios, é no Dique do Tororó onde estão depositados todos os temores da gente de candomblé. Inúmeros trabalhos são feitos nas noites, e, sobre os constantes desaparecimentos de pessoas, os negros não têm a menor dúvida de que foi em conseqüência de um ebó. É lá também que é feito o axê-axê, uma cerimônia fúnebre em que são jogados os pertences rejeitados pelos santos. As barquinhas fazem três voltas nas águas escuras do Dique, e enquanto homens e mulheres cantam de olhos fechados, é atirado longe o carrego.
Antônio Carlos Magalhães quis retirar, sem saber sua importância, as barquinhas do dique que seriam substituídas por pedalinhos, mas seus assessores aconselham-no a desistir da idéia. Por isso, quem por acaso vir aquelas pequenas embarcações levando pessoas negras vestidas de branco, entoando cânticos, sabe que é um axê-axê de gente importante do candomblé.
No mesmo local está a alma do defunto que se vai embora com suas coisas jogadas fora pelo akirijibó — uma espécie de coveiro póstumo — "que geralmente é um homem cachaceiro e infeliz". Também nessa crimônia misteriosa está Iansã que acompanha a alma do cadáver enquanto tem alguma relação com a vida terrena. Omolu já está em outra parte porque quando a pessoa morre ele senta no cadáver para prendê-lo, abandonando depois o corpo.
Ballet dos monstros
No próximo dia 2 de fevereiro, dia também de festa no mar — em homenagem a Iemanjá — no Rio Vermelho, uma espécie de quilombo na ilha de Itaparica, vai se reunir para a festa de Baba Olokotum — o rei dos Eguns — e dono do terreiro de Barro Branco e Bela Vista.
Estranhos não são recebidos com muita naturalidade, mas quem conseguir penetrar no Barracão verá uma dança exótica executada por ancestrais africanos que se corporificam em tiras de panos coloridos para dançar, cantar e dialogar com os vivos. Esse é o culto mais misterioso e mais fechado da Bahia.