Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VI - Edição 73
Dezembro de 2004
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Alimentação no Brasil

Robert Walsh

Os habitantes do Rio não cultivam o trigo, mas apreciam muito o pão feito desse cereal, e são muito exigentes quanto à sua qualidade. Anualmente são consumidos de oitocentos a mil barris de farinha de trigo quase totalmente importada dos Estados Unidos, embora até há pouco tempo atrás não fosse muito usada. Hoje em dia ela substitui a farinha de mandioca, que é produzida no país. Os padeiros adquirem apenas alguns barris como amostra, antes de fazerem uma compra maior;farinha de qualidade inferior não pode ser vendida. Por causa disso, o pão de trigo do Rio é excelente; de fato, não pude encontrar nada melhor em nenhum país. O consumo, porém, é restrito às classes elevadas; os escravos nunca comem dele.

O alimento do pobre é o feijão-preto e a farinha de mandioca. O primeiro é sempre preparado com toucinho e a última é um pó branco, produzido pela trituração da raiz da mandioca e comida sem nenhuma preparação, a não ser a secagem e moagem. Ela é colocada numa cabaça junto com o feijão cujos bagos assemelham-se a besouros pretos arrastando-se num monte de cal. A mandioca é servida também com carne-seca; essa era a ração dos irlandeses. A carne era seca e dura, e a farinha grossa e áspera. Tempos depois um irlandês queixou-se a mim que “sua alimentação era constituída apenas de serragem e sola de couro”. Eles também usam a farinha de milho, mas esse cereal é mais comumente usado como parte da alimentação dos cavalos, aos quais os grãos são dados inteiros. Muitas vezes é cozido com açúcar ou melaço, e assim preparado é chamado de angu de milho, um saboroso pudim. É vendida nas lojas uma espécie de noz chamada mindoubi que cresce junto à raiz de uma pequena planta. Extrai-se dela uma grande quantidade de óleo; mas é usada também como alimento e é muito saborosa quando tostada no fogo. Vê-se sempre nas ruas as negras constantemente descascando e torrando amendoins.

É comum torrar a semente de um arbusto nativo chamado fedegosa e usá-la como café; alguns a consideram extremamente saborosa. É uma planta que cresce em profusão por todo o Rio, enfeitando as praias com suas flores amarelas.

O país é rico em frutas saborosas; o abacaxi é o produto mais abundante. À beira-mar, perto da entrada do porto, existe uma extensa área totalmente coberta por essa planta e certo dia, nesse local, percorri a cavalo mais de quatro quilômetros por entre pés de abacaxi. É uma planta nativa do Brasil e existem várias espécies que crescem nos baixios; ela é apregoada e vendida nas ruas com o nome de ananás. Eu sempre costumava comprar deliciosos abacaxis por um vintém cada.

Tão saborosa quanto estes é a manga, uma fruta maior do que a maçã e de cor sempre verde. Quando não está madura, seu suco é límpido e tão forte e acre como o cheiro da terebentina, da qual sempre conserva um certo sabor. Quando madura, sua polpa é de uma cor alaranjada forte, mas o caroço é coberto por fibras compridas e rijas que penetram na polpa tornando difícil separá-lo desta. Por causa disso, infelizmente, nunca pude saborear mais do que uma metade da fruta.

O jambo é uma fruta maravilhosa e lembra exatamente uma maçã em tamanho, forma e cor. Porém é oca por dentro e contém duas nozes que fazem ruído quando se sacode a fruta. Sua polpa tem a consistência de uma maçã, mas é mais insípida do que esta.

Há três tipos de murta cujos frutos são comestíveis. O primeiro, chamado grumixama, é uma fruta roxo-escuro, do tamanho de uma pequena ameixa; seu suco também é roxo. É altamente saudável e aromática, e é a mais saborosa das frutas nativas; com ela se fazem deliciosas conservas. O outro tipo, chamado de pitanga, tem aproximadamente o mesmo tamanho da anterior, mas é de um vermelho mais claro e sua superfície é cheia de nervuras. É azeda e acre, mas produz uma ótima conserva e com ela se faz um saboroso e forte licor. O terceiro tipo é chamado de cambuí e pode ser encontrado por toda a área à beira-mar compreendida entre a praia de Botafogo e o Pão de Açúcar, onde a fruta é colhida dessas murteiras e vendida por uma multidão de pessoas. Ela tem uma coloração marrom-escuro.

A fruta-do-conde é uma fruta nativa também muito apreciada. Tem o aspecto de um grande pinhão; a polpa tem a mesma consistência de um pudim. Foi introduzida uma nova espécie chamada cherimolea, originária do Peru e Chile, cujo fruto é muito saboroso.

O mamão é quase do tamanho de um abacaxi; cresce em cachos no topo de uma árvore. Sua haste é semelhante à do repolho e suas folhas são angulares. Está presente em quase todos os quintais do Rio, e isso é um dos traços característicos do país. O fruto tem um sabor forte e desagradável, semelhante ao odor do tutano dos ossos, de onde se origina, com razão, o seu nome.

O caju é uma fruta curiosa; consiste de um grande apêndice carnoso, do tamanho de uma maçã para assar, e apresenta no seu topo uma única semente do mesmo tamanho e forma de um grão de feijão, presa pela ponta. Você naturalmente poderia supor que a natureza tencionava fazer também do fruto maior uma matriz de sementes, mas ele contém apenas uma polpa carnosa, muito suculenta e refrescante, mas bastante acre. A semente, quando levada ao fogo, produz um vapor inflamável oue se acende com uma explosão, cujo efeito é semelhante ao de um pequeno fogo de artifício; é o divertimento das pessoas após o jantar.

O fruto de diversas espécies de flor-da-paixão é conhecido sob o nome genérico de maracujá, especialmente o dessa linda flor escarlate que enfeita nossas estufas na Inglaterra, mas que no Brasil é a flor mais comum que se vê nas sebes. A flor do maracujá é muito considerada pelos brasileiros pela mesma razão porque a chamamos de flor-da-paixão, ou seja, as partes da planta ligadas à frutificação se assemelham muito a vários símbolos relacionados com a cruz. Ela é assim descrita por um poeta:

“É na forma redonda, qual diadema
De pontas, como espinhos, rodeada;
A coluna no meio, e um claro emblema
Das chagas santas, e da cruz sagrada:
Vêm-se os três cravos, e na parte extrema
Com arte a cruel lança figurada:
A cor é branca; mas d’um roxo exangue
Salpicada, recorda o pio sangue”. (Caramuru. cvii, 39)

Devo dizer que a banana aqui ainda é considerada mais sagrada do que na Ilha da Madeira. O povo compartilha da superstição de que não se deve cortar a fruta transversalmente, pois se estaria partindo um símbolo sagrado; além disso, eles acreditam, como diz Du Tertre, que esse era o fruto de Adão no Paraíso, que viu nela a futura Santa Cruz. Essa fruta é o alimento comumente usado no café da manhã, não cortada em pedaços, mas passada na farinha da mesma forma que fazemos com o rabanete no sal.

Os habitantes do Rio são mais imoderados em relação à comida do que em relação à bebida. Não têm costume de tomar vinho do porto porque é muito forte e quente para o clima; o mais apreciado é o vinho catalão — pelo menos é consumido em grandes quantidades e sua importação anual é enorme. O povo em geral, e especialmente os negros, toma cachaça, um tipo inferior de rum, destilada da cana-de-açúcar. É uma bebida tão barata e acessível que os estrangeiros, particularmente os marinheiros, são grandes consumidores. Grande parte da má conduta e infortúnio dos alemães e irlandeses originaram-se aí, especialmente com relação aos últimos que, quando recebiam rações de comida de má qualidade, intragáveis de se comer, trocavam-nas por cachaça, que os embriagava rapidamente. Ela, porém, não é uma bebida prejudicial ou intragável; no inverno e na estação chuvosa é geralmente considerada como um saudável antídoto contra os efeitos do frio e da chuva. Recentemente, um fabricante vem tentando aprimorá-la através de novos processos, transformando-a numa bebida tão boa quanto o rum.

(Walsh, Robert. Notícias do Brasil; 1828-1829. Belo Horizonte, Editora Itatiaia; São Paulo, Editora da Universidade de São Paulo, 1985, v.1, p.215-219)
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