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J. C. Paixão Cortes
É variável o número de participantes de um
"terno" pois nem sempre os cantadores são também instrumentistas, e isto obriga
a uma maior divisão de funções. No geral, não vai além de oito pessoas: o mestre
ou guia e o ajudante de mestre; contra-mestre e ajudante de contra-mestre; o
tipe; o tambor; o triângulo e a rabeca. O mestre, que é o diretor, deve não só
ser um bom repentista como também um bom conhecedor da história do nascimento de
Jesus, principalmente no que se refere à visita dos Reis Magos. É o mestre (em
primeira voz) que inicia o canto acompanhado de seu ajudante (em segunda voz); o
verso é então repetido pelo contra-mestre e seu ajudante, também em primeira e
segunda voz, respectivamente. O tiple ou tipe ou ainda tipi, é
ordinariamente uma criança que se encarrega de cantar as firmatas
características do segundo e do quarto verso de cada estrofe ou somente deste
último. Podem existir um ou dois tipes em cada terno. Sobre esta figura assim
se expressou o folclorista Mário de Andrade: "A mim me parece que o quipe que
'faz o contracanto' é o mesmíssimo 'tiple', também 'tipe' pela nossa gente
folclórica, palavra de terminologia musical espanhola que nomeia o soprano (se
trata dum menino) muito generalizada nas cantorias brasileiras para indicar uma
voz subalterna.
Embora raro, encontramos o terno acompanhado de
pau de fita, boizinho, bumba-meu-boi etc., então com suas representações coreográficas algo dramáticas,
lembrando um rancho definido por Mário de Andrade. Aparecem também por vezes
homens vestidos de mulheres, bem como os arcos de flores das "jardineiras", os
cavalheiros, os porcos, caiteto, uma verdadeira bicharada.
Letra e música
As estrofes de nossos ternos de Reis, são quadrinhas na maioria das vezes de
feitura popular, heptasílabas que narram episódios referentes ao nascimento de
Cristo. Podemos classificá-las como religiosas e profanas. As primeiras são
aquelas que no seu conteúdo mantêm bem vivo o motivo cristão das comemorações da
Bíblia. As profanas são as que fogem ao tema do ciclo natalino religioso. Mas
antes desta narração encontram-se os versos de chegada ou de saudação, à porta
da casa. Os versos compreendem vários ciclos: anterior ou véspera de 25, dia de
Natal, de 25 à 1º do ano e de 1º de janeira ao dia de Reis. As estações são
cantadas de acordo com o decorrer dos dias, e obedecem as seguintes principais
frases: Chegada, Entrada, Louvação, Peditório, Agradecimento e Despedida.
Cada terno tem mais ou menos decorado um número grande de versos, podendo no
entanto "o mestre" acrescentar improvisos que a situação exigir.
As letras e músicas que publicamos foram-nos fornecidas pelo mestre e ternos de
diversas localidades:
Mestres:
Leodato - Sanga Funda - Osório
Negra Paim - Vacaria
Romeu Paulino da Rosa - Bom Retiro
Pedro Vargas - Capão da Canoa - Osório
Diomar José Cândido - Nitéroi
Ternos:
Três Figueiras - Guaíba
Campeão da Serra - Esteio - Canoas
Capão Alto - Guaíba
Barão do Triunfo - São Jerônimo
Niquito - Santo Antônio da Patrulha
Santos Amigos - Porto Alegre
Cavalhada - Porto Alegre
Fazenda Divisa - Camaquã
Flor de Cipreste - Guaíba
Cancioneiro Celeste - Gravatal
Pedras Brancas - Guaíba
Faxinal - São Jerônimo
Irmãos Passos - Canoa
Irmãos Diehl - Novo Hamburgo
Irmãos Vargas - Campo Bom
Tira Cisma - Porto Alegre
Gaúchos do Sarandi - Sarandi - Porto Alegre
Flor de Maquiné - Maquiné - Osório
C.T.G. Paixão Cortes - Caxias do Sul
São numerosas as melodias existentes. Variam de região para região. Talvez os
tipos de instrumentos musicais acompanhantes tenham contribuído para o
surgimento dessas variedades. Em nossas pesquisas registramos inúmeras "toadas".
As melodias geralmente apresentam duas partes distintas: uma bastante lenta,
corresponde aos versos cantados; a outra somente tocada, no geral caracteriza-se
por uma aceleração do ritmo.
A seguir damos um exemplo da maneira de como é "tirado" um verso pelos cantores:
Cantam: mestre e seu ajudante
Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar
Repetem: contra-mestre e seu ajudante
Os três Reis por serem Santos
Os três Reis por serem Santos
Se puseram a caminhar
Cantam: mestre e seu ajudante
Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar
Repetem: contra-mestre e seu ajudante
Procurando Jesus Cristo
Procurando Jesus Cristo
Em Belém foram encontrar
Em outros ternos, porém, cantam os "reses" quadrinha por quadrinha; assim como
as melodias, as maneiras de cantar são também distintas.
Geralmente eles terminam o verso bem "choroso", acrescentando "oi"...
Instrumentos
Os instrumentos musicais que podem considerar como tradicionais são: viola,
rabeca, gaita, violão, tambor ou caixa de triângulo.
Comum outrora era a parceira da viola com a rabeca acrescida quase sempre de
tambor ou triângulo. Na falta deste último um estribo de meia picaria é também
usado.
Atualmente a gaita tomou conta da parte musical, fazendo-se acompanhar do violão
e não raro de pandeiro, chocalho e cavaquinho.
Visita
Em traços gerais a visita dá-se da seguinte maneira: no terreiro da casa, o
"terno" tendo a frente o "mestre" e o "ajudante", faz em verso de "saudação" ao
dono da residência, solicitando permissão para cantarem e ao mesmo tempo
justificando-se da sua chegada:
Chegada
Agora mesmo chegamos
Na beira do seu terreiro
Para tocar e cantar
Licença peço primeiro
Meu senhor, dono da casa
Acordai, se estais dormindo
Venha ver a estrela d'alva
Que bonita está saindo
Meu senhor, dono da casa
Se escutar me ouvireis
Que dos lados do Oriente
São chegados os três Reis
Vimos lhe cantar os Reis
E também lhe visitar
Ó de casa, casa santa
Onde Deus veio habitar
Meu senhor, dono da casa
Peço licença pra cantar
Recebei este terno
O passado vem lembrar
Meu senhor, dono da casa
Com sua devida licença
Vim saudar o Deus Menino
Nesta sua residência
Toda a gente e todo povo
Nesta casa quer chegar
Para ver Jesus Menino
Que a todos vem salvar
O senhor dono da casa
Por favor nos mande entrar
Nosso terno está aflito
Para o Menino adorar
Meu senhor, dono da casa
Com licença do senhor
Querem entrar nesta casa
Baltazar, Gaspar e Melchior
Agora mesmo cheguei
Botei o pé na calçada
Vira fazer uma visita
Aos donos desta morada
Meu senhor dono da casa
Escutai o verso primeiro
Chegue na porta da frente
Presenciar o seu terreiro
Lá de longe destinamos
Na sua casa chegar
Para seu merecimento
Vimos lhe visitar
O de casa, casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde mora bom Jesus
Com a hóstia consagrada
Levantai se estais dormindo
No seu delicado sono
Venha ver Menino Deus
Nos braços de Santo Antônio
Arrecem vamos chegando
Com a estrela de guia
Procurando Jesus Cristo
Filho da Virgem Maria
Meu senhor dono da casa
Chegamos em seu terreiro
Para cantar e tocar
Licença peço primeiro
Chegamos aqui chegamos
Em seus portões sagrados
Que seja venturoso
Por Deus abençoado
Vamos lhe cantar os Reis
E também lhe visitar
de casa, casa santa
Onde Jesus veio habitar
Meu senhor, dono da casa
Escutai que ouvireis
Lá do lado do Oriente
Vão chegando os três Reis
Entrada
Se o proprietário concorda — geralmente muito satisfeito e feliz
— abre a porta,
convidando o mestre e seus cantadores para passarem. Existe mesmo uma certa
tradição que consiste em o proprietário aguardar alguns versos para no caso
positivo de receber o terno, acender as luzes da casa.
Porta aberta, luz acesa
Sinal de muita alegria
Entra eu, entra meu terno
Entra toda a companhia
Graças a Deus já vimos
Sua casa iluminar
Já que nos abriram a porta
Falta nos fazer passar
Este é o primeiro verso
Que nesta casa eu canto
Em nome de Deus começo
Padre, Filho Espírito Santo
Estes três Reis por serem santos
Que saíram a caminhar
Procurando Jesus Cristo
Nesta casa vieram achar
Esta casa está bem feita
Por dentro e por fora não
Por dentro cravos e rosas
Por fora manjericão
Porta aberta luz acesa
São sinais de alegria
Boa sorte lhes desejo
Neste venturoso dia
Graças a Deus que já vi
Luz nesta casa a luzir
Meu senhor dono da casa
A porta mande me abrir
Meu senhores donos da casa
Licença peço outra vez
Este terno lhes visita
Festejando os Santos Reis
Veio nos abrir a porta
com toda satisfação
Recebendo este terno
De todo o coração
Este é o primeiro verso
Que nesta casa eu canto
Em nome de Deus começa
Padre, Filho, Espírito Santo
Meu senhor, dono da casa
Esta vai a seu louvor
viemos lhe acordar na cama
E um raminho de flor
Meu senhor dono da casa
Homem de muito valor
Lá no céu nos a de achar
Numa cadeira de flor
Ó feliz abrir a porta
Que estou com o pé na calçada
Si não nos abrir a porta
Não sou feliz, não sou nada
Pelo buraco da chave
Vejo vela reluzir
Eu já tenho fé em Deus
Que a porta nos vem abrir
Meu senhor dono da casa
Bote a mão na fechadura
Tenha pena, tenha dó
Destas pobres criaturas
Deus te salve, casa santa
Onde Deus fez a morada
Onde está o cálix bento
De uma hóstia consagrada
Graças a Deus que já vimos
Pelas frestas reluzir
Temos muita fé em Deus
Que a porta nos há de abrir
Meu senhor dono da casa
Queira bem nos desculpar
Já que nos abriu a porta
Só falta mandar entrar
* * *
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