Ascenso Ferreira, o maravilhoso poeta nordestino que tão bem soube interpretar o sentimento poético do povo, conseguiu impregnar-se de tal jeito do folclore de sua região que, sobretudo dizendo ele próprio seus versos, deixa de ser apenas um poeta para representar a própria poesia popular. Um de seus poemas interpreta magistralmente a madraçaria inata dos "boa-vida" e dos amigos da malandragem numa pequena poesia de sua obra Cana-caiana, que leva o sugestivo e adequado título de Filosofia:
Hora de comer — comer!
Hora de dormir — dormir!
Hora de vadiar — vadiar!
Hora de trabalhar?
— Pernas pro ar que ninguém é de ferro!
Esta filosofia da malandragem e da preguiça, consubstanciada também em musiqueta muito cantada nos últimos carnavais: "Trabalhar, eu não, eu não", encontra-se, igualmente, no populário tradicional. Uma poesia que, há dez anos, me ditou a minha preciosa informante Olímpia Aragão Aranda, por ela aprendida em sua mocidade, no fim do século XIX, em nossa cidade natal de Viçosa, tem o título de A semana do vadio:
No domingo nada faço
Porque sou fiel cristão
Na segunda, porque abraço
Da preguiça a profissão
Na terça, porque o cansaço
Me obriga a ser mandrião
Na quarta, não dou um passo
Porque temo dar em vão
Na quinta, porque adoeço
Com medo de trabalhar
Na sexta, porque padeço
De infecção pulmonar
No sábado, porque conheço
Que é preciso descansar
A produção parece, à primeira vista, não ser inteiramente popular ou, pelo menos, denota ter sido retocada por algum semi-erudito; pois além do emprego da rima do tipo abab, mais comum na poesia culta do que na poesia do povo, faz referência a "infecção pulmonar", expressão que o vulgo, pelo menos entre nós, ainda não costuma empregar. Infecção pulmonar para o nosso matuto ou para a gente do povo é "dor na caixa dos peitos", é "catarro amalinado", e, se for específica, é "tisga", é "fininha", é "fraqueza" e outros eufemismos com que se costuma batizar a tuberculose.
Contudo, se a peça parece ter tido a colaboração de algum entendido, ela deve ser tradicional e perfeitamente popular. Numa obra publicada em França, em 1883 — Rimes de jeux de Penfance — já era registrada como tradicional por E. Roland, sob o título de Formulette de la semaine du paresseux, sob cinco variantes colhidas em Pacy-sur-Eure, Finisterre, Loiret e Oreusse, das quais transcrevemos as duas seguintes:
Lundi, mardi, féte;
Mercredi, peut-être
Jeudi, la Saint-Nicolas
Vendredi, on ne travaille pas
Samedi, petite journée
Dimanche on va se promener
Lindi, mardi, féte
Mercredi, je p'y peue être
Jeudi, la Saint-Thomas
Vendredi, je n'y sarait pas
Samedi, au marche
Dimanche, á la [?]
Voilá ma semaine laite
Ensinando que os pais das crianças preguiçosas e pouco aplicadas nas escolas de França costumavam recitar-lhes a parlenda como ironia, Van Gennep (Manuèl de folklore français contemporain, p.182) registra um aversão de Ile-et-Vilaine, por sua vez variante de outra que Chapiseau, sob o mesmo título, havia publicado no seu Folklore de Beauce et Perche (p.84).
Não temos conhecimento da existência da parlenda ou da poesia na Península, mas é de crer exista ela também aí, como em outras partes da Europa, pois que o mestre João Ribeiro, em O folclore, citando uma das versões de Roland, referiu-se, a propósito dela, em nota de pé de página, a um trabalho de Herman Urtel — Zur Volksliteratur der Vogesen.
Se a Semana do vadio ou da preguiça e sua filosofia se patenteiam deste modo nas tradições populares, não quer dizer, todavia, que o populário brasileiro e mesmo o universal só abriguem produções poéticas referentes aos amigos da malandragem e da "boa-vida".
Ao lado da Semana do vadio pode registrar-se o seu oposto, isto é, a Semana do trabalhador. Nela as penas e as vicissitudes daqueles que ganham o pão com o suor de seu rosto, segundo o preceito bíblico, se encontram assinaladas.
Já numa peça de Guerreiro, colhida em 1945, no Pilar (Alagoas) através de mestre Manuel Lourenço, se descreve a semana de um trabalhador rural:
Z 532x - João
Segunda-feira eu vou trabalhá
Na terça-feira vou pra meu serviço
Na quarta é um precipiço
Quando eu pego a rimá
Na quinta vou maginá
Na sexta recebo dinheiro
Sabo vou a Limoeiro
Domingo tou no Pilá
É bem verdade que nesta semana nem todos os dias são de trabalho no "cabo da enxada". Somente na segunda e na terça-feira há referências ao "pesado". Mas deve se relevar o fato, pois que o autor da "peça" é poeta e cantador popular. Tinha necessariamente que reservar alguns dias da semana para a elaboração poética: "na quarta é um precipiço, quando eu pego a rimá, na quinta vou maginá"; mesmo porque, mormente para um cantador e "mestre de folguedo", nem só de pão e carne deve viver o homem. E quanto aos dias restantes da semana ele afinal os empregava em receber dinheiro — coisa muito mais agradável, convenhamos, que trabalhar — e em ir gastá-lo à vontade nas feiras de Limoeiro ou do Pilar.
Situação, aliás, que é muitas vezes melhor que a do trabalhador de antigamente; da primeira década do século, como se refere numa tradicional e conhecida "embolada", ainda hoje ouvida entre "mateus" de reisado ou cantadores de "pagode" (coco):
Um home pobe
Não pode sê verdadeiro
Não pode ajuntá dinheiro
No serviço de alugado
Vai na segunda
Vai na quarta, vai na terça
Vai na quinta, vai na sexta
No sabo tá enfadado
Quando é domingo
Vai na casa do patrão
A conta já está feita
Só lhe resta dois cruzado
Chega em casa
Bate a mão no gereré
Com o véio do coité
Vai pescá nos alagado
E chega lá
Se o espírito não me engana
Se enterra dento da lama
Pesca caborge atolado
Diz a mulé:
Não posso andá em jejum
Agora que pesquei um
Vá fazê um escardado
Ela arrespondeu:
— Marido, não tem farinha!
— Vá na casa da vizinha
E tome um pouco emprestado...
Drama terrível que, felizmente, já começa a ser remediado pela melhor compreensão da questão social no Brasil, e que não é somente nosso mas que se encontra também na Hispano-América, como o documenta uma Semana do Trabalhador, que Gustavo Muñoz (La literatura colonial y popular de Colombia) transcreve e na qual o herói, como quase sempre acontece entre nós, embora as peças folclóricas citadas não o tenham revelado, termina como o indefetível e costumeiro rifão:
Señores: vengo a contales
Las gracias de San Miguel
El lunes cortó la cana
El martes se fué a moler
El miercoles hizo carga
El jueves se fué a vender
El viernes pegó la plata
Sábado se fué a beber
Y el domingo amaneció
Que no se podia mover