Das frutas do país a mais louvada
É o régio ananás, fruta tão boa
Que a mesma natureza, namorada
Quis como a rei cingi-la da coroa
Tão grato cheiro dá, que uma talhada
Surpreende o olfato de qualquer pessoa
Que, a não ter do ananás distinto aviso
Fragrância a cuidará do paraíso
As fragrantes pitombas delicadas
São como gemas d'ovos na figura
As pitangas com cores golpeadas
Dão refrigério na febril secura
As formosas goiabas nacaradas
As bananas famosas na doçura
Fruta que em cachos pende e cuida a gente
Que fora o figo da cruel serpente
Distingue-se entre as mais na forma e gosto
Pendente de alto ramo o coco duro
Que em grande casca no exterior composto
Enche o vaso int'rior de um licor puro
Licor que, à competência sendo posto
Do antigo néctar fora o nome escuro
Dentro tem carne branca como a amêndoa
Que a alguns enfermos foi vital, comendo-a
Não são menos que as outras saborosas
As várias frutas do Brasil campestres
Com gala de ouro e púrpura vistosas
Brilha a mangaba e os mocujés silvestres
Os mamões, moricis, e outras famosas
De que os rudes caboclos foram mestres
Que ensinaram os nomes, que se estilam
Janipo e caju vinhos destilam
Vê-se o camaleão, que não se observa
Que tenha, como os mais, por alimento
Ou folha, ou fruto, ou morta carne, ou erva
Donde a plebe afirmou que pasta em vento
Mas sendo certo que o ambiente ferva
De infinitos insetos, por sustento
Creio bem que se nutra na campanha
De quantos deles, respirando apanha
Gira o sareuê, como pirata
Da criação doméstica inimigo
À canção da guariba sempre ingrata
Responde o guaxinim, que o segue amigo
Da vária caça, que o caboclo mata
A narração por longa não prossigo
Veados, capivaras e coatias
Pacas, teús, periás, tatus, cotias
Entre as voláteis caças mais mimosa
A zebelê, que os francolins imita
É de carne suave e deliciosa
Que ao tapuia voraz a gula incita
Logo a enha-popé, carne preciosa
De que a titela mais o gosto irrita
Pombas verás também nesses países
Que em sabor, forma e gosto são perdizes
Juritis, pararis, tenras e gordas
A hiraponga no gosto regalada
As marrecas, que ao rio enchem as bordas
As jacutingas, e a aracan prezada
E, se do lago na ribeira abordas
De galeirões e patos habitada
Verás, correndo as águas na canoa
A turba aquátil que, nadando, voa
Piscoso o mar de peixes mais mimosos
Entre nós conhecidos rico abunda
Linguados, sáveis, meros preciosos
A agulha, de que o mar todo se inunda
Robalos, salmonetes deliciosos
O xerne, o voador, que na água afunda
Pescadas, galo, arraias e tainhas
Carapáos, enxarrocos e sardinhas
Outros peixes, que próprios são do clima
Bejupirás, vermelhos e a garoupa
Pâmpanos, corimás, que o vulgo estima
Os dourados, que preza a nossa Europa
Carapebas, parus, nem desestima
A grande cópia, que nos mares topa
A multidão vulgar do xaréu vasto
Que às pobres gentes subministra o pasto
De junho a outubro para o mar se alarga
Qual gigante marítimo, a baleia
Que palmos vinte seus conta de larga
Setenta de comprido, horrenda e feia
Oprime as águas com a horrível carga
E de oleosa gordura em roda cheia
Convida o pescador que ao mar se deite
Por fazer, derretendo-a, útil azeite
Sobre a costa o marisco apetecido
No arrecife se colhe e nas ribeiras
As lagostas, e o polvo retorcido
Os lagostins, santolas, sapateiras
Ostras famosas, camarão crescido
Caranguejos também de mil maneiras
Por entre os mangues, onde o tino perde
A humana vista em labirinto verde
Reproduzido de Caramuru (poema épico do descobrimento da Bahia), Lisboa, Régia Oficina Tipográfica, 1781. Transcrição da edição da Livraria Garnier, Rio de Janeiro, sem data, possivelmente de 1913.