Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Ano VIII - Edição 89
Abril de 2006
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O famaliá

Saul Martins

Depois de alguns anos de cotidianas visitas aos poleiros, afinal o candidato a posse de um famaliá encontra um ovo de galo. Toma-o com cuidado e espera a quaresma entrar. E, na primeira sexta-feira, dirige-se para uma encruzilhada, onde permanece até que os ventos das horas mortas chegam a soprar-lhe o rosto. Nesse momento, então, coloca o ovo debaixo do braço esquerdo, ruma para casa e deita-se na cama.

Já está com febre!

Ao fim de quarenta dias, precisamente à meia-noite, sente partir o ovo, dele saindo um capetinha de quinze a vinte centímetros de altura, o famaliá, que é logo encarcerado numa garrafa preta e conservado em segredo.

No correr da vida, o diabinho ajuda seu padrasto, dando-lhe dinheiro, mas animando-o nos vícios. Depois, carrega-lhe a alma para o reino das trevas.

Há fazendeiros norte-mineiros, do vale do rio São Francisco, moradores no município de Januária, que possuem elevado número de famaliás, todos muito bem guardados. Com efeito, só pacto com o demônio justificaria o aparecimento de suas fortunas e as maneiras esdrúxulas que assinalam seus atos na vida social.

 

Martins, Saul. "O famaliá". Diário de Minas. Belo Horizonte, 31 de dezembro de 1950)
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