A bebida mais comum do Brasil é a aguardente de cana, a cachaça, com mais de cem denominações e que está ligada a um número infinito de manifestações populares. Podemos dizer mesmo, possuindo um folclore, aliás já estudado por vários autores.
Muitas são as bebidas fabricadas pelo povo, várias das quais se consomem, igualmente, em sociedade. Umas fermentadas, outras simples sucos adocicados e outras resultantes de combinação de ingredientes. Algumas para se beber, outras para utilização culinária, como o tucupi, que é o suco da mandioca brava, veneno perigosíssimo, mas que, uma vez fervido, perde as qualidades tóxicas.
Entre os índios, teve, e ainda tem, muita voga, o cauim, feito com mandioca, milho ou certas frutas, como o caju, pelo processo da mastigação e fermentado depois pela ajuda da saliva. Aliás, as bebidas à base da mandioca são muito comuns entre os índios e populações caboclas, como a chicha, o caxiri — que dá nome a uma festa — a jacuba, também chamada de xibé ou tiquira, e muitas outras que você, se coletar na região onde existem, deve procurar enumerar, dizendo como são feitas.
Na zona caipira é muito comum o quentão, que nas festas folclóricas, nos cururus, nos congos, nas rezas de Santa Cruz e de São Gonçalo, corre abundante. É um grogue com cachaça, açúcar e gengibre, que se bebe aquecido. Daí o seu nome. Há ainda o pau-a-pique, bebida tradicional em festas de Santa Cruz, também na zona caipira. Garapa é um nome genérico para várias bebidas com água ou cachaça, mel de abelhas e outros ingredientes e também para o caldo de cana, tomado um tanto fresco como ligeiramente azedo. O aluá, bebida fermentada de milho, abacaxi, arroz, com açúcar, podendo levar outros ingredientes, é bebida corrente em candomblés. O açaí é, talvez, a mais comum na Amazônia, feita com a fruta da palmeira desse nome e de uma cor arroxeada. Há uma quadra que diz:
Chegou ao Pará
parou
Tomou açaí,
ficou
Fazem-se refrescos e bebidas de inúmeras de nossas frutas, raízes, folhas etc. e alguns vinhos, como de caju, de laranja, de jabuticaba, de pêssego etc. A técnica é sempre popular, mas alguns se industrializaram, como foi o caso do guaraná. A maioria permanece ainda trabalho caseiro ou de pequeno artesanato. Na Bahia, na época de São João, e corrente o licor de jenipapo.
É impossível saber tudo que o povo bebe no Brasil, antes de coletas, como a que você está fazendo, nos fornecerem suficiente material.
Verifique também se há bebidas próprias para determinadas comemorações, como as de nascimento, batizado, aniversário, casamento. Ou até mesmo para velório. Pode dar-se o caso de ser a bebida comum, mas receber nome especial, como acontece em Belém do Pará. Ao nascer uma criança, convidam-se os amigos para "tomar o mijo", que não é mais que um cálice de vinho do porto. Trata-se possivelmente de magia simpática, pois o povo atribui à urina poderes sobrenaturais, como o de cortar males e anular feitiços. Esqueça-se alguém de convidar um amigo para o "mijo" e é pé de briga na certa. Sabemos também que em certas regiões do Nordeste são servidos, aos que visitam a mãe e a criança nova, o "cachimbo" e o "charuto", sendo a primeira bebida feita com mel de abelhas e cachaça e a segunda com mel de abelha e vinho do porto.