Jangada Brasil a cara e a alma brasileiras
Nesta seção, textos sobre receitas tradicionais; bebidas típicas; alimentos brasileiros; costumes à mesa; horta, pomar e criação; crenças, costumes e tabus relacionados à alimentação e alimentos...

Da caça dos ratos, das formigas e das lagartixas

Yves d'Evreux

Há outra caçada de um verme, tão divertida e agradável como as precedentes: é a dos ratos domésticos e selvagens.

Não comem os domésticos, ao menos que eu saiba, porém caçam-nos cruelmente, porque se entra um rato em qualquer casa, reúnem-se todos os habitantes, uns com arcos, e outros com flechas e paus, e com auxílio também de alguns cães não escapa o pobre rato.

Depois de morto, é espetado na ponta de uma vara, fincada no meio da aldeia, para servir de alvo ao exercício das flechas dos meninos.

As aldeias mais próximas dos portos, onde chegam navios, têm mais ratos, porque apenas sentem a terra, atiram-se às ondas, nadam, trocando assim o seu país natal, que é o mar, para ficar num país mais firme e seguro, que é a terra.

Comem os ratos selvagens que vivem nos bosques e, no dizer deles, é comida deliciosa.

Caçam-nos assim: cavam um buraco no meio de um certo lugar no mato, fazem várias estradas, semelhantes às coelheiras, ou terreiros de coelhos: reúnem-se depois muitos sujeitos, armados de paus, e vão fazer grande alarido ao redor desse fosso, como se costuma fazer nas caçadas dos lobos.

Batem as matas, e delas fazem sair os ratos, e eles fugindo, e encontrando esses buracos tão próprios para se ocultarem, aí entram, e então aproximando-se os selvagens, toma cada um conta do seu buraco, e entrando outros dentro do fosso, a cacete matam os ratos, dividem-nos igualmente, e regressam para a aldeia trazendo cada um o que lhe tocou.

Assam os ratos ao fumeiro ou sobre carvões, abrem-nos por diante sem lhes tirar a pele, a qual fazem tostar depois que o animal está cozido por dentro, para não perder a gordura, e depois os guardam dentro de uma porção de farinha.

São estes ratos assim preparados, guardadas as proporções, mais apreciados que os javalis e os veados, e às vezes trazem os selvagens quantidade incrível deles.

Caçam as formigas em tempo de chuva, por ser a época própria delas mudarem de habitação.

As que podem voar buscam a região do ar, deixando suas casas, feitas e cavadas na terra.

As outras, se por instinto natural desconfiam que podem as águas invadir suas grutas e estragar seus armazéns, celeiros ou despensa, pegam na bagagem, com ordem digna de ser mencionada, e auxiliadas com a experiência, como vou contar para servir de modelo a todas as outras.

Na nossa casa de São Francisco, no princípio das chuvas, um milhar de milhões de formigas saiu de uma caverna, perto daí, e veio tomar posse de um canto do meu quarto, onde cavou câmaras, antecâmaras e celeiros.

Numa bela manhã saíram todas, e trouxeram um alqueire, talvez, de ovos, indo em diversas estações, isto é, em distância de dois passos uma da outra.

Cada acervo trazia suas formigas em ordem, vindo descarregar cada uma o que trazia no montão próximo, e assim iam fazendo os outros acervos ou companhias.

Admirei-me de ver tantas formigas e tantos ovos, que deitavam mau cheiro.

Mandei fazer fogo, e atirar sobre estes ovos, e no caminho por onde passavam estes animais.

Puseram-se em alarme, e cada uma buscou salvar os ovos que pôde, como fez Enéias a Anquises, seu pai, na destruição de Tróia.

Não fui bem sucedido, porque regressaram ao lugar que haviam escolhido, não pensando talvez que me incomodassem, o que assim não aconteceu, porque reunindo-se todas por espaço de dois dias, deliberaram ir a pilhagem fora do quarto, mostrando-se contentes com a habitação que bem a meu pesar lhes dei.

Causar-vos-ia satisfação vendo estes animaizinhos, desde o amanhecer até ao anoitecer, fazer suas provisões, que são as folhas de uma certa árvore, em cujos ramos, como presenciei, estavam muitas para cortá-las e deixá-las cair em terra, onde cada formiga pegava no que podia e levava para os armazéns.

Tinham aberto dois caminhos, muito bons para o seu tamanho: por um iam as carregadas, e por outros as desembaraçadas, evitando assim a confusão e a mistura, embora fossem mais de quatrocentas as carregadeiras. O mesmo fazem as outras espécies de formigas.

É para admirar-se também a espécie de abóbadas, que com admirável indústria fazem quando querem caminhar abrigadas.

Caçam os selvagens somente as formigas grossas como o dedo polegar, para o que abala-se uma aldeia inteira de homens, mulheres, rapazes e raparigas.

A primeira vez que vi esta caçada, não sabia o que era, e nem onde ia tão apressada gente deixando suas casas para correr após as formigas voadoras, as quais agarram, metem-nas numa cabaça, tiram-lhes as asas para fritá-las e comê-las.

Caçam-nas também por outra maneira, e são as raparigas e as mulheres que, sentando-se na boca da caverna, convidam-nas a sair por meio de uma pequena cantoria, assim traduzida pelo meu intérprete:

"Vinde, minha amiga, vinde ver a mulher formosa, ela vos dará avelãs".

Repetiam isto à medida que iam saindo e que iam sendo agarradas, tirando-se-lhes as asas e os pés.

Quando eram duas as mulheres, cantava uma e depois outra, e as formigas que então saíam, eram da cantora.

Causa admiração vendo-se os grandes pedaços de terra que tiram de suas cavernas.

No tempo das chuvas tapam os buracos do lado das enxurradas, e deixam somente aquelas por onde pode vir a chuva raras vezes.

As formigas do Maranhão têm dois inimigos encarniçados, especialmente estas aladas: um, certa espécie de cães selvagens, com pêlo de lobo, fedorentos o mais que é possível, focinho e língua muito aguda, e que procura o formigueiro para alimentar-se; outro, uma qualidade de formigas corpulentas, que de ordinário nascem com as outras, como o zangão entre as abelhas, e enquanto são pequenas e fracas, trabalham conjuntamente sem fazerem barulho, e nem se ofenderem.

Quando grandes e fortes deixam as outras, fazem bando à parte, só e só, não vivem mais em companhia, e põem-se de emboscada pelo caminho onde costumam passar suas irmãs e parentas, como fez antigamente Abimelec, bastardo de Gedeon, sobre os setenta filhos legítimos de seu pai, seus próprios irmãos, os quais matou todos sobre uma pedra em Efra

Sirva disto ao leitor para aplicar como julgar acertado.

Eis como os nossos selvagens se distraem mais utilmente com estes animais, do que os nossos rapazes com as borboletas: de tudo se aproveitam e nada perdem, reunindo o útil ao agradável.

Vejamos o resto.

A caça dos lagartos, chamados pelos tupinambás tarture (os grandes) e toju (os pequenos), é feita por diverso modo conforme são da terra ou do mar.

Os marítimos habitam ordinariamente as praias cobertas de mangues, onde, duas vezes dentro do espaço de 24 horas, entra o mar.

Aí nutrem-se de caranguejos, de mexilhões, e de camarões, vulgarmente chamados em França de lagostins, e de peixes, que apanham na enchente.

Põem seus ovos nos côncavos das árvores.

Os selvagens caçam-nos e flecham-nos na vazante, enterrando-se pelo tujuco.

Para comida servem tanto como os coelhos, ou uma grande lebre, conforme o tamanho do animal.

Fervem-nos para fazer mingau ou assam-nos ao fumeiro.

Os franceses assam-nos ao espeto, bem untado de gordura de peixe-boi, e à primeira vista pensareis que são coelhos ou lebres espetados.

O guisado que deles se faz é muito parecido com o das lebres e coelhos, e muitos franceses gostam mais deles do que dos nossos coelhos.

Eu antes quero crer do que provar.

A caça dos lagartos terrestres é mais de meninos que de homens, embora tenha visto alguns homens atrás deles, como os meninos, e até vinte selvagens, homens e rapazes, atrás de três lagartos.

Apenas os pilham, assam-nos, e toma cada um a parte que lhe pertence, e acham-na muito boa.

Os rapazes, apenas os vêem correr pela casa, nas paredes ou nas árvores, flecham-nos, porém escolhem os maiores porque têm mais que comer: alguns têm o comprimento de um braço e a mesma largura.

Há outros vermes que não saem das árvores, deitados sobre folhas, expostos ao sol: dizem os selvagens que são venenosos, e por isso os deixam: não se assustam com a vossa presença, se os perseguirdes.

Parecem-se com os camaleões, de que ainda falarei, têm brilho nos olhos, e a cor de escarlate.

Costumam estes lagartos domésticos ajuntarem-se a unirem-se em forma de bola, de tal maneira que a cauda do macho toca a cabeça da fêmea, e reciprocamente, e assim todos curvados, tocam-se as duas cabeças e as duas caudas.

Tive medo quando vi isto pela primeira vez, porque não sabia o que seria, e nem se era alguma espécie de serpente, com quatro olhos e um só corpo enrolado.

Os lagartos fêmeas são mais grossos do que os machos.

Os pequenos lagartos põem ovos, de cinco até sete cada um, do tamanho da cabeça do dedo mínimo, num buraco, que cobrem de areia, fazendo o resto o calor do sol.

Os lagartos grandes põem ovos maiores, à proporção do seu corpo, e ordinariamente fazem ninhos nos tetos das casas, nos bosques, e para aí levam tudo o que acham ser mole, como sejam musgos, penas, algodão, farrapos, e freqüentam muito a casa se não lhes fazem mal.

Fazem tanto barulho como um cão, quando caminham e conduzem na boca o que acham, e é um prazer vê-los em tal lida.

Não fazem caminho direito quando constroem seu ninho, e antes usam de muitos rodeios para não serem descobertos.

O sol choca e faz abrir seus ovos, porque são muito frios e não têm calor próprio para isso.

São caçados por cobras grandes e horríveis, umas brancas como água, outras de cor violeta, e finalmente algumas manchadas de diversas cores.

Invadem até as casas para nos tetos caçarem estes lagartos, que apenas as pressentem ao longe, fogem como se a casa tivesse pegado fogo.

Mandei matar três cobras destas num domingo, quando eu e meus companheiros fomos dizer missa na capela de São Francisco, onde as achamos perseguindo os lagartos grandes, dos quais já tinham matado muitos.

Pagaram tal temeridade levando cada uma mias de cinqüenta cacetadas, e ainda se salvariam, se eu não as mandasse cortar em pedaços, que viveram e remexeram-se por mais de 24 horas, procurando reunirem-se, o que não conseguiram por estarem distantes umas das outras, talvez por quatro ou cinco passos.

Os selvagens têm muito horror destes lagartos, e dizem ser venenosos.

Os lagartos, quando velhos, perdem sua cauda, que fica negra, e por isso mesmo é frágil como vidro, e quebra-se por qualquer causa.

Não creio que elas renasçam, embora o afirme Aristóteles.

Fundo-me no que observei um lagarto grande, que estava na nossa casa de São Francisco, onde se conservou por dois anos sem cauda, vindo diariamente comer em nossa presença, com as galinhas com que se familiarizou.

Dizem, e os franceses o asseveram por experiência, que há uma espécie de lagartos grandes que apanham os frangos, e levam-nos para o mato, onde vão comê-los.

 

(Evreux, Yves d'. Viagem ao norte do Brasil feita nos anos de 1613 a 1614. 3ª ed. anotada aos cuidados de Sebastião Moreira Duarte, São Paulo, Editora Siciliano, 2002, p.207-211)
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