Jangada Brasil, a cara e a alma brasileiras
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Abril 2005 - nº 77 - Ano VII


Sumário

Festança

Procissão de São Jorge
Thomas Ewbank

Dança de guerra dos tupinambás
Jean de Léry

A hospitalidade
José de Alencar

Cancioneiro

Peleja de Vicente Sabiá com Antônio Coqueiro
José Pacheco

A Rita Medeiros
Leonardo Mota

O folclore do papagaio
Zé Pingado

Imaginário

O roubo das flechas

A boiúna e o irapuru
Raimundo Morais

O castigo da ambição
Figueiredo Pimentel

Colher de Pau

Geribita
Getúlio César

Batizar o vinho e o leite...
Guilherme Santos Neves

As saúdes de mesa
José Calasans

Oficina

Melhoramento dos gados
Miguel Calmon du Pin e Almeida

Calendário mandioqueiro
Carlos Borges Schmidt

Os homens da massa e do pão
Hildegardes Viana

Palhoça

Engenho Velho
Daniel Parish Kidder

Cerâmica marajoara
L. de Castro Faria

Os tupinambás conheciam os astros e as estrelas
frei Claude d’Abbeville

Panacéia

Superstições e o cuco papa-lagartas
Eurico Santos

Os curandeiros indígenas
Otto Willi Ulrich

Doença produzida pelo ar
José Pimentel de Amorim

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Simplicitate Design

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Imaginário
Textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

O castigo da ambição

Figueiredo Pimentel

O padre Isidro era de uma ambição desmedida. Homem talentoso, muitíssimo instruído, todo o seu desejo era subir, subir sempre, tornar-se rico poderoso e célebre.

Um dia soube da existência de um mágico que sabia de tudo, e de tudo era capaz.

Dirigiu-se a ele, que o recebeu excelentemente bem.

— Que queres tu, meu filho?

— Tudo! respondeu Isidro.

— Tudo, como? Que entendes por isso?

— Tudo — quero dizer: quero ser o mais que puder, ter o que for possível.

— Gosto disso, respondeu o mágico. Aprecio a tua franqueza, e estimo os ambiciosos. Fizeste bem em vir ter comigo, pois muito posso fazer em teu benefício. Receio, todavia, que sejas ingrato.

— Isso não! falou o padre. Ingrato não serei.

— Então prometes que te lembrarás de mim?

— Prometo.

— Bem então ouve... Espera primeiro.

O mágico tocou uma campainha de ouro, e apareceu um anãozinho negro, vestido de vermelho.

— Zano, disse ao pretinho, este senhor ceia comigo. Apronte duas perdizes para a ceia.

— Visto que és ambicioso, triunfarás desde já. Nesse intervalo, bateram à porta.

Era um mensageiro, que viera a todo a galope trazer uma carta a Isidro.

O bispo do lugar acabava de morrer e o padre fora escolhido para substituí-lo.

— Que felicidade! exclamou o mágico. Estimo que recebas tão boa notícia em minha casa. E como estás feito bispo, aproveito o ensejo para pedir-te o lugar de teu secretário.

— Desculpe-me, responde o novo bispo, mas não posso servi-lo nessa pretensão. Reservo esse lugar para meu irmão. Se quiser, porém, vir comigo, prometo-lhe um bom lugar.

O nigromante aceitou e puseram-se ambos a caminho.

Chegados à sede do bispado, alguns dias depois, veio a notícia que o arcebispo falecera, e Isidro fora chamado para substituí-lo.

— Já que vossa reverendíssima passa a arcebispo, desejaria ser bispo lembrou o feiticeiro.

— Bispo não, disse Isidro, porque meu tio, que é cônego, já me fez esse pedido. Deixe estar que não me esquecerei do senhor.

O arcebispo, menos de um mês após, era nomeado cardeal.

— Senhor cardeal, disse-lhe o mágico, vossa eminência tem-se esquecido de mim, e eu vim pedir-lhe o lugar vago de arcebispo.

— Ora, meu amigo, acabei de nomear um dos meus amigos e companheiros de seminário. Venha a Roma que aí me será fácil colocá-lo.

O cardeal Isidro subiu a papa. Chegara à maior posição do mundo inteiro.

E nigromante dirigiu-se a ele.

— Ei-vos papa, ei-vos senhor do mundo! Venho agora lembrar-vos a vossa promessa. Desejo ser cardeal.

— Cardeal! Você enlouqueceu? Quer ser cardeal? Sabe que mais? Dou-lhe um lugar de criado. Serve-lhe?

— Ah! Quando fostes me procurar, bem previ a vossa ingratidão! Os homens são assim; prometem muito, quando precisam de nós, mas desde que se vêm em altas posições, esquecem-se.

— Se você continuar a falar deste modo, mando atirá-lo pela janela afora, disse o orgulhoso e soberbo papa.

— Zano, falou o feiticeiro tranqüilamente, ponha apenas uma perdiz no espeto; este senhor não ceia comigo.

Tudo desapareceu Roma, o Vaticano, o papa e os esplendores.

Isidro viu-se na casinha do feiticeiro, que lhe disse

— Então?! e se eu fosse acreditar nos seus protestos de gratidão?

(Pimentel, Figueiredo. Histórias da baratinha. Rio de Janeiro, Livraria Garnier, 1994, p.109-110)
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