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Carlos da Costa Pereira
A ratoeira é uma dança muito popular no interior catarinense, e este estudo
aqui será baseado em dados colhidos no município de Lajes, que em algumas partes
parece diferir um pouco dos estudos feitos pelo senhor W. Piazza nos municípios
de Camboriú, Porto Belo, Biguaçu e ilha de Florianópolis. A música é a mesma
apresentada por este, e é dançada em compasso ternário.
As ratoeiras têm lugar nos bailes, de preferência pela meia-noite, após
haverem pedido licença aos pais das moças. Dado início à formação da ratoeira, a
música toca uma valsa, e os que tomam parte nesta convidam os seus pares e saem
dançando naturalmente, logo que todos se encontrem dançando, formam um círculo
de mãos dadas. Após, alguém dos mais idosos, ou então o dono da casa, determina
quem deverá cantar em primeiro lugar, se moça ou rapaz. A música aproxima-se do
círculo para acompanhar as quadrinhas, que vão desde as declarações de amor e
confirmações, e até desafios aos rivais, não raro ouvindo-se quadras
verdadeiramente sarcásticas e satíricas. Geralmente, para darem início às trocas
de quadrinhas, apresenta-se um par voluntário, e, se isto não acontecer, será
lançada uma sorte, e o primeiro par posta-se no centro do círculo, agora
dançando a valsa que a música continua tocando. Neste nosso estudo, o rapaz foi
o apontado para cantar a primeira quadra, a moça responderá, e assim até o
término da ratoeira.
O moço é um apaixonado, então canta uma quadra como esta:
Desde o dia em que eu te vi
Meu coração te adorou
Na corrente dos teus olhos
Minha alma presa ficou
Todos os que fazem parte da ratoeira repetem em coro esta quadra acompanhados
pela música, agora tocando com mais energia. A moça, também apaixonada,
responde:
Mil corações que eu tivesse
Com todos havia-te amar
Mil vidas que Deus me desse
Por ti havia arriscar
Como a primeira, todos repetem; após, estes voltam para o círculo e outro par
toma o seu lugar, que é ainda de dois apaixonados.
O vento que ventou hoje
Bateu na folha da palma
O dia que não te vejo
Não tenho corpo nem alma
Azul é a cor do céu
Cor do mar quando está manso
Meus olhos quando te enxergam
Meu coração dá um balanço
Dum enamorado pedindo confirmação:
Plantei um pé de cravo
Dentro dum copo de vidro
Resolva o teu coração
Que o meu está resolvido
A moça, também apaixonada, responde:
Da parreira nasce a uva
Da uva se faz o vinho
Teus braços serão a gaiola
Eu serei o passarinho
De outro apaixonado, com a resposta negativa da moça:
Querer bem como eu te quero
É impossível outro querer
Fazendo o impossível
Sem nunca te merecer
Já te disse que não te quero
Já te dei bom desengano
Não me importo que tu morras
Atolado no pântano
Ainda outro apaixonado, com a resposta da moça de quem a família do rapaz não
goste:
A flor do lírio cresce
Mais no céu não pode chegar
Se casamento for sorte
Contigo me hei de casar
Se eu não casar contigo
Não vás ficar descontente
Que não é por causa de ti
É por causa de tua gente
Quando a namorada namorou outros, e a resposta desta procurando defender-se:
Benzinho, meu benzinho
Benzinho de meus querer
É uma infelicidade, benzinho
Namorar todos que ver
Eu me queixo, tu te queixas
Não sei qual terá razão
Tu te queixas dos meus erros
Eu da tua ingratidão
Dum apaixonado não correspondido e da moça dando-lhe esperanças:
Nas folhas do mato virgem
Em todas elas bate o vento
É triste se querer bem
Quem não tem conhecimento
Campos verdes serenados
Cobertos de cerração
Todos têm se demudado
Que dirá o meu coração
De dois namorados que há muito não se viam; o rapaz quer saber se é ainda
correspondido e a moça dá resposta confirmando:
Adeus casa do alto
Alicerce da ventura
Pergunto e quero saber
Se o nosso amor ainda dura
Enganou-se quem pensava
Que o nosso amor acabou
Agora está mais forte
Do que quando começou
Pedido dum namorado à sua bem amada, que vai ausentar-se:
Você diz que vai embora
Me escreva lá do caminho
Se não tiver papel, nem tinta
Nas asas dum passarinho
Nas asas dum passarinho
Eu não posso te escrever
Um passarinho voa muito
Está arriscado a se perder
Dum rapaz à namorada que namorou outro e a resposta desta:
Coração que ama dois
Pode amar até três
Ou me use uma firmeza
Ou me deixe de uma vez
Benzinho, meu benzinho
Deixe de ser desconfiado
Que eu por outro não te deixo
Podes viver descansado
Dum rapaz, terminando o namoro, e da moça implorando para não ser abandonada:
Lá do céu desceu um anjo
Por Deus veio mandado
Só para dizer
Que o nosso amor está terminado
Lá vai o sol entrando
Deixando o mundo sem luz
Meu benzinho não me deixes
Pelas chagas de Jesus
Dum par indiferente e desiludido:
Não tenho pai nem mãe
E nem irmão que por mim chore
Eu sou como a flor do campo
Ali onde nasce morre
Fui no campo apanhar flores
Todo o campo afloresceu
Apanhei só flores brancas
Por serem tristes como eu
Quadra cantada por um jovem que nota a presença de vários rivais que
pretendem arrebatar-lhe a amada. A moça, que adora este, canta uma quadra
amorosa e que desiluda os rivais:
Vou mandar fazer um barquinho
Da folha de um fedegoso
Para tirar o meu amorzinho
Do meio dos invejosos
Eu jurei cinco vezes
Com a mão em cima dum livro
Não hei de amar outros olhos
Enquantoos teus forem vivos
Dum jovem a quem lhe arrebataram a amada, e conseguiu novas conquistas:
Acendei aquela vela
Apagai aquela outra
Eu sou filho da fortuna
Largo duma e pego noutra
Se este está a dançar com a sua atual namorada, ela poderá cantar esta
quadra:
Andorinha do verão
Cutelinho marca passo
Não jurei, mas faço tenções
De morrer nestes teus braços
De dois jovens que não são namorados e não têm interesse um no outro:
Vou cantar este verso
Só por obrigação
Para você não dizer
Ingrato sem coração
Ingrato sem coração
Isto eu não iria dizer
Mas bem sei que meu coração
Com o teu não pode viver
Se um rapaz ou uma moça não souber cantar poderá pedir a um amigo, para este
fazê-lo em seu lugar. Exemplo dum verso cantado por outro:
Vou cantar este verso
Que este amigo me pediu
Para ele não dizer
— Ingrato não me serviu
Resposta da moça que não tem namorado e, portanto, acha-se desprezada:
A lua nasceu em claro
Nas nuvens se escondeu
Não pode ter ventura
Quem sem ventura nasceu
Se a moça tivesse outro namorado poderia cantar:
Não sei se é minha sorte
Ou destino que Deus me deu
De vir cantar nesta ratoeira
Com um rapaz que não é o meu
Vejamos ainda as quadras satíricas e sarcásticas, como estas:
O diabo que leve as moças
Deixe só a que eu quero bem
Se ela for falsa pra mim
O diabo que leve também
Se o diabo vir me buscar
Eu te levarei também
Eu não posso viver longe
De quem tanto eu quero bem
São estas, assim, as contribuições que podemos apresentar sobre o
desenvolvimento da ratoeira na zona serrana do estado de Santa Catarina
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