|
Pau de sebo
Em frente à casa comercial da viúva Pontes, do lado de cima, no Sábado de
Aleluia, o gerente mandou fincar um pontalete de madeira, descascado e bem
limpo, de uns 12 metros de altura, bem engraxado. Na ponta, um judas de chapéu
preto, novo, de pêlo, roupa de casimira boa, sapatos que prestavam, gravata
vermelha e camisa xadrez grande, preto e branco. No peito uma belíssima nota de
cem mil réis, presa com alfinete de gancho e que era o chamariz da molecada. Um
dinheirão!
Muito antes do meio-dia já estava rodeado de gente que queria assistir ao
espetáculo.
Às 11 horas foi dada a ordem para o início da subida. Era só graxa de carroça
que voava dos lados e os meninos descalços, lambuzados até os cabelos, por mais
areia que esfregassem nas mãos e mastro, não conseguiam atingir mais que 5 a 8
metros de altura. Os mais sabidos e experientes esperavam para o fim, quando
grande parte do serviço já estivesse feita.
Assim fez o filho do Pasquim. Com os bolsos cheios de areia, peia nos pés,
tentou diversas vezes até conseguir escalar o mastro, sob vivas palmas e
assobios. Guardou a nota de cem, retirou o relógio e a corrente, cortou as
amarras e o judas despencou, caindo no chão, onde o povo já o esperava com
cacetes nas mãos para maiá-lo até fora da cidade.
Naquela confusão, alguns aproveitaram o chapéu e as botinas, mas o resto foi
estraçalhado e queimado na saída da cidade, na estrada para Leme.
(WOLFF, Emílio Silvestre. Nosso folclore. snt, p.57-58)
|