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Instalação de uma comarca
Antigamente a instalação de uma comarca dava um trabalhão! Era preciso que o
juiz de direito tivesse uma paciência fora do comum.
Indo instalar a comarca de Japiapóca, o dr. Gonçalves de Azevedo notou que, no
primeiro dia de júri, os jurados compareceram, uns de roupa preta e gravata, mas
sem colarinho; outros de colarinho sem gravata e ainda outros metidos em ternos
de brim, sem gravata nem colarinho...
Abrindo a sessão, proferia um discurso em voz pausada de "primeira autoridade da
Comarca", terminando com esta tirada.
— Senhores jurados! Esta casa é o templo da justiça, em que os juízes sois vós.
Eu, aqui no júri, não sou mais que um presidente dos vossos trabalhos.
Sendo este um tribunal popular e vós os juízes, deveis vir melhor vestidos.
Deveis comparecer nos trajes com que aos domingos ides à missa.
No outro dia, chegando um pouco atrasado, encontra os jurados todos de opa e
tocheira nas mãos...
Vereador zeloso
Esta se deu na terra do dr. Pereira Lima.
Um ilustre sacerdote, precisando tratar-se, procurou os ares de Franca, talvez
os melhores do estado.
Em pouco tempo sua reverendíssima estava rechonchuda e corada, transbordante de saúde.
Habilidoso e inteligente, quis deixar assinalada a sua passagem por aquela
progressista e magnífica cidade. Construiu, na praça principal, um relógio de
sol, verdadeira obra de arte, que lá se ostenta; obra única em todo o estado.
Concluída a obra, na primeira sessão da Câmara, um vereador fez a seguinte
indicação:
"Considerando que o sol e a chuva podem vir a prejudicar seriamente o relógio de
sol verdadeira obra de arte, indico que a Câmara mande cobri-lo quanto antes,
com abrigo artístico, de acordo com a obra.
Se fô home...
Quando, numa fazenda, um camarada ou colono, se implica com o vizinho, é
melhor mudar um deles para outra colônia.
Zé Gerôncio de há muito vivia de ponta com o Salustiano. Não cortavam junto
de jeito nenhum. Viviam de provocações e picuinhas.
Certo dia a Cambraia, vaca leiteira do Salustiano, enfiando na cabeça por um vão
de cerca, pos-se a trasguiar as couves do Zé.
Zé Gerôncio, passando a mão num cabo de machado, arrumou uma cacetada na
Cambraia, quebrando-lhe o chifre.
A coisa ferveu e foram às pressas chamar o administrador, afim de evitar um
rolo.
E enquanto este procurava harmonizar as coisas, o Salustiano bufava,
ameaçador:
— Este cachorro quebrô o chifre de meu vaca, mais num é home pra quebrá o meu.
Caiu no artigo!
Quem quizer ver o caipira cheiro de importância é elevá-lo de "quarteirão"
a suplente de sub-delegado e passar-lhe a vara em tempo de festa no
povoado.
Zé Gerôncio, assumindo a vara de delegado de polícia de Japirussu nas festas da
padroeira, envergou seu terno de diagonal preto, quebrou o chapéu na testa,
empunhou o porrete e dirigiu-se ao cinema um barracão de tábua e zinco afim de
presidir o espetáculo.
Postou-se à porta todo cheio de importância, cuspindo pros lados, borrifando o
público.
— Ocêis agora abra os óio cumigo, canaiada! Teretetê... taco o cacete e é este,
dia de cadeia... Dotor formado num presta pra otoridade... E botou o pelão
atravancado a porta.
Um caipira-uva, desses grandalhões, meio arcados, calçando um bruto sapatão, ao
entrar desastradamente, pisou no pé do delegado.
— Tá preso! Caiu no artigo! E é no sufragante... Dezoito dia de cadeia?
— Mais...
— Tá preso... Pisô no pé da lei!...
No elevador
João Matoso, caboclo grandalhão e barrigudo, desses que abotoam as calças por
baixo da barriga, veio a São Paulo e foi procurar um médico instalado num quarto
andar.
Ao tomar o elevador, perguntou-lhe o encarregado:
— Que andar deseja?
— Não sendo trote quarqué marcha serve...
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O que não será...
Esta é verídica.
Em Tietê passava-se a anunciadíssima fita O inferno de Dante.
Caipiras do Rio Abaixo, do Garcia, do São Bento, do Mato Dentro, das Pederneiras
e dos Sete-Fogões, afluíram ao cinema, atrapalhando a vida do Zé Soares, na
bilheteria, pois todos queriam a "passagem" ao mesmo tempo.
Ao serem passadas, na tela as horripilantes cenas dantescas, um caipira
comentou:
— Que coisa, horrive.
— E magine vancê que esse é o inferno de dante... O que num será o de hoje im
dia?!...
É mió
Quando apareceram os primeiros automóveis no sertão, a impressão foi formidável,
especialmente quando eles surgiam, à noite, nos planaltos e descampados, de
faróis acesos.
Houve criminosos que se entregaram à prisão, por terem visto o "satanais" de
olhos acesos a campeá-los em seus esconderijos.
Hoje já não há mais disso.
Conversando com um sertanejo, entre Sacramento e Arujá, comentava ele:
— A premêra veis que pareceu um Timote aqui, um intrevado, na estrada, largô as
muleta e carpiu no pé...
Eu tava na bera da estrada só espiano, quando o Timote impacô... Um dos home
lidô co'ele, eito de tempo!
O companheiro dele se zangô-se, garrô na lata de "brazilina" e tacô de u'a
veiz...
Ah! moço... Quando o tá zintiu a "brazilina", os home já tava in riba!
Ê bicho
véio! Deu uns arranco e saiu traqueano fumaça pra estrada a fora!
Intonce eu vi que, pra desimpacá Timote, num tem cumo "brazilina"... É miô que
fornecida!
Dúvida
Dóceis e obedientes quando tratados com carinho, os caipiras respeitam toda e
qualquer proibição.
O "É proibido" é um caso sério para eles.
Viajando pela primeira vez em carro de primeira classe na "Inglesa", um caipira
me perguntou que é que estava escrito sobre a porta do vagão.
— É proibido atirar objetos pela janela.
— Nhor-sim.
Notei que o homem depois de fumar um cigarro marota ficara todo atrapalhado.
— Que é que há?
— Que má lhe pergunte... Toco de cigarro será objeto?
Conheço!
Em certa cidade do Ramal de Itararé ia agitada a política.
O PRP não podia perder a eleição de forma alguma, porque, na forma do costume,
os dois partidos se degladiavam e se exterminavam para apoiar o governo.
Cada um queria ser mais governista que outro, o que até hoje ainda se dá....
Reunidos os chefes, em casa de chefão, compareceram também os cabos eleitorais
caipiras.
Dentre eles havia um que tinha a mania de conhecer a todo o mundo.
— Rui Barbosa...
— Conheço.
— O Seabra...
— Conheço muito!
— Chamberlain...
— Conheço demais.
Esse camarada era o que mais falava nessa reunião, em que se esperava uma
resposta do governo, a um pedido de cem soldados, para amparar na eleição e
prestígio do partido.
Bateram à porta.
Era o mensageiro com um telegrama para o chefão, que o abriu às pressas,
enquanto um genro assinava o recibo.
Rezava o telegrama, que o homem leu triunfante:
"Segue força - Oficial idôneo... ... ... ... ..."
— O Idôneo! — gritou o caipira — Conheço muito! Conheci ele quando era cabo do
Rui!
Tâmo garantido!
(Extraídas de Revista do Globo, Porto Alegre, ano 1, nº 16 e 22)
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