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Jangada Brasil - a cara e a alma brasileiras

Almanaque

ANO VI - EDIÇÃO 65
ABRIL 2004

Almanaque
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Patacoadas de Cornélio Pires I

Patacoadas de Cornélio Pires II

Latrinália

Na parede do Boteco

Ai-ai

No estradão

Provérbios

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Capa
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Festança
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Cancioneiro
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Imaginário
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Oficina
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Palhoça
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Colher de Pau
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Panacéia
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Catavento
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As cartas, opiniões e pedidos dos nossos leitores
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Almanaque: Nesta seção, textos sobre variedades; frases de pára-choques de caminhões; passatempos; provérbios; curiosidades; pregões de ambulantes; causos; anedotas; folclore de botequim; latrinália; escritos em papel-moeda; anedotas; charadas...


Patacoadas de Cornélio Pires

Instalação de uma comarca

Antigamente a instalação de uma comarca dava um trabalhão! Era preciso que o juiz de direito tivesse uma paciência fora do comum.

Indo instalar a comarca de Japiapóca, o dr. Gonçalves de Azevedo notou que, no primeiro dia de júri, os jurados compareceram, uns de roupa preta e gravata, mas sem colarinho; outros de colarinho sem gravata e ainda outros metidos em ternos de brim, sem gravata nem colarinho...

Abrindo a sessão, proferia um discurso em voz pausada de "primeira autoridade da Comarca", terminando com esta tirada.

— Senhores jurados! Esta casa é o templo da justiça, em que os juízes sois vós. Eu, aqui no júri, não sou mais que um presidente dos vossos trabalhos. Sendo este um tribunal popular e vós os juízes, deveis vir melhor vestidos. Deveis comparecer nos trajes com que aos domingos ides à missa.

No outro dia, chegando um pouco atrasado, encontra os jurados todos de opa e tocheira nas mãos...
 

Vereador zeloso

Esta se deu na terra do dr. Pereira Lima.

Um ilustre sacerdote, precisando tratar-se, procurou os ares de Franca, talvez os melhores do estado.

Em pouco tempo sua reverendíssima estava rechonchuda e corada, transbordante de saúde.

Habilidoso e inteligente, quis deixar assinalada a sua passagem por aquela progressista e magnífica cidade. Construiu, na praça principal, um relógio de sol, verdadeira obra de arte, que lá se ostenta; obra única em todo o estado.

Concluída a obra, na primeira sessão da Câmara, um vereador fez a seguinte indicação:

"Considerando que o sol e a chuva podem vir a prejudicar seriamente o relógio de sol verdadeira obra de arte, indico que a Câmara mande cobri-lo quanto antes, com abrigo artístico, de acordo com a obra.
 

Se fô home...

Quando, numa fazenda, um camarada ou colono, se implica com o vizinho, é melhor mudar um deles para outra colônia.

Zé Gerôncio de há muito vivia de ponta com o Salustiano. Não cortavam junto de jeito nenhum. Viviam de provocações e picuinhas.

Certo dia a Cambraia, vaca leiteira do Salustiano, enfiando na cabeça por um vão de cerca, pos-se a trasguiar as couves do Zé.

Zé Gerôncio, passando a mão num cabo de machado, arrumou uma cacetada na Cambraia, quebrando-lhe o chifre.

A coisa ferveu e foram às pressas chamar o administrador, afim de evitar um rolo.

E enquanto este procurava harmonizar as coisas, o Salustiano bufava, ameaçador:

— Este cachorro quebrô o chifre de meu vaca, mais num é home pra quebrá o meu.
 

Caiu no artigo!

Quem quizer ver o caipira cheiro de importância é  elevá-lo de "quarteirão" a suplente de sub-delegado e passar-lhe a  vara em tempo de festa no povoado.

Zé Gerôncio, assumindo a vara de delegado de polícia de Japirussu nas festas da padroeira, envergou seu terno de diagonal preto, quebrou o chapéu na testa, empunhou o porrete e dirigiu-se ao cinema um barracão de tábua e zinco afim de presidir o espetáculo.

Postou-se à porta todo cheio de importância, cuspindo pros lados, borrifando o público.

— Ocêis agora abra os óio cumigo, canaiada! Teretetê... taco o cacete e é este, dia de cadeia... Dotor formado num presta pra otoridade... E botou o pelão atravancado a porta.

Um caipira-uva, desses grandalhões, meio arcados, calçando um bruto sapatão, ao entrar desastradamente, pisou no pé do delegado.

— Tá preso! Caiu no artigo! E é no sufragante... Dezoito dia de cadeia?

— Mais...

— Tá preso... Pisô no pé da lei!...
 

No elevador

João Matoso, caboclo grandalhão e barrigudo, desses que abotoam as calças por baixo da barriga, veio a São Paulo e foi procurar um médico instalado num quarto andar.

Ao tomar o elevador, perguntou-lhe o encarregado:

— Que andar deseja?

— Não sendo trote quarqué marcha serve...

O que não será...

Esta é verídica.

Em Tietê passava-se a anunciadíssima fita O inferno de Dante.

Caipiras do Rio Abaixo, do Garcia, do São Bento, do Mato Dentro, das Pederneiras e dos Sete-Fogões, afluíram ao cinema, atrapalhando a vida do Zé Soares, na bilheteria, pois todos queriam a "passagem" ao mesmo tempo.

Ao serem passadas, na tela as horripilantes cenas dantescas, um caipira comentou:

— Que coisa, horrive.

— E magine vancê que esse é o inferno de dante... O que num será o de hoje im dia?!...
 

É mió

Quando apareceram os primeiros automóveis no sertão, a impressão foi formidável, especialmente quando eles surgiam, à noite, nos planaltos e descampados, de faróis acesos.

Houve criminosos que se entregaram à prisão, por terem visto o "satanais" de olhos acesos a campeá-los em seus esconderijos.

Hoje já não há mais disso.

Conversando com um sertanejo, entre Sacramento e Arujá, comentava ele:

— A premêra veis que pareceu um Timote aqui, um intrevado, na estrada, largô as muleta e carpiu no pé... Eu tava na bera da estrada só espiano, quando o Timote impacô... Um dos home lidô co'ele, eito de tempo! O companheiro dele se zangô-se, garrô na lata de "brazilina" e tacô de u'a veiz... Ah! moço... Quando o tá zintiu a "brazilina", os home já tava in riba! Ê bicho véio! Deu uns arranco e saiu traqueano fumaça pra estrada a fora! Intonce eu vi que, pra desimpacá Timote, num tem cumo "brazilina"... É miô que fornecida!
 

Dúvida

Dóceis e obedientes quando tratados com carinho, os caipiras respeitam toda e qualquer proibição.

O "É proibido" é um caso sério para eles.

Viajando pela primeira vez em carro de primeira classe na "Inglesa", um caipira me perguntou que é que estava escrito sobre a porta do vagão.

— É proibido atirar objetos pela janela.

— Nhor-sim.

Notei que o homem depois de fumar um cigarro marota ficara todo atrapalhado.

— Que é que há?

— Que má lhe pergunte... Toco de cigarro será objeto?
 

Conheço!

Em certa cidade do Ramal de Itararé ia agitada a política.

O PRP não podia perder a eleição de forma alguma, porque, na forma do costume, os dois partidos se degladiavam e se exterminavam para apoiar o governo.

Cada um queria ser mais governista que outro, o que até hoje ainda se dá....

Reunidos os chefes, em casa de chefão, compareceram também os cabos eleitorais caipiras.

Dentre eles havia um que tinha a mania de conhecer a todo o mundo.

— Rui Barbosa...

— Conheço.

— O Seabra...

— Conheço muito!

— Chamberlain...

— Conheço demais.

Esse camarada era o que mais falava nessa reunião, em que se esperava uma resposta do governo, a um pedido de cem soldados, para amparar na eleição e prestígio do partido.

Bateram à porta.

Era o mensageiro com um telegrama para o chefão, que o abriu às pressas, enquanto um genro assinava o recibo.

Rezava o telegrama, que o homem leu triunfante:

"Segue força - Oficial idôneo... ...  ... ... ..."

— O Idôneo! — gritou o caipira — Conheço muito! Conheci ele quando era cabo do Rui! Tâmo garantido!

 

 

(Extraídas de Revista do Globo, Porto Alegre, ano 1, nº 16 e 22)