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A bernúncia: sua origem

Álvaro Tolentino de Souza

(…)

Os foliões do boi-de-mamão ou bumba-meu-boi, quer no sertão, quer na região praieira, saem com o seu rancho bem organizado a alegrar a alma do povo, que vibra ao ouvir de longe a alegre cantoria e zoada dos pandeiros, começando os folguedos na noite de Natal e terminando na terça-feira gorda.

A tradicional dança, que a princípio constava apenas do boi, trazendo no seu bojo o dançador e pendente das aspas fitas berrantes, o cavalinho, com o seu ginete e a cabrinha, foi mais tarde se avolumando com outros bichos  nela introduzidos, tais como: o urso, o macaco e, ultimamente, o urubu, que aparece na dança após a morte do boi, farejando carniça. Pai Mateus, doutor e cantadores com os seus pandeiros vestidos a caráter, são figuras indispensáveis.

Há cinqüenta anos [sic], mais ou menos, nova invenção foi introduzida na dança — a Maricota — figura de mulher de estatura descomunal e de cabeça fora do normal, macrocéfala, enfim. As caiporas, que vêm dos tempos de nossos avôs, se bem que não façam parte do rancho “bovino”, a ele se aliam.

Felizmente ainda não morreram na alma popular estes folguedos do boi-de-mamão, que até hoje nada perdeu do seu saber original.

* * *

No ano de 1923, Felipe Roque de Almeida, preto sem jaça, fâmulo que foi durante muitos anos do meu saudoso tio e amigo Joaquim Xavier de Oliveira Câmara, cozinheiro à época da Turma de Reconstrução da Linha Telegráfica, introduziu na dança do boi, na cidade de São José, a bernúncia, novidade por ele trazida dos sertões de Itajaí, do Norte, enfim, como dizia o Felipe.

Diga-se de passagem que a bernúncia, quando se exibiu pela primeira vez naquela cidade, fez grande sucesso, pois todos queriam vê-la, embora causasse medo às crianças, moças e às velhas também. Assim a bernúncia é hoje indispensável na dança do boi, pois sem ela, faltam graça e atração.

Para os que não conhecem ainda a bernúncia, direi apenas que depois da morte do boi, e tornado após a vida com as benzeduras feitas pelo doutor, com ramos de arruda e manjericão, entra em cena a bernúncia. A princípio inofensiva, observando a assistência e marcando nessa a sua primeira presa, dessa se aproximando, abrindo a enorme bocarra de baleia, engolindo-a! A suposta vítima presa pelas enorma máxilas cetaceanas não tem escapadela, deixando-se engolir, para reaparecer em seguida pela traseira do bicharoco! Esta cena, enretanto, não ofusca o colorido da tradicional dança do boi, ganhando, é verdade, mais animação e brilhantismo! E assim, sucessivas vezes.

* * *

Muita gente conta a seu talante o que é a bernúncia, quando ela se exibe na dança do boi, mas ninguém sabe ainda a sua origem. Eu sei porque Felipe assim contou numa roda de amigos em São José, da qual fazia eu parte, mostrando na ocasião um arcabouço da cabeça do bicho, adquirida em Luiz Alves, trabalho, aliás, feito com muita perfeição. O inventor do “bicho”, — ainda fala Felipe — foi um trabalhador da Linha Telegráfica, natural de Itajaí, chamado Antônio, não me recordando agora seu sobrenome. Principiou Antônio (Felipe dizia Antônio) a fazer a armação de um focinho alongado de animal qualquer, boca de baleia, dentes aguçados como os de jacará. Unida a parte inferior à superior, prendeu com arame os maxilares, dando assim o movimento natural. Descrevo-a tal qual vimos em suas mãos. Acabado o arcabouço, Antônio revestiu-o de pano preto, pintando-lhe uns olhos grandes como os de sapo-boi, narinas bem abertas e largas e num ritmo rouquênio fazia com que a queixada produzisse um ruído desagradável como o de porco do mato. Antes de expor a sua invenção na dança do boi, Antônio meteu-se dentro do arcabouço do feio animal de corpo alongado, medindo de dois e meio a três metros, ocupando o seu arcabouço dois homens, indo em seguida fazer uma surpresa à sua velha tia Benvinda, que no momento, desocupada, sentada junto à janela de sua casa, fiava algodão em uma velha roca remanescente dos seus antepassados. Ao chegar à janela, abriu a queixada, escancarou a bocarra deixando à mostra a concavidade bucal do horrendo animal. A pobre velha colhida de surpresa, sarapantada, tremendo de medo, fazendo o sinal da cruz, gritou apavorada, nervosa: “Abernuncio!”, corruptela da interjeição latina, — Abrenuntio —, ainda muito proferida por todos os recantos da nossa terra, por pessoas antigas, quando vêm e falam em assombrações e coisas tais. E dali saiu Antônio, contente, ufano a gritar e às gargalhadas, que a sua tia Benvinda dera à sua invenção o nome de “bernúncia”! E por bernúncia ficou sendo conhecida até hoje e atravessará gerações sucessivas sem lhe tirarem mais o nome.

* * *

Eis aí de muito escorço a origem de tão engraçada invenção cuja primazia coube à terra do meu digno e respeitável amigo, o professor Henrique da Silva Fontes, a quem dedico estas pálidas notas.

* * *

Ao belo clarão da lua
Vem surgindo uma bernúncia
Das matas de Luís Alves
Dirigindo-se pra Penha
Da ponta da Armação
Dizendo: Viva! que viva!
Senhora dona Alegria
Dona do meu coração

* * *

Bernúncia! Bela invenção
Pros tempos do carnaval
Quem a bernúncia inventou
Teve idéia genial

Lá no sopé da montanha
Cantou triste sabiá
Também canto minha mágoa
Com saidade da sinhá

* * *

Olê, olê, olê
Olê, olê, olá
Arreda do caminho
Que a bernúncia quer passar

Arreda, arreda
Se não ela te come
Arreda do caminho
Que a bernúncia tá com fome

(Souza, Álvaro Tolentino de. “A bernúncia: A sua origem”. Boletim  Trimestral da Sub-Comissão Catarinense de Folclore. Florianópolis, ano 2, nº 5, setembro de 1950, p.34-37)

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