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O batuque mineiro

Franklin de Salles

É pena que, pouco a pouco, se vão perdendo todas as nossas tradições populares. Não houve quem cuidasse de recolher, em tempo próprio, o nosso folclore. Minas por muito tempo, conservou em suas origens os motivos populares. Cercado por suas montanhas sem meios fáceis de transporte, o que nos veio através do negro africano e dos colonizadores se conservou puro, até cair em completo esquecimento. Em Minas ainda não medraram os fazedores de folclore, que sempre foram tratados com a maior indiferença mesmo entre os intelectuais.

Numa carta sem data e sem mencionar de onde veio, assinada por um curioso, alguém me pergunta como se dançava o batuque em Minas. Nos estudos de folclore que tenho lido ainda não encontrei uma descrição exata do batuque, como eu o conheci em minha terra nos longínquos tempos de minha mocidade. Era uma dança movimentada e cansativa.

Formava-se a roda, os homens em frente às mulheres, e o violeiro comandando a dança. Era o chamado batuque corrido. Acompanhando o “rasgado” da viola, a voz do chefe se fazia ouvir.

Batuquinho, batuquinho,
Batuquinho do sertão…
Por causa de um batuquinho
Maltratei seu coração.

Ai, enquanto a viola continua o seu rasgado, salta uma cabocla dentro da roda, sapateando ao compasso da música em direção a fila dos homens. Escolhe um deles para seu par. Os dois saem sapateando, em sentido contrário, mas, em dado momento encontram-se frente a frente em meio da roda, numa curvatura cortês, ou numa “umbigada de rachar”. Depois, saem sapateando ele para a fila das mulheres e ela para a fila dos homens e escolhem um novo par. Como é natural no meio de tanta gente, alguns dançadores ficam em pé, na fila esperando serem escolhidos. Cansados de esperar, cantam , despertados.

Batuque bão
É lá dos Pinhão,
Imbigada daqui
É de adulação.

Costumavam também os esquecidos se compararem com um moirão de cerca, ali fincado no chão, esquecido de todo mundo. E cantavam num desabafo:

Quem quiser moirão,
Vai no mato cortar
Quem quiser mourão,
Vai no mato cortar.

E quando a crioula, num sapateado florido, passava sorrindo, toda dengosa, uma voz cariciosa ficava cantando em seus ouvidos:

— Deus te guie, Estrela d’Alva!

(Sales, Franklin de. “O batuque mineiro”. Folha de Minas. Belo Horizonte, 09 de maio de 1964)

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