Jangada Brasil | Imaginário | Nome e número dos pares de França

Nome e número dos pares de França

Téo Brandão

De início, deve ficar claro que no contexto aqui estudado a palavra par não significa parelha. Aqui, ao se falar dos doze pares de França, par está tomada no sentido 1 que lhe dá o Aurelião: “igual, semelhante, parceiro”, e por causa disso na acepção 16:“antigamente grão-vassalo do rei”.

A tradição é que esses pares, cavaleiros que formavam uma espécie de tropa de elite do imperador Carlos Magno, eram doze e assim se fixa o seu número no primeiro poema que celebrou a batalha de Roncesvalles — La chanson de Roland — quando se procura escolher no Conselho do Imperador um embaixador ao rei Marsílio, de Saragoça, e quando o próprio Carlos Magno diz:

— Par cette barbe que vou vouyez toute blanche, je defend qu’on choisisse aucun des douze pairs. [1]

E na tradição nordestina dos cantadores e folhetistas de cordel, lá está a devida fixação do número dos pares de França:

Você falou-me em Roldão
Conhece dos cavaleiros
Dos doze pares de França
Dos destemidos guerreiros
Falarás alguma coisa,
De Roldão mais Oliveiros…” [2]

Eram doze cavaleiros
Homens muito valorosos
Destemidos, animosos,
Entre todos os guerreiros
Como bem fosse Oliveiros
Um dos pares de fiança
Que sua perseverança
Venceu todos os infiéis
Os doze leões cruéis
— Os doze pares de França [3]

Nas cavalhadas de Alagoas correm doze cavaleiros e é sobretudo da tradição viçosense que esses cavaleiros representem os doze pares de França, tanto assim que cada um deles traz a tiracolo uma faixa com um dos nomes dos doze pares, segundo a tradição local. São eles: Roldão, Oliveiros, Ricarte de Normandia, Gui de Borgonha, Guarim de Lorena, Lamberto de Bruxelas, Urgel de Danoá, Bosin de Gênova, Hoel de Nantes, Tietri de Dardânia, Nemé da Baviera e duque Regnier. Mas às vezes o nome do último par, duque de Regnier, é substituído por outro, o de Gerardo de Mondifer [4]. Na tradição das cavalhadas de mouros e cristãos sulinas — Pirenópolis, Franca, São Luís do Paraitinga etc. — os cavaleiros cristãos são em número de doze. Mas pelo menos na de Franca (segundo Marina de Andrade Marconi, p.89) e na de Pirenópolis (de acordo com Carlos Rodrigues Brandão, gráfico na p.83), os cavaleiros cristãos têm por chefe o próprio Carlos Magno; então, o número dos pares de França não passaria de onze, uma vez que Carlos Magno não é um dos pares. Pela lógica deveriam preliar os doze pares e mais o imperador, num total de treze cavaleiros [5].

Se recuarmos à tradição portuguesa donde emana a nossa tradição, sabemos, segundo mestre Câmara Cascudo, que em 1728 Jerônimo Moreira de Carvalho fazia uma tradução da versão castelhana que tinha por título: História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França, primeira parte de 1728, segunda parte de 1737, a que foi acrescida por Alexandre Caetani Gomes Flaviense, em Lisboa, 1743, a terceira parte: Verdadeira terceira parte da história de Carlos Magno em que se escrevem as gloriosas ações e vitórias de Bernardo dei Carpio, a qual, junta às duas primeiras partes, vai compor a obra de Jerônimo Moreira de Carvalho que é, conforme muito bem acentuou a professora Jerusa Pires Peneira em sua dissertação de mestrado na Universidade Federal da Bahia, O passo das Águas Mortas — cavalaria em cordel, o texto matriz ou o contratexto matricial da tradição brasileira, sobretudo da literatura de cordel nordestina.

Mas essa tradição da História de Carlos Magno e dos doze pares de França não se espalharia somente ao Brasil, senão a Portugal, conforme se pode documentar por exemplo na Comédia dos doze pares de França: Auto de Floripes, publicado por Machado Guerreiro na Revista de Etnografia do Porto nº 32, p.317-319. Dramatizada na Espanha e em Portugal há “Histórias de los pares de Francia”, segundo referem Risco e Lorenzo na Revista de Dialectología y Tradiciones Populares, de Madri.

Não resta a menor dúvida, pois, de acordo com as fontes bibliográficas consultadas, quanto ao número consagrado de doze pares de França e nem restava em nosso espírito a menor vacilação a esse respeito. E assim continuaríamos a pensar, não fora haver recebido telefonema de um amigo muito caro (o locutor Granja, grande divulgador das vaquejadas no Nordeste) que me fez a seguinte pergunta:

— Meu caro mestre, quero que você me diga o nome dos doze pares de França!

O problema não era de grande dificuldade; conquanto não possuo tão boa memória que pudesse, de pronto e pelo telefone, enunciar o nome de todos os doze pares, segundo a tradição das cavalhadas de Viçosa, seria fácil recorrer ao meu trabalho sobre esse folguedo popular, editado na Revista Brasileira de Folclore nº 3, ano 2, em que baseando-me em Sinfrônio Vilela, meu informante, nomino todos os cavaleiros. Todavia, recente mudança de residência dificultava a consulta. Daí lembrar-me que mais fácil seria uma consulta à própria obra de Jerônimo Moreira de Carvalho, da qual possuo exemplar datado de Lisboa, 1812. Na metade do volume, p.320, o autor dá o nome, número e títulos dos pares, como aqui transcrevo:

“Chegado à Alemanha andou por ela dois annos dando leis por todas as terras do Império, pertencentes ao bom governo, e no fim tendo já muitos desejos de ir ver a sua pátria, a França, de que havia tantos tempos andava ausente, se despediu dos senhores da Alemanha e partiu para Paris acompanhado dos seus pares de França, com os quais sempre caminhava: e aos que então o acompanharam, eram os seguintes: Roldão, conde de Cenobia, filho de Berta, irmã de Carlos Magno e do duque de Milão, como consta do livro 5º da 1ª parte; Oliveiros, filho do duque de Regner de Hens; Guarin, duque de Lorena; Gui de Borgonha; Ricarte, duque de Normandia; Tietri, duque de Dardânia; Lamberto, príncipe de Bruxelas; Urgel de Danoi, rei da Dária; Guadeboa, rei da Frísia; Hoel, conde de Nantes; Nemé, duque de Baviera; Jofre, senhor de Bordeos; Bosim, de Génova, e Galalão, que no fim foi o traidor”.

Bem. Li da obra de Jerônimo Moreira o trecho ao locutor Granja mas logo me apercebi: 1º) que em vez de 12 cavaleiros aí se enunciavam 14; e 2º) que alguns dos nomes enunciados não correspondiam à tradição das cavalhadas viçosenses. Pelo que solicitei, de imediato, ao amigo me telefonasse meia hora mais tarde para que eu pudesse confrontar esse texto com a lista dos cavaleiros ditada pelo primo e informante Sinfrônio Vilela e publicada em meu citado trabalho Cavalhadas de Alagoas. Mas antes que o fizesse e lendo a obra em mãos, cheguei mais adiante à página 330, onde podia ler a declaração formal do autor de que os pares eram, então, catorze:

“Mas os príncipes da corte, sem esperar mais tempo, meteram mãos às espadas e começaram a batalhar com os Paladines: estes que de seus golpes fazião bem pouco caso, se defendiam, e ofendiam por modo, que em menos de meia hora não havia no campo quem lhes resistisse, ficando mortos oitenta e fugindo os outros, sem embargo dos pares serem só quatorze, e os príncipes mais de trezentos.”

É bem verdade que o autor não dizia que esses eram os doze pares mas tão-só que eram os “pares de França que então o acompanhavam”.

Que os nomes, na obra de Jerônimo Moreira, não coincidissem com os da tradição viçosense não seria de espantar. Havendo tomado parte em tantos embates e durante tanto tempo não seria impossível que fossem mortos alguns dos doze, fatalmente substituídos por outros.

Mas que os pares de Carlos Magno pudessem não ter sido doze apenas, e sim catorze ou até mais, ou menos, é que não me passava pela cachola. Ao menos pela cachola de um folclorista o seu tanto homem-folc, que muitas vezes não podia nem pode separar a crença na veracidade da história que bebera em sua enculturação viçosense, com o conhecimento do folclorista que sabe muito bem que a história de Carlos Magno não passa realmente de uma verdadeira “estória”, no sentido que após João Ribeiro e Câmara Cascudo damos a essa palavra, escrita à antiga, pois que de verídico e sabido sobre o episódio é aquele registro de Eginhard na sua Vita Karoli, IX:

Comme Charles revenait de son expedition d’Espagne en 778, son arrière-garde fut attaquée par des montagnards basques. Roland, prefet de la marche de Bretagne, mourrut dans ce combat.” [6]

Fui à minha coleção de revistas e no meu artigo do nº 3 da Revista Brasileira de Folclore constatei as seguintes modificações entre os nomes dos cavaleiros e seu número. Sobravam evidentemente dois: Guadeboa, rei da Frísia, e Jofre, senhor de Bordeos. E o outro par, o que haveria de ser o traidor, Galalão, estava substituído pelo duque de Regnier, pai de Oliveiros.

Aliás, seja dito, a bem da verdade, que ao folhear minhas fichas e meus apontamentos para a preparação deste apanhado, verifiquei um equívoco na época em que elaborei meu trabalho sobre cavalhadas com as informações principais de Sinfrônio Vilela. É que em ficha anterior, numa descrição mais sucinta que ele me ditara em 1947, ao invés do nome do duque de Regnier se encontrava como o 12º par da cavalhada o nome de Gerardo de Mondifer. O que mostra como se podem processar alterações e modificações ainda que com um mesmo informante numa mesma região e sobre um mesmo fato.

Mas voltemos “à vaca fria”, isto é, aos catorze nomes da página 320 do livro de Jerônimo Moreira de Carvalho.

Resolvemos comparar o texto matriz português com a sua reelaboração brasileira. Sabendo de um lado que o citado trecho iniciava o primeiro capítulo do livro 19 da segunda parte da História de Carlos Magno, e que essa segunda parte fora posta em verso no folheto História de Carlos Magno — O príncipe Roldão no Leão de Ouro [7], a ele recorremos. E a partir da segunda estrofe lá vinha a mesma narrativa:

“Depois que o rei Carlos Magno
Venceu a grande campanha,
Fez a igreja de Santiago
Padroeiro da Espanha,
E a de Nossa Senhora
Em Aquisgram na Alemanha.

Tomou dezesseis cidades
Da guerra saiu feliz
Deu graças à providência
Em conquistar um país
Foi visitar a Alemanha
Daí tornou a Paris.

Acompanhado dos pares
Reinaldo de Montalvão,
De Gui, duque de Borgonha,
De Oliveiros e Roldão,
Guarim, duque de Lorena;
E do conde Galalão.

De Lamberto de Bruxelas
De Friza, o rei Guadeboa,
Tietri, duque de Dardânia,
Geraldo, Urgel de Danôa
Buznn, duque de Gênova
Companhia franca e boa.

E o duque Requeniet
Eugelio de Almirante,
Noemi de Baviera,
Oel e Riol de Nante,
Reinaldo e Jaff de Bordeo
Orlando, príncipe de Anglante.” [8]

Agora é que a coisa piorava; o folheto citado incorpora mais seis nomes que não constam no texto matriz português, elevando o número dos pares a vinte! Aliás, nesse passo vemos bem como sempre acontece que na transposição prosa-verso, de textos folclóricos, se depare aquela tendência sintetizante acertadamente encontrada por Jerusa Pires Ferreira. Como acontece na versificação de contos populares há uma tendência contrária: desdobramentos, narrativas paralelas etc. No caso do folheto Roldão no Leão de Ouro houve ampliação dos nomes dos cavaleiros, possivelmente bebendo o autor os novos nomes na terceira parte da obra de Jerônimo Moreira (a que trata das vitórias de Bernardo del Cárpio) pois dessa narrativa é que fazem parte Reinaldo de Montalvão, Orlando, príncipe de Anglante, e outros. Seria um nunca acabar se tivéssemos oportunidade e bibliografia para estudar todos os romances carolíngios. Somente em Espanha e França seria uma inesgotável bibliografia de que citamos, a vol d’oiseau, com a devida licença dos mestres e doutos especialistas no assunto, Raymond Cantel e Bráulio Nascimento, estas obras: Conde DirlosMarquês de Mântua,RoncesvalesDon Carlos de MontalbanHuida del rey MarsinMuerte de D. Alda,Reinaldos de MontalbanDon GaiferosHuon de BordeosRenaud de Montauban,Chanson d’EspremontGirart de VienneAimeri de NarbonneChafroi de NimesLa prise de PampeluneGirart de RoussilonPelerinage de Charles Magne. Entretanto, mesmo que os tivéssemos todos à mão e mais outros que podem ser citados, o problema é que neles nem sempre se enunciam todos os pares, ou não se lhes faz referência específica, enunciando incontáveis nomes de cavaleiros. Apenas como mostra, vejamos:

1. La pelerinage de Charles Magne fala dos doze pares mas enuncia apenas Roland, Olivier, Turpin, Guillaume de Orange, Ogier de Dannemark, Naimes, Beranger, Bernard e Ernaut [9].

2. Na Chanson d’Espremont não parece haver referência ao número, porém a lista de nomes de cavaleiros vai a vinte e dois: Naimes, Turpin, Giar, Roland, Aton, Estolt, Gui, Ernaut, Milan, Bevan, Caliron, Richar, Engerrand, Oagier le Danois, Saloman, Fagon, Droon, Didier, Mille (ou Millan), Beranger, Moraut, Florent [10].

3. Em Girart de Vienne o poema não faz referência ao número dos pares, anunciando apenas a batalha de Roncesvalles onde morreram todos os partidários de Carlos Magno, e dá no curso do poema o nome dos oito seguintes cavaleiros: Gari, Ernaud de Belaude, Renier, de Gennes, Mile, Girart, Aimeri, Roland e Olivier [11].

4. Em Aimeri de Narbonne fala-se em doze pares mas só se enunciam nove: Naimes, Dreux de Montdidier, Richard de Normandie, Hoel de Cotentin, Doon de Vaucler, Girart de Vienne, Ernaut de Beaulande, Aimeri e Girart de Roussilon [12].

5. Em Renaud de Montaubon enunciam-se inicialmente oito: Duc de Naimes, Geboin, Maruis, Othon, Tibaut de Reims, Milon, Acelin, Geoffroi d’Anjou, Henri d’Anjou; mas depois se fala nos “vieux chevaliers” e em “D’autres preus” (vers.3345) Ogier le Danois, Thierry d’Anjou, Guillaume de Blave, e como mortos, Austorge e Bevon (vers.1526 e 1836) [13].

6. No Conde Carlos de Montalban (Romancero Español, Aguilar, p.214) não se fala dos doze pares mas se enunciam os seguintes cavaleiros: Oliveiros, Montesinos, Roldan, Urge de la Mancha, Merian, don Beltran.

7. No Conde Dirlos (100 Romances Escojidos, p.19) fala-se dos doze: “quedareis encomendada a Oliveiros y a Roldan / Al imperador y a los doce que a una mesa comen pan /” — o que dá catorze cavaleiros ou pares — mas sem se especificar quais são eles; no curso do romance aparecem: Gaiferos, Oliveiros, Roldan, Arderin d’Ardenna, Urgel, Guarinos (almirante de la mar), Reinaldos de Montalvan, Belardos, Montesinos, don Grimaldi, don Gilvan, Merian, Valdovinos, Celinos, conde Dirlos, Durandarte; ao todo dezesseis.

8. Nas diversas versões do Marquês de Mântua [14] se encontram enunciados de 9 a 24 cavaleiros: conde Dirlos, duque Sansão da Picardia, marquês Danes Urgero, Valdovinos (da Dácia), Naimo de Baviera, Renaldo de Montalvan, Roldon, Ayelo ou Arnaldo de Belancha, Dardin d’Ardenha, Alberto, conde de Flandres, duque de Borgonha, don Carlos, don Grimalte, conde de Foy, don Beltran, Reuner duque de Aste, Galalão de Alemanha, Vibiano de Agramonte, duque de Sabóia, duque de Ferrara, don Arnau, don Guarinos, Arnaldo ou Renaldo de Belaude.

Impossível tirar, pois, qualquer conclusão quer a respeito do número exato dos paladines quer a propósito dos seus nomes, o que não é de admirar-se uma vez que a tradição, a elaboração, a inventiva, a criação e recriação, as intromissões ou contaminações de vários romances por parte de troubadours trouveres, por jongleurs e menestréis, por autores eruditos ou cantadores populares, iria certamente mudando, recriando, alterando não somente os episódios, as situações, os acontecimentos da epopéia carolíngia, mas igualmente e sobretudo, por incrível que pareça, o número dos pares de França.

Mas — quem sabe? — se melhor examinássemos o contratexto matricial de Jerônimo Moreira, não seria possível encontrar uma explicação mais ou menos lógica para essa confusão de nomes e sobretudo de número de paladines, pelo menos na tradição peninsular-brasileira?

Vejamos, por exemplo, os episódios seguintes do segundo livro:

Capítulo 20, p.278, La batalha da Floresta Escura: oito pares assim nominados: Urgel de Danoá, Hoel de Nantes, Gui de Borgonha, Guarim de Lorena, Tietri de Dardânia, Oliveiros, Roldão e Ricarte de Normandia.

Livro II, Prisão dos cinco cavaleiros na Cova e batalha de Tristifea: nove cavaleiros que são: Roldão, Oliveiros, Ricarte, Urgel, Guarim, Gui de Borgonha, Hoel de Nantes, Tietri de Dardânia e Lamberto de Bruxelas.

Nas justas (p.325) em que batalharam os pares com os príncipes da corte aparecem apenas sete: Ricarte, Urgel de Danoá, Lamberto de Bruxelas, Gui de Borgonha, Oliveiros, Guarim e Roldão.

No episódio da Ponte de Pontable (p.344), aparecem dez: Roldão, Urgel, duque de Nemé, Lamberto de Bruxelas, Hoel de Nantes, Gui de Borgonha, Tietri de Dardânia, Oliveiros, Guarim e Ricarte de Normandia.

Na batalha de Toledo para conquista de Galiana, apenas cinco: Lamberto de Bruxelas, Guarim de Lorena, Gui de Borgonha, Oliveiros e Roldão (Livro II, fim).

Igualmente na primeira parte da obra, pelo menos nos primeiros capítulos — na Prisão de Oliveiros — embora se chegue a dizer o número dos pares (sendo doze, dos quais cinco presos e sete mandados por embaixadores e depois presos), não se lhes nomeiam todos: “E estes cavaleiros são todos de mui nobre sangue e nos chamam os doze pares” (p.84) — e se diz que primeiro foram presos cinco cavaleiros a que se juntaram igualmente depois de presos os outros sete, mas a verdade é que no total apenas se enunciam os seguintes: Oliveiros, Gerardo de Mondifer, duque de Nemé, Tietri de Dardânia, Roldão, Gui de Borgonha, Urgel de Danoá, Bosim de Gênova (morto? fala-se depois do corpo de Bosim, após a batalha da Torre da Ponte de Mantible, conquanto na página 173, quando Ricarte realiza o contato com o exército de Carlos Magno, montado em seu cavalo na passagem das Águas Mortas, diz que todos estavam vivos e com saúde). É bem verdade que após esse incidente se fala em duque de Regnier, Hoel e Riol de Nantes (alguns, como Hoel) já arrolados como pares noutros episódios, como ficou citado.

Mas como sabemos, por Menendez y Pelayo e Câmara Cascudo, que os três livros de Jerônimo Moreira tiveram origem e fontes diversas, talvez que nesse primeiro volume e no episódio marcante que foi o da morte de Roldão na batalha de Roncesvalles se possam levantar as dúvidas e restabelecer o engano do autor. Porém ainda aqui ele não nomeia os doze pares, e as referências nesse episódio marcante são apenas a Valdevinos, irmão de Roldão, e Tietri de Dardânia, últimos a viver com Roldão, e a invocação de Oliveiros feita por Carlos Magno quando por fim acudiu à sua retaguarda. E também do exame dos personagens enunciados no enterro dos corpos dos pares não se chega a nenhuma conclusão pois se misturam, é o que nos parece, os verdadeiros pares com príncipes do palácio, e entre os cadáveres se chega a nomear quinze pessoas: Roldão, Oliveiros, Gui de Boa, rei de Friza, Urgel de Danoá, Cristão rei de Borgonha, Guarim duque de Lorena, Godofredo rei de Bordeos, Eugério rei de Aquitânia, Lamberto rei de Borges, Calócio, Reinaldo, Conde Lamberto, Sansão duque de Borgonha, Naimes duque de Baviera, Alberto de Bombon.

Enfim, não é de nenhum modo possível dizer pelo texto português de Jerônimo Moreira de Carvalho se os pares eram doze mesmo ou catorze ou quinze ou que outro número tenha sido.

Mas se nos textos dos livros e romances carolíngios portugueses, espanhóis e franceses citados não se consegue dilucidar a questão, por que não recorrer afinal ao primeiro romance do ciclo e que iniciou a epopéia, o Roman de Roland?

Sabendo os estudiosos que a epopéia se limita a relatar apenas o episódio da batalha de Roncesvalles e a subseqüente vingança de Carlos Magno contra o conde Ganelon (os demais episódios, ações, lendas, entraram posteriormente na torrente de canções de gesta e do romanceiro carolíngio) e de outra parte conhecendo-se — ao menos esse na íntegra — o texto do manuscrito de Oxford, talvez seja mais elucidativo examinar assim a epopéia.

Se considerarmos que o arcebispo Turpin, padre e guerreiro, que tomou parte na batalha de Roncesvalles e lá morreu, não era realmente um par, então foram doze os que lá morreram, nos Pirineus. É bem verdade que mesmo no manuscrito de Oxford bá divergência do nome dos paladinos mortos pois no versículo 1352 se diz:

Des douze pairs les dix on sont occis,
Ne mais que deux n’en y a resté vifs
Ço est Chernuble et le quens margons.

O anotador da versão consultada (de Oxford), que é redigida em dialeto normando (edição Garnier, Aubé), esclarece que Chernuble seria o apelido de Roldão e quens o correspondente normando de conde.

Mas esse quens ou conde Margons ou Margariz (conforme se nomeia na tradução em francês da Liv. Hachette-Classiques illustrés Vaubou Dolle) não aparece na lista dos finalmente mortos, versículos 1423 e 2432: Roland, Olivier, Engelier, Ivoire, Yvon-Yve, Gerin, Gerier, Beranger, Oton, Sinson, Anseis, Gerar de Rossion.

Portanto, nesse texto, mesmo tirando Turpin teríamos treze cavaleiros.

Mas ainda aí não se acabam as agruras do pesquisador minucioso e mais com mentalidade de estatístico e de renitente historiador.

No versículo XXIII 97 o poeta diz:

Roland est mort. Chames se escrie — où êtes vou bon neveu? Où est l’archevêque, où est le conte olivier? Où est Guerin et Gerier, son compagnon, où est Othon? et le comte Beranger? Yvon et Ivoire que je cherissait tant; quest devenu le gascon Engelier, le duc Sanson, et le preux Anseis, où est le vieux Gerard de Roussilon?

Muito bem; doze pares, no duro.

Mas o diabo é que adiante o autor do versículo 2417-2442 diz:

Mais le duc de Naimes agit en homme sage. Il donne ses ordes a Geboin et a Othon à Thibaut de Reims et au comte Milon …

Othon? Mas Othon não era um dos doze pares mortos? E enunciado carinhosamente por Carlos Magno?

Realmente, chegamos a pensar que a atribuição do número de doze aos pares de França, que poderiam ser mais numerosos e constantemente substituídos por morte em combate, se tivesse consagrado porquanto somente doze deles é que tinham formado a retaguarda de Carlos Magno no passo de Roncesvalles. Embora a intérmina elaboração dos textos, cantigas e recitações possa ter aumentado ou diminuído o número dos pares, e seus nomes, a tradição dos Doze de Roncesvalles é que prevaleceu e prevalece; o número doze intimamente aderido à designação de pares de França.

É uma hipótese talvez a estudar.

Mas não se pense ainda que podemos ter chegado a uma conclusão defmitiva. Isso porque deixamos para o final a notícia dos romances por sua vez matriciadores daHistória de Carlos Magno, de Jerônimo Moreira.

Pelas informações que nos dá Menendez y Pelayo vale a pena transcrever um largo trecho do capítulo 4, volume 1, de Libros de Caballería, Los Exóticos, p.227-228, e em que esse autor cita trecho de Piamonte (em sub-aspas):

“Por raro capricho da fortuna, bem desproporcionado a seu mérito, obteve, não obstante, extraordinária popularidade, que chega até nossos dias, de vez que se reimprime como livro de cordel e serve de recreação ao vulgo nos rincões mais olvidados da península, da mesma forma que nas cidades populosas, o Fierabrasfrancês, disfarçado com o nome de História de Carlos Magno y de los doce pares, do que se cita já uma edição de 1525, se bem que seguramente as houve anteriores (Hystoria del emperador Caríomagno y de los doce pares de Francia; e de la cruda batalla que hubo Oliverios con Fierabras; rey de Alexandría, hilo del grande almirante Balan; Sevilha, Berger editor, 24 de abril de 1500).

Nicolás de Piamonte, cujo nome costuma figurar frente deste livro, nada mais fez que traduzir a compilação em prosa, feita a instâncias de Enrique Balomier, cônego de Lausanne, impressa em 1478; basta comparar os prólogos e a distribuição dos capítulos para reconhecer a identidade: ‘E sendo certo que em língua castelhana não há escrita que disto faça menção, mas tão-somente da morte dos doze pares, que foi em Roncesvalles, pareceu-me justa e proveitosa coisa que a dita escrita e os tão notáveis feitos fossem notórios nesta parte da Espanha, como são manifestos em outros reinos. Por fim, eu, Nicolas de Piamonte, proponho trasladar a dita redação de língua francesa em romance castelhano, sem discrepar, nem acrescentar coisa alguma do texto francês.

E é dividida a obra em três livros: o primeiro fala do princípio da França, de quem tomou o nome e do primeiro rei cristão que houve em França e deste até o rei Carlos Magno que depois foi imperador de Roma, e foi trasladado do latim em língua francesa. O segundo fala da cruel batalha que teve o conde Oliveiros com Fierabras, rei de Alexandria, filho do grande Almirante Balan e este está em metro francês muito bem trovado. O terceiro fala de algumas obras meritórias que fez Carlos Magno e finalmente da traição de Galalão e da morte dos doze pares, e foram tirados estes livros de um livro bem aprovado, chamado Espelho historial’” [15]

Diz ainda Menendez y Pelayo: “O Speculum historiale, de Vicente de Beauvais, o poema francês de Fierabras e acaso um compêndio da crônica de Turpin são as fontes desse livreto, apodado por nossos rústicos de Carlos Magno, que, apesar de sua disparatada contextura e estilo vulgar e pedestre, não só continua exercitando nossas impressoras populares e as de Epinal e Monbelliard, na França, foi não apenas posto em romance pelo cego Juan José Lopes, mas chegou até a inspirar a Calderon sua comédia La puente de Mantible. [16]

Tais assertivas do mestre espanhol são acompanhadas e ainda mais documentadas pelos próprios prefaciadores de Fierabras: chanson de geste (A. Kroeber e G. Servois na edição feita em 1860, Paris, Chez F. Vieweg, tomo 4; Colletion das anciens poètes de France):

“O sucesso e o renome desta fábula cavaleiresca, já o dissemos, não se restringem nos limites da França. Encontra-se a prova disso nas literaturas inglesa, alemã, flamenga, italiana e espanhola. Foi na Espanha que Fierabras parece ter mais agradado. Não se sabe se sua história foi lá conhecida sob forma poética, mas é certo que em 1528 no mais tardar, um certo Nicolas de Piamonte a traduziu em prosa castelhana e a publicou em Sevilha, não só, mas numa compilação de origem francesa da qual ela já fazia parte e que Nicolas de Piamonte traduziu na íntegra sem nada nela mudar. A obra leva o título de Historia del emperador Carlos Magno y de los doce pares de Francia. Foi reimpressa várias vezes após o século XVI até nossos dias e traduzida em português duas vezes: no século XVIII e no século XIX (p.16). Foi desta fonte, sem dúvida, que Cervantes tirou referências faceciosas (p.17).”

Diziam os prefaciadores, ainda, que existiam quatro manuscritos em francês: o primeiro, que designavam pela letra e do qual publicaram o texto, conservado na Biblioteca Imperial, suplemento francês nº 1-180, o qual é um belo manuscrito sobre papel vem, da primeira metade do século XIX, escrito em dialeto picardo. O texto não é muito puro “Il s’en faut”, mas ainda é, no seu conjunto, não só mais completo como mais correto que os outros manuscritos; daí a preferência [17].

Não nos teria sido possível obter em Paris todo o texto xerox da canção. Apesar de haver recorrido à minha cara amiga e colega da Universidade Federal de Alagoas, a professora Denilda Moura (que então lá se encontrava fazendo doutorado em Letras) que gentil e afanosamente encontrou a obra na Bibliothèque Sainte Genieve (10 Place du Panthéon, Paris 5ème.), seria impossível obter a cópia pois a obra está em sala especial “sous réserve” e contém nada menos de 204 páginas, pelo que impossível de copiar a mão, já que não é permitido xerocar o poema. Assim mesmo pôde minha colaboradora copiar algumas notas do prefácio e transcrever-me em texto datilografado duas páginas da chanson onde se enunciam alguns dos nomes dos pares de França. Justamente na página 2 do prefácio se encontram afinal os nomes dos doze pares segundo a Chanson de Fierabras pois que falando da batalha de Oliveiros com Ferrabrás dizem os prefaciadores:

Oliveiros foi “surpreendido pelos sarracenos e feito prisioneiro com quatro de seus pares: Bernard de Montdidier, Aubri, le Bourguignon Geofroi d’Anjou e Guillemer, l’Escot. Os outros sete pares: Roland, Gui de Bourgogne, Naimes de Baviere, Ogier le Danois, Richard de Normandie, Tierri d’Ardenne e Basin de Genevois foram enviados por Carlos Magno ao almirante Balão para reclamar a liberdade de seus companheiros.”

Com esse trecho fica elucidado o número e os nomes dos pares de França na Chanson de Fierabras.

Mas como se pode ver, se oito correspondem nominalmente à tradição luso-brasileira (Thierry d’Ardenne nos deu o nosso Tietri de Dardâma) oriunda da obra de Jerônimo Moreira, quatro diferem completamente. É possível que essa diferença provenha justamente das outras fontes da compilação de que se serviu Nicolas de Piamonte para a sua tradução espanhola. Aliás houve uma tradução ou resumo português dessa tradução espanhola com readaptações e que possuímos: Nicola Piemmonte, História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França [18]na qual os nomes dos quatro pares discrepantes da obra de Jerônimo Moreira são: Lamberto de Bruselas, Noel conde de Nantes, Jofre senhor de Bordeos (talvez tradução de Geofroi d’Anjou) e Galalão de Espanha, o traidor, ou Valdevinos.

Mas infelizmente não foi possível à nossa prestimosa colaboradora, professora Denilda Moura, localizar em Paris o Speculum historiale e a Crônica de Turpin; ou talvez mesmo outra fonte não apontada por Menendez y Pelayo, mas apresentada por Cascudo, baseado em Teófilo Braga: Conquéte du grande Charles Magne (1845, Chez Montbelliard Paris, Bibliothèque Bleue). Quem sabe mestre Raymond Cantel possui as citadas fontes?

Afinal, com essas informações devemos terminar. E como hipótese de trabalho fica a sugestão já feita de que os doze foram os que morreram em Roncesvalles — o número aderindo à tradição dos pares; ou conformar-se mesmo de que o episódio é “estória” e não história, devendo-se pois atribuir todas as discrepâncias a respeito de número e nomes ao óbvio ululante na matéria, a irrecorrível e incontestável dinâmica das manifestações folclóricas.
Bibliografia

Barros, Leandro Gomes de. Batalha de Oliveiros com Ferrabrás, folheto de cordel, ed. das Filhas de José Bernardo, Juazeiro do Norte, 1976, 32p.

Brandão, Carlos Rodrigues. Cavalhadas de Pirenópolis. Goiânia, Oriente, 1974.

Brandão, Téo. “As cavalhadas de Alagoas”, em Revista Brasileira de Folclore, ano 2, nº 3, maio-agosto de 1962, p.5-46.

Cancioneiro de romances impressos em Amberes. Edição fac-similada com introdução de R. Anendez Pidal, Madri, Consejo Superior de Investigaciones Científicas, 1945.

Cascudo, Luís da Câmara. Cinco livros do povo. Rio de Janeiro, José Olympio, 1953.

Cascudo, Luís da Câmara. Roland no Brasil. Natal, ed. do Autor, 1962.

Chanson de Roland. Ed. Garnier-Aubé.

Ferreira, João Melquíades. História de Carlos Magno; o príncipe Roldão no Leão de Ouro, folheto de cordel, ed. da Casa Weellington, Recife, s/d; 48p.

Extraits de chansons de geste. Paris, Larousse, 1935.

Ferabras: chanson de geste, prefácio de A. Kroeber e G. Servois; Paris, Chez F. Vieweg, 1860, tomo 4 (Colletion des anciens poètes de France).

História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França; adaptação de Salvador Saboya, Porto, Civilização, 1940.

Machado Guerreiro. “A comédia dos doze pares de França (auto de Floripes)”, em Revista de Etnografia, ano 16, nº 2, Porto, abril de 1972.

Marconi, Marina de Andrade. “Cavalhada de Franca”, em Revista Brasileira de Folclore, ano 8, nº 20, janeiro-abril de 1968.

Menendez y Pelayo, Marcelino. Orígenes de la novella. Buenos Aires, Emecé, 1945, tomo 1, Libros de Caballería (4 v., 16, Colleción Horreo).

Moreira de Carvalho, Jerónimo. História do imperador Carlos Magno e dos doze pares de França, Lisboa, Impressão Régia, 1814.

Pellegrini Filho, Américo. Calendário e documentário de folclore paulista. São Paulo, Inst. Musical, 1975.

Pellegrini Filho, Américo. “Cristãos impõem sua fé aos mouros durante as cavalhadas”, em Correio Paulistano, São Paulo, 27 de maio de 1962.

Pires Ferreira, Jerusa. Cavalaria em cordel: o passo das Águas Mortas. São Paulo, Hucitec, 1979.

Romancero castellano. Barcelona, Ibéria, 1956; seleção de Esteban Molist Pol.

Romancero español y morisco. Buenos Aires, Glem, 1943.

Santillana, Luis. Romancero español. 5ª ed., Madrid, Aguilar, 1946.

Solalinde, António. Cién romances escogidos. Buenos Aires, Espasa-Calpe, 1940.
Notas

1. Chanson de Roland, Paris, 1935, p.12, vers.168/179.

2. Leonardo Mota. Cantadores, p.62.

3. Batalha de Oliveiros com Ferrabrás (folheto).

4. Téo Brandão. Revista Brasileira de Folclore, ano 2, nº 3, 1962, p.5-46.

5. Reportagem de Américo Pellegrini Filho em Correio Paulistano, São Paulo, 27/05/1962, sobre a cavalhada de Franca, SP.

6. Apud Chanson de Rolland, ed. Garnier-Aubé.

7. Nossa edição é da Casa Weelington, Recife; mas há outras edições, conforme indicado no Catálogo da Casa de Rui Barbosa.

8. João M. Ferreira. História de Carlos Magno, p.1-2.

9. Extraits de chansons de geste, p.13-23.

10. Idem, p.24-39.

11. Idem, p.39-48.

12. Idem, p.78-87.

13. Idem.

14. Nas páginas 29-54, 174-182 e 17-35.

15. M. Menendez y Pelayo. Orígenes de la novella.

16. Idem, Ibidem.

17. Fierabras..., prefácio de A. Kroeber e G. Servois, p.18.

18. Adaptação de Salvador Saboya, Liv. Civilização, Porto, 1940.

(Brandão, Téo. “Nome e número dos pares de França”. Em Pellegrini Filho, Américo (org.). Antologia de folclore brasileiro. São Paulo, Edart, 1982, p.341-356)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | by AF themes.