Jangada Brasil

 

Frases feitas

 

 

Alceu Maynard Araújo

Quantas vezes não proferimos uma frase,  frase feita, que se ajusta perfeitamente ao assunto da conversa. Elas todas tiveram uma origem. Não havendo pressa “como de quem vai tirar o pai da forca”, poder-se-a meditar sobre esses modos de dizer para se conhecer como se originaram. Essa frase é atribuída ao fato de Santo Antônio, estando em Pádua, ter que ir apressadamente até Lisboa para livrar seu pai da forca, lenda muito conhecida que nos legou essa frase que tem tanta atualidade neste século de azáfama onde quase todo mundo corre “como quem vai tirar o pai da forca”.

Há frases feitas “mais velhas do que a sé de Braga”, outras porém são novas como esta – “Eta cafezinho bão!”, criada por Ariovaldo Pires (Capitão Furtado) para anúncio de um café, hoje se tornou popularíssima graças ao rádio e à televisão. Se o anúncio radiofônico é novo, velhíssimo porém é este “eta”, interjeição encontrada em várias frases feitas: eta sujeito cacete!, eta Brasil velho de guerra!, eta velha rabugenta!, eta vidinha folgada! eta, mundo velho sem porteira!, eta sujeito sem-vergonha!… A interjeição eta, que no Nordeste é eita, assume vários matizes, ora é de satisfação, ora de contrariedade, mas o que indica o seu verdadeiro sentido é a maneira como é pronunciada.

Analisar as frases feitas, uma por uma, é uma tarefa estafante e só para os mestres em lingüística do folclore como Guilherme dos Santos Neves, Veríssimo de Melo, Aires da Mata Machado Filho, Sebastião de Almeida Oliveira, Florival Seraine e não para folcloristas “de meia tigela”. Este “meia tijela” em Tacaratu (Pernambuco), foi a medida com a qual nos venderam farinha de mandioca de feira… que de mistura com uma feijoada “enlatada” valeu mais do que um banquete de “um fidalgo de meia tigela”. Este “fidalgo” já nos conta que tal locução depreciativa só poderia ter vindo de Portugal.

A frase feita evita o circunlóquio. Ela nada tem de perífrase, porque com poucas palavras, diz tudo, ou melhor, faz entender o que se queria dizer… entretanto há os que não “entendem patavina” ou “não sabem pataca de qualquer coisa”.

Por dá cá essa palhar
No dia de São Nunca
Não sou pau de amarrar égua
Segurando vela
Na batata!
Isto tem dois v (vai e volta)
Um pé lá outro cá (rapidamente)
Pés em duas canoas
Pau de dois bicos
Ter as costas largar
Jogar verde para colher maduro
Ter as costas quentes
De fio a pavio
De cabo a rabo
De déu em déu
À queima bucha. À queima roupa
Maria vai com as outras
Coió sem sorte
De mãos abanando
Que nem cachorro magro, comemos e saímos
Com o rabo no vão das pernas
Juntar os trapinhos. Misturar os baixeiros. Misturar o cobertor. Arranjar cobertor de orelha (casar-se)
Queimar as pestanas (estudar, ler)
Sem pestanejar
Comer gato por lebre
Fazer de gato e sapato
Botar no chinelo
Levar nabos em sacos
Lamber os beiços
Ficar com água na boca
Ver com os olhos e lamber com a testa
Mora onde o Judas perdeu as botas
Tirar o vento da miséria
Vira-casaca
Virar bandeira
Não dá pra saída
Num vale uma pitada de fumo macáio
Pau para toda obra
É um pé de boi
Para o que der e vier
Ficou xavié (desapontado)
Marinheiro de primeira viagem (estreiante)
Matar dois coelhos com uma bordoada só
Quem cai na rede é peixe
Tirar a farinha
É um caco velho (sem valor algum)
Não faz quatro com as pernas
Bêbado que nem gambá
Com o caco cheio
Estar no fogo
Estar na chuva (ou no chuvisco)
Estar mareado
Estar na água
Estar com o bule cheio
Pegando frango ou cercando frango (embriagado)
Podre de rico
Até o Chico vir de baixo
Água no bico
Água morna
Lengalenga que não resolve
A hora que a porca torce o rabo, não sendo rabicó
Hora da onça beber água
Levantar com o pé direito
Levantar com o pé esquerdo
Meter os pés pelas mãos
Ir com o calcanhar para frente
Ir pro país dos pés juntos

 

 

(Araújo. Alceu Maynard. Folclore nacional. São Paulo, Edições Melhoramentos, 1964, v.3, p.177-179)

 

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