Jangada Brasil

Linguagem popular: Maranhão

Aço – Meter o aço: levar de roldão. Fazer algo de forma impetuosa e violenta.
Adão – Nos tempos em que Adão era cadete: antigamente, nos tempos antigos
Alho – Ser um alho: ser vivo, esperto, ladino. Passado na casca do alho: esperto, sagaz, matreiro
André – Ficar André: encabular, encalistrar
Arara – Comer arara: ser tolo, atrasado, ingênuo. Possível conotação com o índio brasileiro, comedor de pássaros.
Ariri – Ser ariri de festa: não perder uma festa, estar em todas. Alusão à grácil palmeira ariri, ornato obrigatório em festas de arraial e celebrada por João Lisboa, ao descrever a festa de Nossa Senhora dos Remédios, em São Luís.
Arromba – Festa de arromba: festa supimpa, farra grossa.

Bacuri – É uma porta de bacuri: qualidade de ser bronco, rude, obtuso. Evidente conotação com a rijeza da tábua do bacuri, que outrora era empregada em assoalho no Maranhão.
Barulho – Caçar barulho: procurar confusão, encrenca
Beirada – Correr beirada: andar de casa em casa ou pelos cantos de rua farejando novidades. O mesmo que correr coxia.
Besta – Besta que amarga: apresentar o que não é, posudo, presunçoso
Bico – Baixar o bico: beber, meter-se na cama
Boca – Fazer uma boquinha: fazer um repasto ligeiro, manducação leve
Boi – Assim meu boi não dança: desse jeito não vai. Alusão à dança do bumba-meu-boi.
Bugiar – Vá bugiar: vá adiante, não amole, vá importunar outro

Cacau – Ser o bicho cacau: ser o tal, o melhor de todos
Cachimbo – Bater o cachimbo: morrer
Cachorrinha – Chegar puxando a cachorrinha: chegar na miséria, na banha
Caderno – Botar no caderno de alguém: pôr na lista negra, marcar alguém
Camarote – Assistir de camarote: não tomar partido numa disputa, olhar do alto os acontecimentos
Campo d’Ourique – Revés Campo d’Ourique: certo, correto, perfeito
Carepa – Levada da carepa: o mesmo que levada da breca
Caxias – Deixar o barco rolar ou correr pra Caxias: não fazer caso das coisas. Alusão às lutas pela independência do Maranhão e depois a Balaiada que conturbaram a cidade de Caxias.
Coisa – Aqui há coisa: desconfiar de algo. Coisa-feita: feitiço, mandraca, mandinga. Não dizer coisa com coisa: não ligar duas palavras, falar sem nexo. Nem como coisa: não se dar por achado, não assuntar
Copas – Na primeira de copas: na primeira oportunidade
Curica – Empinar a curica: melhorar de situação. Curica, no Maranhão, entre outras acepções, tem a de pequeno papagaio de papel comum com talas de pindova ou buriti enfiadas em cruz.

Desvio – Estar no desvio ou empregado no desvio: sem emprego
Dia de São Nunca: o dia 1º de novembro, que é o dia de Todos os Santos; em dia nenhum
Doce – Dar um doce: prometer paga ou prêmio pela realização de algo difícil. Dar o doce: contrair matrimônio

Engenheiro – Engenheiro de obras prontas: malandro, preguiçoso
Engolir – Engolir em cheio: o mesmo que engolir sapo, suportar calado uma afronta
Escada – Não ser escada: não contribuir para a ascensão de outrem no plano da vida

Facho – Sossegar o facho: aquietar-se, acalmar-se
Fevereiro – Só querer ser 31 de fevereiro: aparentar o que na realidade não é
Fina – Fazer uma fina: pregar uma peça a alguém
Fogo – arder em dois fogos: querer fazer duas coisas ao mesmo tempo
Folhinha – Só quer ser o que a folhinha não marca: querer bancar o importante, ostentar prestígio
Fósforo – Ser fósforo sem cabeça: não valer nada, não ter prestígio

Galinha – Quando galinha ciscar pra frente: no dia de São Nunca, em tempo algum
Ganja – Não dar ganja: não ligar importância, não dar atenção
Garapa – Isto é uma garapa: coisa malfeita, sem mérito. Isto é uma garapa azeda: idem
Gereba – Quebra gereba!: locução interjeitiva enunciada quando alguém quebra uma coisa. Em São Luís era comum a parlenda: Quebra gereba / Quando acabar de quebrar com esse / Quero ver com quem tu quebra
Gilete – Ser como gilete: cortar dos dois lados, não se definir, ficar dos dois lados
Gosma – Isto é uma gosma: diz-se de coisa mal-feita

Hora – Cheio de nove-horas: cheio de nicas, exigências

Imaginação – Comer pastel de imaginação: passar fome

Jaca – Estar por dentro como bago de jaca: ser senhor do assunto
Jacaré – Não ser pai de cascudo nem avô de jacaré: não ser besta, não servir de besta para alguém
Janambura – Do tempo da janambura: do tempo antigo, do onça, do ronca

Lamiré – Cheio de lamiré: cheio de prosápia, cascata. Antenor Nascentes em Tesouro da fraseologia brasileira, 16, registra a expressão dar alamiré, significando: “Dar pequena indicação que desperte a atenção ou a memória”.

Macaca – Dar o tiro na macaca: não casar, ficar solteira
Mão – Do pé pra mão: num instante, o mesmo que da noite para o dia
Maré – Estar de maré: estar irritado, com azeite. Espiar maré:assuntar. Ir tomar banho na maré: ir amolar outrem
Maria – Não ser maria-vai-com-as-outras: ter personalidade
Mijo – Beber o mijo: comemorar o nascimento de um filho oferecendo vinho fino aos amigos
Miolo – estar de miolo mole: gira, dementado, palerma
Mitra – ser uma mitra: ladino, esperto, finório. Comum também a expressão ser mitrado, com idêntico sentido.
Moda – Cheio de nove-modas: o mesmo que cheio de lamiré
Moita – Ficar na moita: calar-se, guardar sigilo, recato
Mosca – Ser uma mosca-morta: apático, sem vontade, molenga

Negra – Falar mais do que a negra do leite: ser tagarela. A expressão é uma nítida reminescência dos tempos do cativeiro, quando as negras serviam de ama e aleitavam as crianças brancas. E deviam de ser palradoras, exímias contadoras de histórias.
Neves – Até aí morreu o Neves: ficar na mesma, isto é, não contribuir com nada para esclarecer um assunto
Nhô Zé – Ficar com cara de nhô Zé: ficar com cara de tolo, papalvo

Olhos – Entrar pelos olhos da cara: evidência indiscutível, o que está muito claro. Custar os olhos da cara: obter uma coisa com muito esforço; custar caro

Pá – Ser da pá virada: ser assanhada, levada da breca
Papelão – Fazer um papelão: cair no ridículo, ter péssimo desempenho
Pataca – Encontrar a árvore da pataca: enriquecer rapidamente
Pau – Pau-de-virar-tripa: magricela. Feito de dois paus: feito besta, com ar de tolo
Peixe – Nem carne nem peixe: nem uma coisa nem outra
Pistola – Marca pistola: de qualidade inferior

Rame-rame – Não sair desse rame-rame: não progredir nas coisas da vida; prender-se à rotina, à mesmice. Luís da Câmara Cascudo registra em Locuções tradicionais do Brasil, 313, a variante rame-rame, ou ramerrão.
Rede – Estar de rede armada: estar a cômodo, bem instalado. Ser de rede rasgada: não respeitar ninguém, ser desaforado
Repique – Ser repique de alguém: atrapalhar a vida de outrem. Alusão ao repique no jogo de bilhar francês.
Ronca – Do tempo do ronca: do tempo antigo, do onça

Sé – Querer colocar a Sé em Santaninha: querer o impossível. A igreja de Santaninha, erigida ao lado do antigo largo do Quartel, foi demolida há muito tempo e era uma pequena ermida que deveria caber duas vezes na Sé.
Seiscentos – Longe como seiscentos: lugar longínquo
Souza – Nem como seu Souza: desligado das coisas, alheado do mundo, indiferente
Suficiente – Não ser mais suficiente: não ser mais virgem

Três – Duas por três: a todo momento
Trinta-e-um – Bater o trinta-e-um: morrer
Trombone – Ser trombone: fazer o papel de leva-e-traz, de onze-letras

Unha – Ser carne e unha: devotar amizade incondicional a outrem

Vento – Comer sopa de vento: passar fome
Violão – Comigo não, violão: comigo a coisa é diferente

(Em Vieira Filho, Domingos. Folclore brasileiro: Maranhão. Rio de Janeiro, Funarte, 1977, p.9-12)

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