Jangada Brasil – a cara e a alma brasileiras – Edição Especial –

O cão na literatura popular

Gumercindo Saraiva

O cão, esse mamífero carnívoro, andando geralmente nas pontas das dedos compreendendo as espécies chacal e lobo, é um animal inteligente, hábil, quando domesticado. É o irracional que tem mais afeição ao homem, conciliando com o afeto, a gratidão e o reconhecimento, dentro do reino dos animais. Evidentemente que nos referimos ao cão familiar, servidor, uma espécie de sentinela, vigiando dia e noite o patrimônio do seu dono.

Na Zoologia, parte da história natural que se ocupa dos animais, encontramos o cão doméstico por natureza carniceiro, mai podendo tornar-se também onívoro, dependendo da educação recebida dos seus donos. Natural, que ele com fome chega a comer imundícies, por uma questão que está às nossas vistas. Mesmo nessas condições, o cão recusa terminantemente frutas e legumes, chegando a morrer esfomeado.

A prenhez da fêmea, dura sessenta e cinco dias, chegando a partir até dez filhos, de acordo com a raça, e estes, nascem completamente cegos, abrindo os olhos somente aos noves dias de nascido. È notável a memória, a fidelidade e a inteligência do cão e em todos os tempos, ele tornou-se companheiro do homem.

Não obstante ser o animal reverenciado no velho mundo até com estátuas em praça pública, existem povos que antigamente não domesticaram o cão, e os indianos chegaram a repudiá-lo. Limitando-se esperar a viverem uns quinze anos, o cão como o gato, estão sujeitos a uma grande contaminação de doenças conseguidas facilmente. Ainda hoje na Índia, se odeia o cão e dizem que sua sombra é capaz de manchar a dignidade de um brâmane. Em certa região, entretanto, uma pequena minoria chega a adorar o cão, juntamente com o dono.

Já no Egito, o cão possui cemitério apropriado sendo tratado como pessoa humana. NaZooética egipciana, lemos que “Veem-se” representadas as diversas raças nos seus monumentos, assim como nos cemitérios de cães sagrados se tem encontrado os esqueletos ou múmias de todas as variedades. Empregavam-no na caça havendo-os que não temiam atacar o leão. O cão, encarnava dois gênios secundários que também eram representados pelo chacal. As múmias são, em geral, enroladas em cilindro, a cabeça metida numa máscara de cartão que dá a fisionomia do animal”.

O cão na literatura brasileira

A personalidade do cão no Brasil, foi trazida pelos africanos, daí, temos o animal como sinônimo de Diabo, Belzebu, Lúcifer, Satanás, e outros termos popularizados pelo nosso povo. Como um anjo das trevas, o cão vem atravessando séculos no praguejar de determinada classe, aproveita de sua vivência na maldição injustificável, advinda de uma lenda oriental.

No Rio Grande do Norte, vários poetas e escritores personificaram o cão, e vale lembrar no fomento, um livro primoroso do escritor José Pinto Júnior, Cão de luxo, cujo conteúdo é o reflexo não somente de uma expressividade literária, como grandiosa realização na cultura ficcionista do nosso estado, tão bem representada numa obra de estilo, pureza e perfeição. O escritor José Melquíades , bacharel, conferencista aprimorado, escreveu uma de suas melhores obras, “Os Estados Unidos, A mulher e o cachorro”.

História de um cão

Luis Guimarães, escritor, poeta e diplomata brasileiro, nasceu no Rio de Janeiro em 1847, falecendo em Lisboa no ano de 1898. Sua obra fabulosa é quase desconhecida pela nova geração que chegou a empastelar os versos, os dramas, os contos, as poesias soltas, envolvendo-as na cultura de seu filho, Luis Guimarães, também escritor, poeta, diplomata e uma das figuras mais representativas do movimento cultural brasileiro. Luis Guimarães Filho nasceu no Rio de Janeiro no ano de 1878 e como diplomata esteve representando o Brasil até no Japão, onde colheu subsídios para um de seus melhores livros, intitulado Samurais e mandarins (1911).

Por este motivo o poema História de um cão, encontra-se como sendo para uns, de Luis Guimarães (1847) e para outros, assim como nós, de Luis Guimarães Filho (1878). Por mais que ouvíssemos grande número de intelectuais norte-riograndenses, estes não souberam identificar o autor, o que é uma pena. Pela beleza dos versos, pela tragédia enfocada na história, pela sensibilidade que o poeta envolve a figura de um simples cão, demonstrando a lealdade, fidelidade, meiguice, carinho, indulgência que procurou dar-lhe fim, é que publicamos essa jóia primorosa da poesia brasileira.

Eu tive um cão. Chamava-se Veludo
Magro, asqueroso, revoltante, imundo,
Para dizer numa palavra tudo,
Foi o mais feio cão que houve no mundo.
Recebi-o das mãos de um camarada,
Na hora da partida. O cão gemendo
Enfim — mau grado seu — o vim trazendo.

O meu amigo cabisbaixo mudo
Olhava-o… o sol nas ondas se abismava…
“Adeus” — me disse — e ao afagar Veludo,
Nos olhos seus o pranto borbulhava.

“Trata-o bem. Verá que o rafeiro
Te indicará os mais sutis perigos;
Adeus! E que este amigo verdadeiro
Te console no mundo ermo de amigos.”

Veludo a custo habituou-se à vida
Sua rugosa pálpebra sentida
Que o destino de novo lhe escolhera;
Chorava o amigo que perdera.

Nas longas noites de luar brilhante
Febril, convulso, trêmulo, agitando
A sua cauda — caminhava errante
À luz da lua — tristemente uivando.

Toussenel Figuier e a lista imensa
Dos modernos zoológicos doutores
Dizem que o cão é um animal que pensa:
Talvez tenham razão estes senhores.

Lembro-me ainda trouxe o correio
Cinco meses depois do meu amigo
Um envelope fartamente cheio:
Era uma carta. Era uma artigo.

Contendo a narração miúda e exata
Da travessia. Dava-me importantes
Notícias do Brasil e de La Prata.
Falava em rios, árvores gigantes.

Gabava o steamer que o levou: dizia
Que ia tentar inúmeras empresas:
Contava-me também que a bordo havia
Toda sorte de risos e beleza.

Finalmente, por baixo disso tudo
Em nota bem do melhor cursivo
Recomendava o pobre cão Veludo
Pedindo que o conservasse vivo.

Enquanto eu lia, o cão tranquilo e atento
Me contemplou e — creia que é verdade.
Vi, comovido, vi nesse momento
Seus olhos gotejaram de saudade.

Depois lambeu-me as mãos humildemente
Estendeu-se aos meus pés atencioso
Movendo a cauda — e adormeceu contente
Farto dum puro e satisfeito gozo.

Passou-se o tempo. Finalmente um dia
Vi-me livre daquele companheiro;
Para nada, Veludo me servia
Dei-o à mulher dum velho carvoeiro.

E respirei: Graças a Deus já posso
Dizia eu “viver neste bom mundo
Sem ter que dar diariamente um osso
A um bicho vil a um feio cão imundo.”

Gosto dos animais, porém prefiro
A essa raça baixa e aduladora
Uma alazão inglês, de sela ou tiro.
Ou uma gata branca cinzadora.

Mas respirei porém: Quando dormia,
E a negra noite amortalhava tudo,
Senti que à minha porta alguém batia:
Fui ver que era. Abri. Era Veludo.

Saltou-me às mãos, lambeu-me os pés ganindo.
Farejou toda a casa satisfeito;
E — de cansado — foi rolar dormindo,
Como uma pedra junto do meu leito.

Praguejei furisco. Era execrável
Suportar esse hóspede importuno
Que me seguia como o miserável
Ladrão, ou como um pérfido gatuno.

E resolvi-me enfim. Certo é custoso
Dizê-lo em alta voz e confessá-lo
Para livrar-me desse cão leproso
Havia um meio só: era matá-lo.

Zunia a asa fúnebre dos ventos;
Ao longe o mar na solidão gemendo,
Arrebentava em uivos e lamentos…
De instante a instante o tufão crescendo.

Chamei veludo: ele seguiu-me. Entanto
A fremente borrasca me arrancava
Dos frios ombros o revolto manto.
E a chuva meus cabelos fustigava.

Despertei um barqueiro. Contra o vento,
Contra as ondas coléricas vagamos;
Dava-me força o torvo pensamento:
Peguei num remo — e com furor remamos.

Veludo à proa olhava-me choroso,
Como o cordeiro no final momento.
Embora! Era fatal! Era forçoso
Livrar-me enfim desse animal nojento.

No largo mar ergui o nos meus braços,
E arremessei-o às ondas de repente…
Ele moveu gemendo os membros lassos
Lutando contra a morte! Era pungente!

Voltei à terra — entrei em casa. O vento
Zunia sempre na amplidão profundo.
E pareceu-me ouvir o atroz lamento
De Veludo nas ondas moribundo.

Mas, ao despir dos ombros meus, o manto
Notei — oh grande dor! Haver perdido
Uma relíquia que eu rezava tanto!
Era um cordão de prata: eu tinha-o unido.

Contra o meu coração constantemente.
E o conservava no maior recato,
Pois minha mãe me dera essa corrente
E, suspenso à corrente, o seu retrato.

Certo caíra além do mar profundo
No eterno abismo que devora tudo;
E foi o cão, foi esse cão imundo
A causa do meu mal! Ah! se Veludo

Duas vidas tivera — duas vidas
Eu arrancara aquela besta morta,
E aquelas vis entranhas corrompidas!
Nisto senti uivar à minha porta.

Corri, abri… Era Veludo! Arfava:
Estendeu-se aos meus pés — e docemente
Deixou cair da boca que espumava,
A medalha suspensa da corrente.

Fora incrível, oh Deus! — Ajoelhado
Junto ao cão — estupefato absorto,
Palpei-lhe o corpo, estava enregelado
Sacudi-o, chamei-o! Estava morto.

O cão no folclore nacional

Nas tradições e costumes brasileiros, existem várias superstições envolvidas no comportamento do cão, inclusive lendas e histórias mal-assombradas, e até contidas nos brincos de crianças. O cão latindo em frente de uma casa, representa morte em pessoas ali residentes. Cachorro deitado de costas, é mau agouro para seu dono. Cachorro correndo em forma de círculo, dizem que está trazendo felicidade para o seu dono. Cachorro vomitando no fundo do quintal está afastando o mal, evitando desgraça para seus moradores. Dependendo do nome que se bota no animal, este se influenciara no seu destino. Por isso o cão não deve ter nome de pessoa, nem de coisa. Para sua felicidade e do próprio dono o cão deve ter nome de peixe como tubarão, xaréu, tuninho, agulhão, dentão e mero.

Adagiário do cachorro

As sentença acerca do cachorro, em sua maioria chegaram de Portugal, juntamente com os primeiros colonizadores. Entre as mais citadas, principalmente em nosso estado são estas:

Cachorro velho não ladra em vão
Cachorro que muito anda, apanha pau ou rabugem
Cachorro bom de tatu, morre de cobra
Cachorra apressada pare filhos cegos
Cachorro que engole osso, toma a medida do pescoço
Cachorro cotó não passa pinguela
Cão que muito ladra não morde
Cão com raiva seu dono trava
Cão na igreja tudo apedreja
Cão que lobo mata, lobos o matam
Cão nunca ladra em falso
Cão não rejeita osso
Cão que muito lambe, chupa sangue
Cão azeiteiro nunca bom coelheiro
Cão mordido todos mordem.

O cachorro na poesia popular

Na poesia popular, como temos sempre informado, encontram-se formas mais essenciais da sensibilidade do espírito humano. Os poemas matutos, no Brasil principalmente, despertaram um novo mundo na cultura erudita, e por isso os historiadores e folcloristas nacionais criaram fama, levando os versos para complementar a Sociologia, estudando o conhecimento dos agrupamentos humanos. Os cordéis, hoje são matérias obrigatórias nas universidades européias, onde se focalizam parte da ciência dos fenômenos sociais.

Num romance popular, pesquisado por Sílvio Romero, no interior de Pernambuco, o folclore nacional foi enriquecido com a Alforria do cachorro, conforme publicamos:

No tempo em que o rei francês
Regia os seus naturais
Houve uma guerra civil
Entre os brutos e animais
Neste tempo era o cachorro
Cativo por natureza
Vivia sem liberdade
Na sua infeliz baixeza
Chamava-se o dito senhor
Dom Fernando de Turquia;
E foi o tal cão passando
De vileza a fidalguia.
E daí a poucos anos
Cresceu tanto em pundonor.
Que os cães o chamaram logo
De Castela imperador
Veio o herdeiro do tal
Dom Fernando da Turquia,
Veio a certos negócios
Na cidade da Bahia.
Chegou dentro da cidade
Foi à casa de um tal gato
E este o recebeu
Com muito grande aparato
Fez entrega de uma carta
E ele a recebeu;
Recolheu-se ao escritório
Abriu a carta e leu.
E então dizia a carta:
— Ilustríssimo Senhor
Maurício – Violenzo – Souré –
Ligeiro – Gonçalves – Cunha –
Sutil – Maior – Ponta-pé –
Dou-lhe amigo, agora a parte
De que me acho aumentado,
Que estou de governador
Nesta cidade aclamado
Remeto-lhe esta patente
De governador lavrada;
Pela minha própria letra
Foi dita confirmada.
Ora o gato, na verdade,
Como bom procurador,
Na gaveta do telhado
Pegou esta e guardou
O rato como malvade,
Assim que escureceu
Foi à gaveta do gato
Abriu a carta e leu
Vendo que era a alforria
Do cachorro, por judeu
Por ser de má consciência
Pegou a carta e roeu
Roeu-a de ponta a ponta
E pô-la em mil pedacinhos.
E depois as suas tiras.
Repartiu-as pelos ninhos.
O gato, por ocupado
Lá na sua relação
Não se lembrava da carta
Pela grande ocupação
E depois se foi lembrado,
Foi caçá-la e não achou,
E por ser maravilhoso
Disto muito se importou.

Cascudo comentando o cordel, explica que a alforria do cachorro, confia-a ao gato, foi inutilizada pelos ferinos dentes do rato. Quando o cachorro procurou seu diploma e o gato foi buscá-lo encontrou-o em pedaços ínfimos. Dai, a inimizade, malquerença e desafeição havida entre os dois animais.

Uma sextilha de Zé de Souza

Desse fabuloso repentista que integra a radiofonia potiguar Zé de Souza (Patrulha da Cidade – R. C.) recolhemos esta sextilha espirituosa, humorística e conceituosa:

O cachorro esse meu amigo
que ao homem presta socorro.
Seja andando na estrada
ou caçando lá no morro,
– Melhor um cachorro amigo, que um amigo cachorro.

(Saraiva, Gumercindo. “O cão na literatura popular”. Tribuna do Norte. Natal, 29 de setembro de 1974)

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