Jangada Brasil

 

Jogo de “caipira” na feira dos nordestinos

 

 

Uma feira tipicamente nordestina instalou-se no Campo de São Cristóvão, com modas de viola, o jóio denominado “caipira” e venda de bainhas para “peixeiras”. Funciona do outro lado da feira-livre do Canapé e fica perto da rua Senador Alencar, onde costumam desembarcar (quando vêm de caminhão) os nordestinos que chegam fugidos da seca.
Moda de violaA farinha torrada do norte, como é mais conhecida, é vendida aos litros. São muitos os compradores e sempre há confusão na hora da compra. Isto foi presenciado pelo repórter, que deu umas voltas pela feira, atendendo a um convite para ver “como se joga em plena praça pública”.

Bem perto da barraca onde era vendida a farinha, alguns “caboclos” entoavam canções do norte, acompanhados da viola. Cantando “cocos”, baiões e outras músicas do folclore brasileiro, ficavam rodeados de curiosos que se entusiasmavam a cada número.

Fumo em corda com 10 centímetros de espessura, mais ou menos, também se vende ali. “Esse é do bom”, dizia o vendedor. Numa outra barraquinha vendia-se o doce de coco feito à maneira do norte.

A feira, que é pequena abriga quase que exclusivamente nordestinos e nortistas que fazem dali uma espécie de ponto de reuniões para conversarem e contarem coisas lá da terra. Os que chegam recentemente são os mais solicitados.

Numa rodinha um “caboclo” contava as peripécias por que passou durante a viagem. Veio de caminhão e chegou “fraquejado”. — Vim para o Sul em busca de melhores dias. Apesar da viagem não ser boa, estou gostando do Rio,— assim nos falou um recém-chegado.
“Caipira”

Enquanto prosseguiam em animado bate-papo, nossa atenção foi despertada por um grupinho de rapazes que animadamente jogava “caipira”. Num caixote alto e forte, com um dado e uma caneca na mão, era o banqueiro. A cada rodada sucediam-se as apostas. Jogo franco e descoberto. A banca, que estava rodeada de jogadores, era o ponto máximo de atração para os que ali se concentravam.

O banqueiro com muita habilidade manejava o dado. “Quem mais, quem mais”, dizia ele. Sempre cercado dos jogadores, na maioria rapazes do norte e que ali compareceu para rever conterrâneos e comprar alguns objetos, não perdem a oportunidade de arriscar alguns cruzeiros.

Não temem a presença de policiais. Para burlar qualquer investida da polícia, o papel que serve de pano com os quadros e números desenhados, fica solto sobre a improvisada mesa. Qualquer sinal suspeito eles escondem logo o papel e nada deixa transparecer que era jogo.

Para despistar, quando isto acontece, dois dos jogadores, um de cada lado da mesa, inicia uma luta de queda de braço. Os outros, para todos os efeitos, são meros assistentes da “luta”. Assim, conseguem fugir a qualquer flagrante. Jogam no maior silêncio possível e quase não há desavenças. Levam o dinheiro trocado em notas de Cr$ 10 e Cr$ 20 e o jogo dura horas. Só desistem mesmo quando acaba o dinheiro.

Os populares que passam por ali quase nada percebem, por causa do movimento dos compradores dos objetos ali negociados.
Bainha de “peixeira”

Também redes são ali negociadas. De vários tipos e cores, são procuradas com muito interesse. Em jornais estendidos no chão existem alparcatas e chinelos de couro para serem vendidos, além de cartucheiras para revólveres e pistolas. Bainhas para facas e “peixeiras” também, em grande quantidade.

São negociados também livretos contando histórias do norte, tais como Lampião, Maria Bonita e outras mulheres cangaceiras, A selvagem peregrina“, Iracema, anedotas do Bocage, Pedro Malasartes e outras mais.

Os freqüentadores da original feira-livre quese sempre são os mesmos. Em sua maioria, procedentes do norte ou nordeste do Brasil, reúnem-se ali aos domingos. Sem fazer alaridos ou mesmos arruaças ficam em grupinhos. Os moradores das proximidades já acostumados, passam despreocupados.

 

 

(“Jogo de “caipira” na feira dos nordestinos”. Tribuna da Imprensa. Rio de Janeiro, 31 de  julho de 1956

 

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