Jangada Brasil

O Natal através da voz dos animais

Guilherme Santos Neves

Leio na clássica obra de Pereira da Costa, Folclore pernambucano(Rio de Janeiro, 1908, p.46) esta informação que data dos meus distantes tempos de criança (aonde vão eles, Santo Deus…): “O pato e o peru são também (animais) excomungados, porque na frase de uma curiosa legenda, geralmente narrada por mulheres no seu contar de histórias, quando o galo com o seu canto anunciava o nascimento do Messias, dizendo — Cristo nasceu, e o cordeiro respondia: — Em Belém, retorquia o pato — Cabeça fora, e o peru, com a sua arrogante fatuidade, de plumagem eriçada e asas arrastando, acudia imediatamente — Logo, logo, logo!…

Há variantes dessa lenda ou parlenda infantil, mas todas elas mantêm o canto do galo e o balido da ovelhinha: — Cristo nasceu! Em Belém!…

Por exemplo:

Gustavo Barroso, em seu interessante e erudito livro, O sertão e o mundo, ao estudar “O reisado dos bichos” (p.162) escreve: “Na vasta cópia desse reisados, há um que é como uma espécie de parlenda infantil e procura imitar a voz de todos os bichos domésticos, aplicando-a ao fato do nascimento de Cristo. Esse “reisado dos bichos” deveria ter sido em rimas antigamente. Com o correr dos tempos e por ser próprio das crianças, perdeu-as e tomou esse feitio simplório de parlenda com que ora se apresenta. “Não há menino do Nordeste brasileiro que o não conheça de cor e que não o repita na época consagrada ao nascimento de Cristo. Dizem eles, procurando fazer com as diversas frases uma como onomatopéia dos diversos modos de voz dos animais:

O galo: — Cristo nasceu!
O boi: — Aonde? Aonde?
O carneiro: — Em Belém! Em Belém!
O burro: — Vamos! Vamos!
A cabra: — Mata! Mata!
O peru: — Degola! Degola!
O capote (galinha de Angola): — Não! Está fraco! Está fraco!

Nos Cantos populares espanõles, de Rodrigues Marin (Madri, 1951, tomo I, p.80), encontro esse diálogo infantil, que se prende (embora aí não se diga) a essa mesma parlenda do Natal:

— Quiquiriqui
— Cristo nació,
— En dónde?
— Em Belém
— Quién te l’ha dicho?
— Yo que lo sé.

Não se explica, igualmente, quem é que pergunta ou quem responde, mas, pelas variante conhecidas, sabe-se que, pelo menos, o “quiquiriqui” e o “Cristo nació” são vozes do galo; e que o “En Belén”, a voz do carneiro ou da ovelha — animais abençoados.

Aliás, a significação do cantar do galo é tão difundida que já entrou até para a poesia do povo. Uma trovinha, referida por Pereira da Costa (op, cit), diz assim:

Meia-noite; canta o galo,
Dizendo — Cristo nasceu!
Cantam os anjos nas alturas:
Gloria in excelsis Deo!

No estudo que fez Gustavo Barroso (p.166) vamos verificar que esse parlenda dos bichos no Natal é muito mais antiga do que se possa imaginar. Deparou o ilustre folclorista patrício, num livro, num livro de autor francês — Paul Lacroix — referência expressa no “Noel de la joye des bestes à la nouvelle de la naisssancc du sainet enfant“. Ora, esse noel francês — que data da idade média — vai mencionar as vozes e o significado de vários animais com relação ao nascimento do Menino Deus, semelhantes, até certo ponto, ao que Gustavo Barroso registrou no “reisado dos bichos” do Nordeste. Mas com uma diferença bem acentuada: os animais da velha cantiga francesa falam em… latim:

Comme les bestes autrefois.
Parlolent micux latin que françois,
Le coq, de loin voyant le faiet,
S’ecria: “Christus natus est”;
Le boeuf, d’un air tout cbaubi,
Demande: “Um? ubi? ubi?”
La chêvre, se tordant le groin,
Repond que é est à Bethléem.
Maistre haudet, “curiousus”
De l’aller voir, dit:”Eamus!”
Et droit sur ses pattes, le veau
Beugle deux fols: “Volo! Volo!

Através desse texto, escrito em francês antigo, verifica-se que o galo (le coq) repete (em latim) que Cristo Nasceu! O boi pergunta logo: Onde? onde? onde? A cabra (em lugar da ovelha) é que responde: em Belém. O burro (Maistre baudet) convida todos (Emus!) a irem ver o Menino, e, afinal a bezerrinha, por duas vezes, diz que que ir (Volo, volo!).

Segundo informação de Lacroix, essa cantiga era entoada, no século XIII, em procissão do Natal. E é Gustavo Barroso quem o diz: “Não é de admirar que se cantasse esse noel acompanhando a procissão, imitando seguidamente em coro as vozes dos animais”. (id.167)

Imaginem só como deveria ser interessante e ruidosa, essa procissão natalina com cocorocós e zurros e balidos e berros, lá na França da Idade Média…

Quero encerrar estas nótulas — que valem apenas pelo que transcreveu — com esta lição de Gustavo Barroso, exata e meditada “…em matéria de folclore, as origens das menores manifestações se perdem ao longe, na vasta corte das gerações passadas” e “o verso que ouvimos no somo da viola ou a parlenda que nos recita um menino, já foram escutados, com o mesmo encanto, entre povos os mais diversos, séculos e séculos antes de nós. Tão forte é a memória coletiva, e tão facilmente ela lega suas riquezas, e tão facilmente também sua herança é recolhida, que, enquanto o tempo destrói a pedra dos monumentos e as inscrições gravadas no bronze, modifica os cantos e remembranças folclorísticas, não tendo, porém, força suficiente para de todo acabar com elas.”

Neves, Guilherme Santos. “O Natal na voz dos animais”. A Gazeta. Vitória, 25 de dezembro de 1956

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