
"Geralmente os quintais dessa rua,
são pequenos, com um mesmo tipo retangular, cercados de muros e mais ou menos enfeitados
de fruteiras. Nesta área restrita habita a alma de gato" Alma
de gato, por Ademar Vidal.
"Uma
vez havia um homem que tinha três filhos..." A sapa casada, um conto tradicional do
Brasil, registrado por Sílvio Romero.
Corre, dom Galo, que o mundo vai se acabar! Um conto tradicional
brasileiro, por Guilherme Santos Neves.
|
|
|
|
| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Uma vez havia um homem que tinha três filhos. O mais velho deles lá num dia foi ao pai e
disse: "Meu pai, eu já estou moço feito, vossa mercê já está velho, e por isso
eu quero ir ganhar a minha vida". "Pois bem, meu filho; mas tu o que
queres a minha benção com pouco dinheiro, ou a minha maldição com muito?"
O moço respondeu: "A sua maldição com muito." Assim foi, e o moço partiu.
Depois de andar muitas terras e passando sempre contrariedades, casou-se. Um ano depois o
seu irmão do meio foi ao pai e lhe disse que também queria ir ganhar a sua vida. O pai
lhe fez a mesma pergunta que ao primeiro, e o moço respondeu como ele e partiu. Depois
também de muito viajar e sofrer, casou-se. Daí a um ano o irmão caçula também pediu
ao pai para ir ganhar a sua vida. O pai perguntou-lhe se queria a benção com pouco
dinheiro, ou a maldição com muito. O moço quis a benção, e seguiu caminho.
Depois de andar algum tempo ouviu uma voz muito bonita, estando ele a descansar perto de
uma lagoa. O moço ficou muito maravilhado e disse que se casaria com a dona daquela voz,
fosse lá ela quem fosse. De repente ele se viu num palácio muito rico e apareceu-lhe uma
sapa para casar com ele. O moço casou-se, mas ficou muito triste. Ora, passando algum
tempo, ele e os irmãos tinham de ir visitar a família, pois isso mesmo tinham contratado
com os pais. Num certo dia todos três tinham que se apresentar. Todos tinham que levar
presentes mandados por suas mulheres, e o rapaz mais moço, casado com a sapa, andava
muito aflito sem ter o que levar. A sapa lhe disse que lhe desse linhas que ela queria
aprontar umas rendas para mandar à sogra. O moço deu uma gargalhada e atirou-lhe as
linhas na água. A sapa gritou todo o dia dentro da lagoa, formando muita espuma, e o
moço desesperado. Mas, quando foi no dia, apareceu-lhe uma renda tão linda como ele
nunca tinha visto. O moço partiu. Houve muita alegria lá na casa dos pais, e o presente
mais bonito foi o levado pelo caçula, pelo que os irmãos ficaram com muita inveja.
Despediram-se os moços para voltar para suas casas, e os pais lhes pediram para no dia
tal voltarem, levando cada um sua mulher. Aí os dois filhos mais velhos ficaram mais
contentes, porque já rosnava por lá que o caçula tinha-se casado com uma sapa. O mais
moço nada disse, e andava em casa muito triste, pensando na vergonha por que ia passar se
apresentando com uma sapa por mulher.
Quando foi no dia da viagem a sapa pulou para fora da lagoa com um rancho enorme de sapos
e sapinhos, e pôs-se a caminho com o moço, ele a cavalo e ela num carro de boi com seu
acompanhamento. O moço ia muito triste. Chegando à casa do pai, todos se puseram a
caçoar da sapa, que não dava o cavaco. Na ocasião do jantar, ela, em vez de comer,
escondia a comida no seio, e as cunhadas especialmente se puseram a ridicularizá-la como
porca. De repente a sapa tirou do seio uma porção de flores em que se tinham
transformado os bocados de comida e se desencantou numa princesa muito formosa, que serviu
de admiração a todos, menos às cunhadas que morreram de paixão e inveja.
(Romero, Sílvio. Contos populares do Brasil.
Rio de Janeiro, Livraria José Olímpio Editora, 1954. Coleção Documentos Brasileiros;
Folclore brasileiro, v.3, p.156-158) |
|