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Outubro 2001
Ano III - nº 38

JOÃO MAIS MARIA
(Rio de Janeiro e Sergipe)

Ilustração de Marcos Jardim

Uma vez um homem e uma mulher que tinham tantos filhos que resolveram deitar fora um casal para se verem mais desobrigados. Num belo dia o pai disse a João e Maria que se aprontassem para irem com ele tirar mel no mato. Os dois meninos se aprontaram e seguiram com o pai, que desejava metê-los na mata e deixá-los lá ficar. Depois de muito andar, e quando já estava bem embrenhado, o pai disse aos filhos: - "Agora esperem aqui, que eu vou ali, e quando eu gritar, vocês se dirijam para o lado do grito", Depois de andar um bom pedaço, o pai gritou e retirou-se para trás, em busca de sua casa, As crianças, ouvindo o grito, se dirigiram naquela direção, mas não encontraram mais o pai, e se perderam. Chegando a noite, ali pousaram; no dia seguinte desenganados de não acharem o pai, tratou João de trepar em uma das árvores mais altas, que estavam num outeiro, a fim de ver se descobria alguma casa. De cima da árvore descobriu muito longe uma fumacinha. Para lá se dirigiram; depois de muito andar descobriram uma casa velha, e o menino se aproximou, para explorar, deixando a irmã escondida. Chegando João à casa, encontrou uma mulher velha, quase cega, que fazia bolos de milho. João fez um espetinho e furtou alguns bolos, que comeu e levou também para sua irmã. Como a velha não enxergava bem, quando sentia o movimento do menino lhe tirando os bolos, supunha que era o gato, e dizia: "Chipe, gato, minha gato, não me furte meus bolinhos!" No dia seguinte João voltou à mesma casa para tirar bolos para si e para Maria. Ouvindo a velha o rebuliço, dizia: "Chipe, gato, minha gato, não me come meus bolinhos!" João muniu-se de bolos e se retirou. No dia seguinte quis ir só, e Maria tanto insistiu que também foi. Logo que chegaram à casa tratou o menino de tirar alguns bolos dos que a velha acabava de fazer. A velha, que ouviu o rumor, disse pela terceira vez: "Chipe, gato, minha gato, não me furtes meus bolinhos!" Maria não pôde-se conter e desatou uma gargalhada. A velha ficou sarapantada e conheceu que eram os dois meninos, e então disse:

"Ah! meus netinhos, eram vocês! Venham cá, morem aqui comigo". Os dois meninos ficaram. Mas o que a velha queria era engordá-los para comê-los ao depois. De tempos a tempos a velha lhes pedia o dedo grande para ver se já estavam gordos; mas os meninos lhe davam um rabinho de lagartixa que tinham pegado. A velha achava o rabinho muito magrinho e dizia: "Ainda estão muito magrinhos!" Assim muitas vezes, até que os meninos perderam o rabicho da lagartixa e não tiveram volta senão mostrarem os próprios dedos. A velha os achando gordos, e os querendo comer, mandou-os fazer lenha para uma fogueira, para dançarem em roda. O fim da rabugenta era empurar os dois meninos dentro do tacho de água fervendo e os matar. Os meninos foram buscar lenha, e quando vinham de volta toparam com Nossa Senhora, que lhes disse: "Aquela velha é feiticeira e quer dar cabo de vós; portanto quando ela mandar fazer a fogueira, fazei-a; assim que vos mandar dançar, dizei-lhe: "Minha avozinha, vossemecê dance primeiro para nós sabermos como havemos de dançar". Quando ela estiver dançando, empurrai-a na fogueira e correi. Trepai-vos na árvore que tem perto da casa; quando der um estouro é a cabeça da velha que arrebentou. Dela têm de sair três cães ferozes, que vos hão de querer devorar; por isso tomai três pães. Quando sair o primeiro cão, chamai-o Turco, e atirai um pão; quando sair o segundo, chamai-o Leão, e atirai outro pão; quando sair o terceiro, gritai Facão, e atirai o último pão. E serão três guardas que vos acompanharão".

Assim fizeram. Pronta a fogueira, e a velha os mandando dançar, pediram para ela dançar primeiro para lhes ensinar, no que caiu a velha, e quando estava muito concha nos seus trejeitos, os dois pequenos atiraram-na na fogueira. Treparam-se depois na árvore à espera de arrebentar a cabeça da velha e saírem os três cães. Aconteceu tudo como lhes tinha ensinado Nossa Senhora, desceram da árvore e tomaram conta da casa como sua, e ficaram alguns anos com os três cães como guardas. Ao depois Maria se namorou de um homem, e tentaram os dois dar cabo de João, o que não podiam conseguir por causa dos três cachorros que nunca o desamparavam. Combinaram então em Maria pedir ao irmão que lhe deixasse um dia ficar com os três bichos por ter ela medo de ficar sozinha, quando ele ia para o serviço. João consentiu e cá os malvados taparam os ouvidos dos cachorros com cera, para quando chamados, o não ouvirem. Depois do que partiu o camarada de Maria a encontrar João para o matar, levando uma espingarda carregada. Quando o avistou disse: "Reza o ato de contrição que vais morrer". João, que se viu perdido, pediu tempo, para dar três gritos: o sujeito lhe respondeu: "Podes dar cem". Trepou-se o moço numa árvore e gritou: "Turco, Leão, Facão!..." Lá os cachorros abalaram as cabeças. Tornou o moço a gritar e os animais despedaçaram as correntes que os prendiam; tornou a gritar, e eles se apresentaram diante dele e devoraram aquele que o queria matar. Voltando para casa, disse João à sua irmã: "Visto me atraiçoares, fica-te aí só, que vou pelo mundo ganhar a minha vida", E seguiu com os seus três guardas, até que chegou a uma terra que tinha um monstro de sete cabeças, que tinha de comer uma pessoa por dia, e que se lhe tinha de levar fora da cidade para ele não se lançar sobre ela. Quando João chegou nesse ponto, topou com uma princesa em que tinha caído a sorte para ser lançada ao bicho, Perguntou-lhe o moço a causa por que estava ali. Respondeu que lhe tinha caído a sorte de ser naquele dia devorada pelo monstro de sete cabeças que ali tinha de vir, e que ele se retirasse para não ser também devorado; que o rei seu pai tinha decretado que quem matasse o bicho casaria com ela, mas que não havia ninguém que se atrevesse a isso.

O moço então disse que queria ver o tal monstro, e, como estava com sono, deitou a cabeça no colo da princesa e adormeceu. Quando foi dali a pouco apresentou-se a fera. A princesa, logo que a avistou, pós-se a chorar e caiu uma lágrima no rosto do moço, ele acordou; a princesa lhe pediu que se retirasse, mas ele não o quis, e, quando o bicho se aproximou, mandou o moço seu cachorro Turco se lançar sobre ele, Houve uma grande luta, e estando já cansado o Turco, mandou o Leão, que quase matou a fera, finalmente mandou o Facão, que acabou de a matar. João puxou por sua espada e cortou as sete pontas das línguas do monstro e seguiu, bem como a princesa, que foi para o palácio de seu pai. Passando um preto velho e aleijado por onde estava o bicho morto, cortou-lhe os sete cotocos das línguas e levou-os ao rei, dizendo que ele que tinha morto o monstro.

O rei, pensando ser verdade, mandou aprontar a princesa para casar com o negro, apesar da moça lhe dizer que não tinha sido aquele que tinha dado cabo do monstro e a livrado da morte. Chegado o dia do casamento, mandou o rei aprontar a mesa para o almoço, e quando botaram os manjares no prato para o negro, entrou o cão Turco e o arrebatou da mão do preto. Quando a princesa viu o cão ficou muito alegre, e disse que era aquele um dos que tinha morto o bicho, e que seu dono é que tinha cortado as sete pontas das línguas com a espada. Veio o segundo prato para o negro, e entrou o cão Leão e o arrebatou, e a princesa disse o mesmo ao pai. Então o rei mandou um criado seguir o cão para saber donde era, e quem era o seu senhor, e que o trouxesse a palácio. O moço, que recebeu o recado, partiu logo a ter com o rei, Quando a princesa o viu, disse logo que era aquele, que realmente puxou um lenço e mostrou as sete pontas das línguas. O rei mandou buscar quatro burros bravos e mandou amarrar neles o preto, que morreu despedaçado, e João casou com a princesa.

* * *

Contos populares do Brasil, nº XXII, p. 154-160, segunda edição. Rio de Janeiro. 1897.

É a história de Hansel e Gretel, registrada pelos irmãos Grimm, popularíssima em toda Europa, e América com muitas variantes e adaptações, Mt. 327-A na classificação de Aarne-Thompson.

Sobre João mais Maria escreveu o professor Oscar Nobiling interessante estudo de exegese, "Uma página de história da literatura popular", de raro encontro, e em tudo digna de divulgação.

Oscar Nobiling nasceu em Hamburgo, Alemanha, a 30 de março de 1865 e faleceu em Bremen a 19 de setembro de 1912. Depois de cursos em Friburgo, Berlim, Bonn e Paris, veio para o Brasil em 1889, naturalízando-se brasileiro em 1894. Fixou-se em São Paulo ensinando nos colégios, escrevendo ensaios de erudição nas revistas e artigos de crítica e comentário literário na imprensa. Voltou cinco vezes à Alemanha, doutorando-se em 1907 na Universidade de Bonn. Publicou livros didáticos sobre o ensino do inglês, alemão, e albanês. Conhecia admiravelmente o português, Cantigas de Dom João Garcia e de Guilhade, Trovador do século XIII (Erlangen, 1907), Coleção de Modinhas Brasileiras, foram livros seus, positivando as marcadas simpatias pelo folclore. Seus ensaios no Estado de São Paulo e Revista da Sociedade Científica (1907-1908) merecem ressurreição num tomo.


(Romero, Sílvio. Em Cascudo, Luís da Câmara. Antologia do folclore brasileiro)

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