Outubro
2000
Ano III - nº 26 |
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A devoção do povo paraense pela milagrosa
Virgem de Nazaré é tradicional e toca, às vezes, ao fanatismo.
Na festa anual, sempre iniciada por uma romaria- o Círio - em que tomam parte
vinte ou trinta mil pessoas de todas as classes sociais, do governador ao mais humilde
empregado, do magnata ao miserável, gastam-se milhares de contos de réis, pois a festa
da Virgem transforma-se durante quinze dias em uma extraordinária feira, não sendo o
jogo o menor de seus atrativos.
Ao lado do templo, hoje uma vasta e riquíssima basílica, existe uma enorme sala , cheia,
atopetada, desde o teto, de mil variados objetos, testemunhando graças alcançadas por
intercessão da Virgem de Nazaré.
Há anos atrás, era vigário da paróquia um distinto sacerdote, monsenhor Raimundo
Amancio de Miranda. Estando a imagem um pouco descorada, o digno vigário mandou-a
encarnar no Porto.
Logo se formou uma lenda. O povo, não vendo no altar a imagem da Virgem de sua devoção,
e sabendo tê-la o vigário enviado para a Europa, dizia em mistério:- "Sabe? O
Santo Padre mandou buscar Nossa Senhora. Ele quis ver essa santa tão pequena e que faz
tantos milagres! O vigário diz que ela não demora em voltar!
E o outro acrescentava logo:- Não vá o Santo Padre ficar com ela !
O povo é sempre desconfiado.
A devoção à Virgem de Nazaré vem de época longínqua.
Era pelo meado do ano 1700. A bela cidade que hoje se eleva, orgulhosa, de suas lindas
avenidas e praças ajardinadas, não passava de uma pequena cidade colonial, com ruas
estreitas, sem calçamento e casas à portuguesa.
Eram mata a hoje aristocrática avenida de Nazaré e a poética praça, onde se ergue o
majestoso templo da milagrosa Virgem.
Morava no caminho do Utinga, em pequena e miserável cabana, um homem de cor, de nome
Plácido.
Caçador, havia se embrenhado pela mata; e, depois de meio-dia de fadiga, acossado pelo
ardente sol do equador, buscava debalde um igarapé, um regato, uma fonte, para saciar a
sede que o devorava, quando, em espécie de nicho, formado por pedras, descobriu uma
estátua da Virgem de Nazaré, perfeita, sem nela se notar o mínimo sinal de estrago do
tempo.
O caçador, cheio de espanto, de admiração e piedade, e não mais cuidando da caçada,
tomando a estátua, dirigiu-se para a palhoça, onde a colocou no melhor lugar das suas
devoções.
À noite, a oração da família foi feita ante a imagem da Virgem encontrada na mata.
Qual não foi, porém, o espanto de todos, quando pela manhã não encontraram a imagem no
lugar.
Foi procurada em toda a cabana, em todos os cantos, no mato próximo, e sinal algum havia.
O caçador embrenhou-se novamente na mata e, no mesmo lugar da véspera, lá estava ela em
seu nicho natural de pedras.
Ele prostrou-se de joelhos e, tomando a estátua, trouxe-a outra vez para a pobre cabana.
À noite, desapareceu de novo, sendo novamente encontrada a estátua no nicho da mata.
A notícia do fato miraculoso espalhou-se pelos arredores, os vizinhos acudiram, começou
a romaria, iniciaram-se os milagres.
A fama da Virgem da mata do Utinga e da sua volta ao nicho de pedra espalhou-se
rapidamente, chegando aos ouvidos do governador de então.
Este, incrédulo, e querendo pôr em prova evidente o fato, mandou buscar a santa para o
palácio e aí fez guardá-la por guardas fiéis.
Que imenso assombro pela manhã ! A imagem havia desaparecido do palácio e os guardas
não sabiam dizer como!
E lá estava ela, a Virgem de Nazaré, em seu nicho de pedras!
Todos se convenceram de que a Virgem queria que se erguesse um templo, em sua honra, nesse
mesmo lugar.
O governador mandou construir logo uma palhoça aí onde há alguns anos se erguia a
encantadora ermida de Nazaré, a poucos metros do majestoso templo construído pela
piedade dos fiéis.
Iniciaram-se logo as romarias, as festas; o povo afluía cada vez mais, e os milagres, as
graças alcançadas por intermédio da santa, multiplicavam-se, afervorando a sua
devoção.
Até à proclamação da República existia, no palácio do governo do Pará, uma pequena
capela.
Na véspera do Círio, o povo em procissão, conduzia a imagem da Virgem para esta
capela, donde no dia seguinte saía em triunfo para a sua igreja, comemorando assim
anualmente o fato de que a lenda nos dá notícia.
O primeiro governador do Estado Dr. Justo Chermont, logo que foi proclamada a República,
acabou com a capela, mas o povo não acabou com a tradição.
Hoje a imagem da Virgem ainda é conduzida em procissão, na véspera do Círio,
para a catedral, que fica a pequena distância do palácio do Governo, para ser no dia
seguinte conduzida, por vinte e trinta mil pessoas, para a sua basílica erguida na
outrora mata do Utinga, hoje Praça de Nazaré.
(OLIVEIRA, Hosannah de. Lendas e fatos de minha terra) |
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