Nascido de um escorregão em hora imprópria da mãe dona Nicota e batizado por engano do padre surdo com o nome de Cornélio, ao invés de Rogério, esse paulista de Tietê tem em sua própria história muito da vida rústica da "civilização cabocla". Civilização que, ao retratar em inúmeras outras comunidade pelo Brasil a fora, tornou-o conhecido e reverenciado nas décadas de 1920 e 1930. Mistura de poeta, escritor, contador de casos, conferencista e humorista, Cornélio Pires foi uma espécie de showman da cultura caipira. Para o pesquisador e escritor Macedo Dantas, que lhe dedica uma obra a vasculhar minuciosa e bibliograficamente a existência, "ele é o pai do folclore paulista, notável observador da linguagem , dos costumes, da paisagem humana e física do mato". Tendo convivido na infância com os escritos e as apresentações de Cornélio, no sul de Minas Gerais, onde morou, o historiador Antônio Cândido, ao prefaciar o livro de Dantas, sintetiza: "Meio escritor, meio ator, meio animador; generoso, combativo, empreendedor, simpático a sua maior obra foi a ação nos palcos nas palestras na literatura falada que perde bastante quando é lida. Como os oradores, como certo tipo de poetas, como os repentistas e os velhos glosadores de mote, a dele foi uma literatura de ação e comunhão direta, eletrizante, com o público". Os caipiras deste mato A característica mais importante a se recuperar no universo caipira, como enfatiza o professor e editorialista do jornal O Estado de São Paulo, Hélio Damante, é a forma de fala que tem o poder de captar o espírito do caboclo. Transformar em representação gráfica esses fonemas, possibilitando fidelidade aquela realidade, era algo que não havia sido explorado até Cornélio Pires". Essa dificuldade técnica era ainda agravada no caso de Cornélio por seus primeiros escritos terem surgido quando a moda literária era a erudição gramatical. Desprovido de preparação intelectual, pois nunca se dedicara aos estudos embora dispusesse de condições financeiras para tal. Cornélio vivia, na capital, no meio jornalístico e buscava aceitação de sua roda social , dividindo entre cultivar as suas raízes caipiras ou bancar o intelectual que jamais seria. Essa contradição se refletirá em toda a sua obra, repleta de altos e baixos no que diz respeito à aceitação crítica já que como conta Dantas: "Há um Cornélio dialetal, folclórico, costumista, desenhista notável de coisas sertanejas psicológico sutil da alma cabocla, cheio de ternura, pitoresco e simpático para com a gente do mato. Há o Cornélio metido a literato de tom acadêmico ignorante da literatura universal e de língua culta, da música dos movimentos nacionais e mundiais, das leis e da ficção e da estilística. O primeiro merece respeito, o segundo já estaria fora da literatura se não fosse o outro". O momento certo para impulsionar Cornélio a publicar seus primeiros escritos se dará em 1910, quando se revaloriza a vida sertaneja principalmente em decorrência do sucesso de Euclides da Cunha com o livro Os Sertões. Nessa época ele lança sua primeira coletânea de poesias, a mais conhecida até hoje Musa Caipira, que consagra o soneto Ideal caboclo: Ai, seu moço, eu só quiria O sucesso conquistado serviu de estímulo, fazendo com que passasse a dedicar maior empenho à divulgação desse universo que conhecia tão bem, já que vivera boa parte de sua juventude entre os matutos. Mas isso não fez com que ele abandonasse de vez suas pretensões literárias, tanto que anos mais tardes em 1921, persiste nesse caminho e, ao lançar uma coletânea de versos, é devidamente bombardeado pelo escritor e crítico Tristão de Athayde: "Procure despojar-se o senhor Cornélio de toda essa escória de falsa literatice, cultive cada vez mais esse delicioso impressionismo regionalista em que já é mestre, acentue o sentimento interior de sua poesia um pouco descritiva demais e será como Catulo (Catulo da Paixão Cearense) ainda que sem sua prodigiosa riqueza de inspiração e emoção, um poeta à parte, o nosso poeta caipira." A falta de método, entretanto, será uma tônica inseparável de Cornélio em todas as sua ações, a começar por seu curriculum que se estende do poeta e contista a conferencista e humorista; de jornalista e editor, a professor de educação física e empresário; de cineasta a realizador de gravações em disco de músicas sertanejas. Quanto a esse seu perfil, Macedo Dantas pondera que "é preferível ele ter sido como foi, com todos os defeitos apontados, com sua indiferença pelo estudo, mas com essa criatividade notável, com esse poder de observação raro. Preferível ter sido um ignorante criativo, a um medalhão impotente." Graças a esses traços de sua personalidade, Cornélio se transformou num contador de "causos" que lotava as salas de espetáculos por onde se apresentava. Sempre entrando em cena de fraque ou casaca, ele divulgou intensamente a figura do caipira, incentivando a fixação da imagem do matuto irônico e debochado, contrastando com a figura frágil do caboclo ingênuo. Uma de suas anedotas, registrada em livro, conta que "um granfino, a passeio pelo interior, alugou um cavalo e saiu percorrendo os arredores da cidade, indo parar na casa do caipira. Bem acolhido, entrou e começou a examinar a sala. Ao notar que na parede havia numerosas fotografias, perguntou ao dono da casa: -De quem é esse retrato? Finalmente, vendo a fotografia de um burro bem escanelado com sete palmos de altura, arreio prateado, rédea bambeada, peitoral enfeitado, perguntou: - Esse também é da família? Com toda essa flexibilidade e dinâmica Cornélio merece no mínimo ser lembrado como um grande ativista cultural de seu tempo. E é em defesa dessa memória que alguns estudiosos e folcloristas que se definem cornelianos, estão procurando através de delicados trabalhos de recuperação bibliográfica preservar a sua imagem. No caso da sua discografia , apesar de se especular em torno de 108 discos gravados, até hoje só se consegui recuperar 48 gravações. Num país onde inexiste o hábito de se arquivarem informações para o futuro, muitos dos discos gravados por ele deve ter virado brinquedo na mão de crianças. Em relação aos filmes realizados, há notícias de quatro, (Brasil pitoresco, Vamos passear, Sertão em festa), teve grande êxito, como registram informações veiculadas na época, porém localizar qualquer um deles é tarefa para super-herói, pois ninguém dispõe de cópias. A obra escrita, por sua vez, além de ser uma das responsáveis pelo desaparecimento do autor do conhecimento público é literalmente um caso jurídico. Boêmio incorregível, Cornélio sofreu a vida toda de grandes e graves problemas financeiros. Numa de sua eternas crises de falta de fundos vendeu os direitos autorais de seus livros. "No tempo de dante, aqui prás berada do riu era tudo mataria virge. Anta aqui era cardume. Era ciso (...) Pegô o burro véio em vez da besta? Nhor não. Muito pó. Peguei ua anta... tava amuntada numa anta mantiúda..." Macedo dantas relata que "nenhum dos proprietários das obras de Cornélio se interessou em editá-las ou ceder os respectivos direitos". E, mais adiante Dantas considera ainda que "não é fácil, por vários motivos, lançar com êxito, qualquer obra de Cornélio, hoje esquecido do grande público e das novas gerações". Com essa perspectiva a reedição de Cornélio é tarefa para orgãos públicos pois sem verba oficial dificilmente seus trabalhos voltarão às prateleiras das livrarias. Atualmente qualquer exposição sobre Cornélio é realizada graças à concessão de colecionadores já que o que restou de Cornélio são os estudos sobre seus trabalhos feitos por folcloristas e amigos. Dentre os que mereciam ser reeditados na opinião dos conhecedores da obra do poeta caipira estão as famosas Aventuras de Joaquim Bentinho (O queima-campo). Quando foi lançado em 1924, Joaquim Bentinho tornou-se personagem famoso tendo até um rival, o Jeca Tatu, de Monteiro Lobato. (Quando o caipira piava à vontade...) - Ói a cartola dele Em certa ocasião, referindo-se a Cornélio Pires Monteiro Lobato disse que "o caboclo do Cornélio é uma bonita estilização sentimental, poética ultra-romântica fulgurante de piadas e rendosa. O Cornélio vive e passa bem, ganha dinheiro gordo com sua exibições que faz do seu caboclo. Dá caboclo em conferência a cinco mil réis a cadeira e ao público mija de tanto rir". Essa declaração pouco amistosa de Lobato é atribuida pelos biógrafos de Lobato a um momento de ciumeira entre dois concorrentes, já que os personagens que ambos criaram disputavam o mesmo público. Mas aí, então é inevitável a pergunta porque Lobato ficou e Cornélio não? Hélio Damante arrisca uma opinião ao salientar que "Lobato teve um editor e soube investir na sua própria obra, no seu futuro. Já Cornélio, além de não ter se organizado enquanto autor, tem suas obras fora do alcance do leitor desde 1950". Damante acredita que mesmo Lobato está com seu espaço se restringindo apesar de muito conhecido e cultuado no meio educacional. "A criança - diz ele - aprecia mais o superman do que o visconde de Sabugosa já que o primeiro está mais próximo do mundo em que ele vive. Isso é inevitável em relação às crianças referentes ao universo caboclo embora alguns traços dessa cultura tenham se tornado definitivos já que foram incorporados ao cotidiano . Um exemplo? É muito comum ouvir repórteres de conceituados canais de televisão carregarem da expressão às direitas, muito familiar ao matuto do interior de São Paulo". Para Damante, é inegável o impacto da cultura de massa que, na sua opinião já atingiu em cheio a música sertaneja, "hoje descaracterizada em relação a sua raiz. A urbanização é um dado contra o qual nada se pode fazer. Além do mais novas realidades surgem realimentado velhos costumes e atribuindo-lhes outra dinâmica". A miscigenação nordestina, tão presente no interior paulista mistura seus hábitos e costumes aos da terra, promovendo uma nova mobilidade naquele universo produzindo outros traços culturais. Partindo dessa análise, Damante lembra ainda que: "se Cornélio Pires fosse vivo, na certa transportaria essas mudanças para seus relatos, como fez na sua época com as vivências dos italianos, habitantes do interior e muitas vezes personagens de seus livros". (DEFESA DA CULTURA NACIONAL, nº 3, 1984) Cornélio Pires nasceu no dia 13 de julho
de 1884, na cidade paulista de Tietê, e morreu de câncer na laringe no dia 17 de
novembro de 1958, na capital de São Paulo. Muito cedo, com 14, 15 anos, Cornélio deixou
a tranqüilidade do lar e partiu para ganhar a vida, primeiro como biscateiro e aprendiz
de tipógrafo, depois como jornalista, poeta, contista e folclorista. Publicou 23 livros,
o primeiro em 1910. Fora isso, criou uma companhia de teatro e realizou quatro filmes
sobre o dia-a-dia da gente caipira, que tão bem entendia. Em 1929, através do selo
Columbia, representado no Brasil de então por Byington & Company depois
Continental e agora Warner Continental conseguiu realizar o seu grande sonho, que
era gravar em disco as diversas manifestações culturais e artísticas do povo. |
Entrevista Faz muitos dias que ando à procura de Cornélio Pires, a ver se dele obtendo uma entrevista, quando, afinal, o acaso vem em meu auxílio e encontro-o a porta de um café, em plena rua Libero Badaró. Gardalhurdo, o chapeirão enorme à cabeça, o cigarrão de palha espetado entre os dentes, está muito pacatamente conversando com dois amigos. Não perco a oportunidade. Agarro-o pelo braço e, apesar de todas as suas banhas, acho forças para rebocá-lo até uma das mesas. Obrigo-o a sentar-se antes mesmo que ele se refaça de surpresa, intimo-o: E - Você vai me dar uma entrevista. Não é preciso. Quero é a entrevista. O garçom aproxima-se. Pedimos café. E enquanto saboreamos a rubiácea, formulo a primeira interrogação: Quando você começou? Quando começou a escrever? Tira um pedaço de fumo do bolso, escolhe uma palha e vai preparar outro cigarro, quando surpreende uma certa incredulidade nos meus olhos. - Você está duvidando, hein? Pois embora isso pareça uma boa mentira, a verdade é que descendo daqueles dois caciques. Já estudei muito bem o caso e cheguei a essa conclusão. Ainda lhe mostrarei a minha árvore genealógica que, aliás, é uma verdadeira complicação internacional. Enrola o cigarro, acende-o, tira uma baforada e continua: - Uma complicação tremenda, que eu mesmo ainda não pude entender. Engraçado é que o sangue português que tenho nas veias, pois descendo de Antônio Rodrigues e João Ramalho que, dizem por aí, naufragaram em 1502 e deram à costa de São Vicente sempre me atraiu, também , para os viras e os fados. Por seu turno, o galho castelhano me deixou inclinação especial para os trocadilhos. Do holandês, me ficou uma tendência para o fumo, a cerveja e a genebra... Mas, você não bebe... Ainda não disse quando começou. A obra-prima? "Por que será, querida minha Alice, Faz uma pausa e acrescenta: - Fiquei acordado, até madrugada, à espera de que pusessem o jornal por baixo da porta. Ao topar com o soneto na primeira página, senti alguma coisa que nem pode ser descrita. Mas, pouco durou a minha satisfação. Logo à noite, encontrei, dentro de um envelope que atiraram na sala de visita, um soneto que começava assim: "Por que será, Cornélio, amigo meu, E em mais uma quadra e dois tercetos, um pedagogo despeitado alinhou coisas que me amargurassem as horas de alguns dias Mas, você continuou. O resultado? O seu primeiro livro, como nasceu? No banheiro?! "Ai, seu moço, eu só quiria, Mas uma bafaroada do cigarrão de palha, e Cornélio prossegue: - Mostrei o soneto ao Simões Pinto que, então, dirigia a Farpa, uma revista do tipo da Kosmos. Ele pediu-me os versos, e, dias depois, publicou em página especial. Foi então que, num encontro casual com meu primo, o boníssimo e grande Amadeu Amaral, dele recebi, com um abraço, felicitações que muito me lisonjearam: "Muito bem! Você descobriu um filão a explorar e que esta inteiramente abandonado. Continue: escreva um livro..." Veio, então, o livro? Mesmo assim? Ele, então?... E os outros? Sílvio Romero... Estaca, fica meio indeciso. É ainda hesitante que continua: - Tenho uma confissão a fazer... não sei se devo dizer... Que confissão é essa? Como é isso? Você respondeu errado... Já foi tipógrafo... Professor de ginástica?! Como você se arranjou? E você ensinou? Que mais você foi? Você é inventor? Que é que você inventou? Você é o tipo do sujeito engraçado!... (SILVEIRA PEIXOTO, José Benedito. Falam os Escritores) |
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