Ano V - novembro  2002 - nº 51

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 51
FESTANÇA
Os enterros à noite, por Pessoa de Morais.

As impressões dos viajantes Louis e Elizabeth Agassiz sobre as danças vistas no norte do Brasil em meados do século XIX.

O dia de finados, na região do Cairari, próximo ao rio Tambaí, no norte do Brasil.

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


DANÇAS

Louis e Elizabeth Agassiz


Na noite deste mesmo dia, consegui, não sem custo, decidir Laudigari a tocar alguma coisa para nós ouvirmos, numa espécie de viola rústica, instrumento favorito das gentes do interior e orquestra comum de suas festas. Uma vez acertada a música, pedimos a Esperança e Miquelina que nos mostrassem algumas de suas danças. Elas se negaram por muito tempo, mas enfim, com um embaraço devido sem dúvida a esse primeiro despertar da dignidade que o contato da civilização provoca, cada uma delas deu a mão a um de nossos canoeiros e a dança começou. Era de um caráter todo especial e tão lânguida que apenas merecia o nome de dança. O corpo não faz quase movimento algum, os braços levantados e dobrados ficam duros e imóveis, os dedos estalam como castanholas acompanhando a música, e dir-se-iam estátuas deslizando de lugar em lugar mais do que dançadores. As mulheres é que produzem principalmente essa impressão, porque se movem menos ainda do que os homens. Um dos canoeiros era um boliviano, homem de formas elegantes e de fisionomia original, cujas vestes bizarras aumentavam ainda a singularidade dos seus movimentos. Os índios da Bolívia vestem uma espécie de dalmática; pelo menos não sei de outra expressão que possa dar uma idéia mais exata dessa vestimenta comprida e dura de algodão de malhas;. Ela se compõe de duas peças unidas em cima dos ombros, porém deixando uma abertura para passar a cabeça, e que caem uma atrás outra na frente; são apertadas na cintura e abertas dos lados de modo a deixar toda liberdade aos braços e às pernas. As pregas rígidas dessa pesada capa emprestavam ao nosso boliviano o ar de uma figura de pedra se movendo com lentidão.

Quando terminou, chegou a minha vez de ser rogada por Esperança e seus amigos para mostrar "a dança do meu país". Concordei de bom grado e tomando o braço do nosso amigo R. fiz algumas voltas de valsa, com grande alegria deles. Pareceu-me que estava tendo um estranho sonho; conosco rodavam o fogo aceso e os seus trêmulos reflexos sobre a palha do alpendre, e mais o pitoresco interior iluminado em cheio, e as figuras maravilhadas das índias. Rodeando-nos de perto, elas exclamavam de tempos em tempos para nos animar:

— "Muito bonito, minha branca! muito bonito!"

Os divertimentos se prolongaram até muito tarde, porque muito tempo depois de estar eu deitada em minha rede, ainda ouvia num meio-sono os sons plangentes do violão, misturados às notas melancólicas de uma espécie de noitibó que canta no mato durante a noite inteira.


(Agassiz, Jean Louis Rodolph; Agassiz, Elizabeth Cary. Viagem ao Brasil 1865-1866. Brasília, Senado federal, 2000. O Brasil visto por estrangeiros, p.187-188)

Jangada Brasil © 1998-2002