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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
| Louis e Elizabeth Agassiz |
Na noite deste mesmo dia, consegui, não sem custo, decidir Laudigari a tocar alguma coisa
para nós ouvirmos, numa espécie de viola rústica, instrumento favorito das gentes do
interior e orquestra comum de suas festas. Uma vez acertada a música, pedimos a
Esperança e Miquelina que nos mostrassem algumas de suas danças. Elas se negaram por
muito tempo, mas enfim, com um embaraço devido sem dúvida a esse primeiro despertar da
dignidade que o contato da civilização provoca, cada uma delas deu a mão a um de nossos
canoeiros e a dança começou. Era de um caráter todo especial e tão lânguida que
apenas merecia o nome de dança. O corpo não faz quase movimento algum, os braços
levantados e dobrados ficam duros e imóveis, os dedos estalam como castanholas
acompanhando a música, e dir-se-iam estátuas deslizando de lugar em lugar mais do que
dançadores. As mulheres é que produzem principalmente essa impressão, porque se
movem menos ainda do que os homens. Um dos canoeiros era um boliviano, homem de formas
elegantes e de fisionomia original, cujas vestes bizarras aumentavam ainda a singularidade
dos seus movimentos. Os índios da Bolívia vestem uma espécie de dalmática; pelo menos
não sei de outra expressão que possa dar uma idéia mais exata dessa vestimenta comprida
e dura de algodão de malhas;. Ela se compõe de duas peças unidas em cima dos ombros,
porém deixando uma abertura para passar a cabeça, e que caem uma atrás outra na frente;
são apertadas na cintura e abertas dos lados de modo a deixar toda liberdade aos braços
e às pernas. As pregas rígidas dessa pesada capa emprestavam ao nosso boliviano o ar de
uma figura de pedra se movendo com lentidão.
Quando terminou, chegou a minha vez de ser rogada por Esperança e seus amigos para
mostrar "a dança do meu país". Concordei de bom grado e tomando o braço do
nosso amigo R. fiz algumas voltas de valsa, com grande alegria deles. Pareceu-me que
estava tendo um estranho sonho; conosco rodavam o fogo aceso e os seus trêmulos reflexos
sobre a palha do alpendre, e mais o pitoresco interior iluminado em cheio, e as figuras
maravilhadas das índias. Rodeando-nos de perto, elas exclamavam de tempos em tempos para
nos animar:
"Muito bonito, minha branca! muito bonito!"
Os divertimentos se prolongaram até muito tarde, porque muito tempo depois de estar eu
deitada em minha rede, ainda ouvia num meio-sono os sons plangentes do violão, misturados
às notas melancólicas de uma espécie de noitibó que canta no mato durante a noite
inteira.
(Agassiz, Jean Louis Rodolph; Agassiz, Elizabeth Cary. Viagem
ao Brasil 1865-1866. Brasília, Senado federal, 2000. O Brasil visto por
estrangeiros, p.187-188)
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