Jangada Brasil – novembro 2000 – nº 27 – Festança – A morte e os ciganos no Brasil

A MORTE E OS CIGANOS NO BRASIL

Alexandre José de Melo Morais Filho


O cadáver, antes de ser a partilha do anatomista que disseca o músculo para estudar-lhe as formas, as inserções e as relações, foi em todos os tempos o simulacro de uma parada súbita na vida, de uma entidade definitiva seguindo diverso rumo.

As pompas funerárias entre os povos infantis revelaram que a idéia da morte, aliada à idéia fisiológico e dos sonhos, é a base da teoria da imortalidade da vida, depois da cessação absoluta das funções nutritivas.

Desde os ritos grosseiros da Polinésia e dos negros do Katunga e Daomé até as pompas lustrais das raças brancas, a crença na continuação da existência material além-túmulo é o êxodo da alma imortal, incorruptível, etérea, apercebida pela consciência humana depois de uma evolução difícil, lenta, tardia…

Daí vêm as provisões de víveres e armas de combate de que os povos selvagens cercam os despojos dos seus; as mulheres, os filhos, os parentes enterrados vivos com o defunto; as hecatombes horríveis de escravos e prisioneiros de guerra; o sacrifício de vítimas isoladas para levarem notícias ao morto na viagem da eternidade.

O mundo invisível, fabricado pelas imaginações primitivas segundo os moldes do mundo visível, de conformidade com a natureza e as condições gerais e especiais do meio, forneceu os elementos figurativos dos deveres e cuidados para com os que morrem.

Algumas tribos abandonam às aves e às feras os cadáveres expostos sobre as árvores; se outras os lançam aos rios ou os cremam, a piedade humana, as preocupações de estados póstumos, não impedem que todas as raças rendam ao finado o tributo à morte, e os cuidados benevolentes àquela cuja existência foi apenas interrompida.

Os ciganos, como os egípcios, reúnem nos destroços de seus ritos a mais alta concepção da individualidade persistente e da individualidade futura; para ambos a alma é material, quer dizer – conversa a semelhança e os atributos corpóreos.

Procurando o gênesis dessa compreensão, o encontraremos nas ilusões, nas alucinações, nos sonhos e nos sonos patológicos.

Não obstante os Egípcios e os nossos antigos calons consagrarem no seu ritual funerário a lavagem do corpo [1]; aqueles rodearem as múmias de divindades míticas, a uniformidade do pensar só destoa entre estes, quando o cristianismo lhes empresta as ficções perfumadas do incenso de seu misticismo admirável, ainda que aviventadas pelas crenças anteriormente pagãs.

Faltando-nos o critério preciso para um estudo comparativo da criação da alma entre eles, quase esquecidos de suas tradições e da teologia de suas hordas, supomos entretanto evidente a influência egípcia no seu ideal.

Exceção feita dos velórios (janhar, janhar-nípen [2]), comuns a muitas populações, mesmo da Europa, e que se encontram nos costumes dos índios desta parte da América, são variadas as relações rituais dos ciganos brasileiros com os fragmentos das fórmulas sagradas que a egiptologia tem podido decifrar nos papiros e inscrições do Egito.

Descrevamos o que se dava, no começo deste século, na Cadeia Velha e Valongo, em uma casa dessa gente, por ocasião da morte de um deles; assistamos em espírito a essas cenas cujos atores, numa simplicidade remota, tinham como espectadores todo o seu passado, que se aninhava no mistério, todas as gerações que se foram, das quais eles aí eram os representantes no momento supremo da dor.

Do caráter desse drama de superstições, desse conjunto de situações extraordinárias, dessas manifestações pungitivas e lúgubres como o estouro da vaga nos mares desertos – restabeleçamos o pensamento capital, que quebra-se contra a rigidez cadavérica e ecoa na necrópole de um povo que foi grande como as suas instituições e os seus monumentos.

Ultrapassávamos as divisas coloniais…

Quando um cigano adoecia e os fenômenos mórbidos denunciavam gravidade, as pessoas da família o entregavam a um profissional, que de ordinário era o mais conhecido por sua dedicação e desinteresse.

Medicado o enfermo, a confiança na ciência consolidava-se com as melhoras deste, e retirava-se logo que os sintomas, agravando-se, prognosticavam desenlace fatal.

Neste caso, chamavam uma curandeira – velha calin a quem davam o nome de tia – para benzer e rezar suas rezas específicas, na intenção de restabelecerem o doente, recorrendo os parentes aos vaticínios se os esforços da mitologia médica eram improfícuos e as benzeduras inúteis.

Quando os fenômenos precursores haviam anunciado o período terminal da moléstia e as bulhas da agonia faziam-se ouvir, a casa ia pouco a pouco enchendo-se de parentes, ávidos e curiosos, circulando naquela atmosfera frases importunas, que às vezes perturbavam o estado todo particular do agonizante.

De pontos distantes afluíam mais e mais, que vinham compartilhar dos pesares do lar que a morte principiava de obscurecer com a sombra esgarrada de sua asas.

Acercados do moribundo, que revezava o olhar prestes a atufar-se nas trevas eternas, mão amiga enxugava-lhe o suor viscoso, apagava-lhe a derradeira lágrima, contraía-lhe nos dedos sem tato o círio aceso, e o sussurro abria margem ao lamento, a aflição prorrompia no soluço e o desespero retumbava nas apóstrofes, nos gritos afônicos do nervosismo convulsionário…

Atiravam-se sobre o morto, erguiam as mãos súplicas aos céus, invocavam os santos de sua devoção, e depois apelavam para a resignação, que é um bem , e para o fatalismo, que é um dogma.

Lavado o corpo, untado com óleos e ervas aromáticas, com sua vestimenta magnífica, o transportavam para um esquife, fornecido por irmandade religiosa, e o colocavam sobre um estrado coberto de veludo preto, agaloado de ouro, guarnecido de oito tocheiros.

Seguiam-se as narrativas fúnebres de suas virtudes, de seus exemplos de caridade e abnegação; lembravam os trajes de que usava, as comidas que mais saboreava, as quadras que dia nos bródios, finalmente a sua vida inteira, na sociedade e na família.

janhavam:

– Oh! Como era bom, quando estava em casa, ponteando à viola…

Choro e gemidos entrecortados respondiam ao lamento.

Um parente: – Quando chegava da rua, cansada, que se deitava naquela esteira.

Um filho: – Vejam o lenço que tinha na mão, quando nos deixou. Ai! ai! ai…

A viúva: – Olhem o chapeuzinho dele; não o botará mais na cabeça. Ai! ai! ai… Que sorte, meu Deus!

– Minha tia, – diz um dos circunstantes, tenha paciência, é este o caminho da verdade.

A viúva: – Sim, meu sobrinho, sim. Ai! ai! ai! Venha ver como está; parece que está dormindo. Ai! ai! ai! Que sorte! Que sorte é a minha!

Os parentes, vendo o cadáver: – Ah! ah!! como encolheu tanto!

A viúva: – Sim, sim, é para crescer no céu. Ai! ai! ai!

Um irmão: – Console-se, minha irmã; resigne-se, que a resignação é uma prece que cai nos seios de Deus.

A viúva: – Sim, tenho muita resignação; mas a dor é maior do que a vontade que temos.

Nesse ínterim chega um parente, que vem transmitir os pêsames à viúva:

– Então, prima, morreu o primo!

A viúva: – Oh! não, primo; agora é que ele começa a viver.

O primo: – Sm, minha prima, dorme-se melhor para acordar no céu.

A viúva: – Os sapatos que calçava todas as manhãs, depois de os ter engraxado…Ai! ai! ai! Tudo se foi com ele; até a luz minha vida com a sua se apagou. Que sorte! Que sorte, meu Deus! Antes as facas me houvessem atravessado, Duvél [3]! do que ele ter morrido.

A viúva cortava os cabelos, deitava metade sobre a região precordial do finado e envolvia o resto no vestido com o que estava ao expirar o marido. Proferindo palavras cabalísticas, atirava tudo numa fogueira lustral, preparada para este fim.

Antes de sair o enterro, empilhavam junto ao cadafalso as roupas do morto, os pratos em que comia, a viola, as jóias, etc., e janhavam, suspendendo-os sucessivamente…

Até o levarem à tumba, a viúva andava de rastos sob o estrado, rezando por aquele que lhe fora o amor, o amparo e a vida.

O saimento dirigia-se à igreja…

O esquife, carregado pelos terceiros, ia coberto de flores borrifado por lágrimas.

A infeliz, de pés descalços, vestida de eterno luto, os filhos e os parentes acompanhavam-no…

E as encomendações do padre e os cantos religiosos dos ciganos remontavam-se do recinto da catacumbas, como uma grande águia que transcende o espaço.

Atualmente, que o tempo devorou-lhe quase as tradições, o cadáver perdeu os seus bálsamos, as águas purificadoras exalaram todos os aromas, o estrado mortuário transformou-se em essa ou mesa comum, de antagonismo com o acessório legendário à celebração do rito.

O que vemos hoje? O que subsiste ainda nos costumes deste pobres, que por aí vivem no desalento e no infortúnio?

Observemos diretamente.

Representa-se o mesmo drama, que tem por protagonista a morte, por interlocutores uma família em pranto, servindo de coro a essa representação tétrica os ais e as lamentações do parentes do finado, – convivas da desgraça no banquete da lágrimas!

Penetremos a câmara-ardente. É a sala de uma casa de ciganos na Cidade Nova. As portas escancaradas da alcova mostram aos assistentes um oratório feito de fofos de paninhos amarelo, azul e encarnado, com flores da mesma fazenda e cores, adornado de estrelinhas douradas, tudo isso disposto por uma estética especial, em volta de uma estampa da Virgem, preparada na parede.

Por baixo há uma cômoda antiga; sobre ela um copo d’água benta, alguns galhos de alecrim e dois castiçais de vidro com velas acessas.

A alfazema e o benjoim crepitam no defumador

Um menino atiça o fogo, soprando as brasas, e a fumaça condensa-se em novelos, dissipando-se no teto.

No centro da sala, com poucos móveis de jacarandá e já deteriorados, uma mesa que serve de essa ao cadáver amortalhado em seu caixão.

– É a penitência do corpo na penitência da alma!

Os convidados, que são todos parentes, chegam…

Soluços… imprecações… ais…

A família, num pranto insofrido, lamenta, erguendo no ar as roupas do finado e seus objetos prediletos.

– É a miséria no supremo da agonia! Aquele semblante fatigado das vigílias à cabeceira do enfermo tem alguma coisa de majestoso e severo; aqueles braços em semi-círculo sobre os estragos da morte, disséreis uma visão dos túmulos; por aquela boca que se abre passa a voz das sílabas, rompendo das faixas do jazigo.

janham…

janhar dura até o amanhecer, sendo apenas interrompido pela entrada de alguma pessoa, o que dá lugar à viúva – não a todas – a fazer considerações a respeito dos sofrimentos do marido durante a moléstia e durante a hora extrema.

Então todos lamentam, num recitativo em tom menor, alteando e abaixando a voz, a série das alternativas patológicas, até o alento final, o derradeiro suspiro, que nas crenças calins é uma escada mística por onde alma sobe e vai viver de novo em companhia dos conhecidos e parentes, que a esperam no céu.

No correr da melopéia, são escritas e depostas as mensagens, em verso, que o defunto tem de levar para a outra vida.

No meio do alarido, do tumulto, do choro, de vez em quando gritos histéricos, agudos e prolongados, desatam-se dos lábios de alguma mulher que se debate no corredor, e que as ciganas dão o nome de certas ânsias.

Depois do enterro a casa fica deserta; a família muda-se para a de um parente, que a acolhe sob seu teto pobre, mas hospitaleiro.

Na habitação onde se acha a viúva não mais se fazem ouvir os tinidos da viola, porém os lamentos da infortunada, que passara da escuridão da pobreza para a escuridão ainda maior da miséria.

Com exceções, as ciganas conservam o luto, a menos que não seja contraindo segundas núpcias, o que dificilmente acontece.

É um quarto de estalagem à rua do Alcântara.

Os ciganos reúnem-se; a tristeza de um determina o contágio. Dentro em pouco a viola que harpeja é a intérprete da melancolia que lhes envolve o coração…

Por aquelas faces trigueiras deslizam grossos fios de lágrimas, como o orvalho sobre as folhas crestadas do verão.

As mulheres, sentadas em seus bancos de pinho, erguem o olhar numa imobilidade estática. Os meninos, acocorados no chão, atentam pasmados; os menestréis afinam suas violas, e à luz da candeia, que esclarece fantasticamente o grupo, as ilusões mortas desfilam, com as pálpebras pesadas de um sono de chumbo e com a fronte coroada das rosas pálidas do sepulcro.

E eles, absortos, a cada sombra que avulta perplexa, contam uma mágoa, modulam uma canção fúnebre.

Os dedos do tocador de viola arrancam sons nunca ouvidos; pelos lábios dos improvisadores inspirados gemem, nos contornos límpidos da forma, todas as nostalgias de uma raça, todas as desesperanças de um povo!

– Ó morte, porque roubaste
A minha Felícia bela!
Meu prazer, minha ventura,
Tudo levaste com ela!

– Fui à campa descobrir,
Tua imagem procurei;
A fé que tu me juraste,
Eu te encontrando, encontrei!

– Uma vida atormentada
Não é vida – é crueldade!
Rasguem-se os panos da cena,
A morte é felicidade!

Como é sublime a consolação que desabrocha das lágrimas!…

Como é vibrante e dolorida a alma profética do cigano!…

Notas:

[1]. Não apenas egípcios e ciganos lavavam os defuntos antes da cerimônia final. Os Romanos e Gregos empregavam requintes nesse sentido e com finalidade idêntica.

[2]. Choro, lamentação, velório.

[3]. Deus.

(MORAIS FILHO, Alexandre José de Melo. Ciganos no Brasil e Cancioneiro dos ciganos. Belo Horizonte / São Paulo, Editora Itatiaia / Editora da Universidade de São Paulo, 1981. Reconquista do Brasil, 59)

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