O LOBISOMEMÉ um homem ou mulher que se
transforma em um porco comum de grande tamanho. É encantado e é ouvido como se um animal
estivesse comendo ou roendo ossos no terreiro. Aparece sempre nos caminhos usados pelos
habitantes da região, e quando se encontra com eles, ataca-os. As pessoas fogem ou brigam
com ele, defendendo-se com as armas que possuírem no momento. Quando a briga ocorre, no
dia seguinte ao fato, tem-se conhecimento de que uma pessoa foi batida, ferida ou queimada
ou cortada e esta justifica o acontecimento, como um acidente qualquer ocorrido dias
antes.
Não ataca apenas pessoas, mas também animais domésticos, como cães, cavalos, porcos, e
para afastá-lo não são conhecidas rezas ou fórmulas mágicas. É apenas afastado com
armas de fogo ou corte ou ainda à pauladas. Não se conhecem as razões pelas quais uma
pessoa vira lobisomem, nem por que as mordidas por ele não sofrem o mesmo encantamento.
(Figueiredo, Napoleão; Silva, Anaiza Vergolino e. Festas
de santos e encantados. Belém, Academia Paraense de Letras, 1972)
* * *
Os traços com que a imaginação retratou o lobisomem
são duplos, porque também, essa criatura infeliz, conforme o nome mostra, é dual. Como
homem é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado.
A sua sorte é um fado, talvez a remissão de um pecado; mas esta adição vê-se quanto
é estranha ao mito na sua pouca generalização. Por via de regra, o fado é a
moral - é uma sorte apenas. Nasce-se lobisomem: em lugares são os filhos do incesto,
mas, em geral, a predestinação não vem senão de um caso fortuito, e liga-se com o
número que a astrologia acádia ou caldaica tornou fatídico - o número 7.
O lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Aos treze anos,
numa terça ou quinta-feira, sai de noite, e topando com um lugar onde um jumento se
espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite
às duas horas, o lobisomem tem de fazer a sua corrida, visitando sete adros (cemitérios)
de igreja, sete vilas acarteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete
encruzilhadas, até regressar ao mesmo espojadouro, onde readquire a forma humana. Sai
também ao escurecer, atravessando na carreira as aldeias onde os lavradores recolhidos
não adormeceram ainda. Apaga todas as luzes, passa como uma flecha, e as matilhas de
cães, ladrando, perseguem-no até longe das casas... Quem ferir o lobisomem, quebra-lhe o
fado; mas que se não suje no sangue, de outro modo herdará a triste sorte...
Para desencantá-lo basta o menor ferimento que cause sangue. Ou bala que se unte com cera
de vela que ardeu em três missas de domingo ou na missa do galo, na meia-noite do Natal.
(Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário
do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura /
Instituto Nacional do Livro, 1954)

A CUMACANGA
O lobisomem cuja cabeça se solta do corpo, e que denominam cumacanga, é sempre a concubina de um padre, ou a sétima
filha de seu amor sacrílego. O corpo fica em casa e a cabeça, sozinha, sai, durante a
noite da sexta-feira, e voa pelos ares como uma bola de fogo.
"Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira curacanga, isto é, a cabeça
lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos,
apavorando a quem a encontrar nesta estranha vagabundeação. Há porém meio infalível
de se evitar esse hórrido fadário: é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da
ultimogênita" (Basílio de Magalhães. Folclore no Brasil).
A cumacanga é do Pará, e a curacanga, idêntica, é do Maranhão.
(Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro.
Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1954) |