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Ano I - novembro 1998 - nº 03

Sua revista com a cara e a alma brasileira


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SUMÁRIO - EDIÇÃO 03
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO

A visita da comadre morte. O estranho acordo feito por um fazendeiro com a morte.

Conheça também o lobisomem e sua variação feminina, a cumacanga.

A missa dos mortos. No meio da noite, ele ouviu barulho na igreja e levantou-se para olhar, então...

OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE

 

IMAGINÁRIO - Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas; narrativas populares; seres fantásticos...

LOBISOMEM E CUMACANGA


Ilustração de Marcos JardimO LOBISOMEM

É um homem ou mulher que se transforma em um porco comum de grande tamanho. É encantado e é ouvido como se um animal estivesse comendo ou roendo ossos no terreiro. Aparece sempre nos caminhos usados pelos habitantes da região, e quando se encontra com eles, ataca-os. As pessoas fogem ou brigam com ele, defendendo-se com as armas que possuírem no momento. Quando a briga ocorre, no dia seguinte ao fato, tem-se conhecimento de que uma pessoa foi batida, ferida ou queimada ou cortada e esta justifica o acontecimento, como um acidente qualquer ocorrido dias antes.

Não ataca apenas pessoas, mas também animais domésticos, como cães, cavalos, porcos, e para afastá-lo não são conhecidas rezas ou fórmulas mágicas. É apenas afastado com armas de fogo ou corte ou ainda à pauladas. Não se conhecem as razões pelas quais uma pessoa vira lobisomem, nem por que as mordidas por ele não sofrem o mesmo encantamento.


(Figueiredo, Napoleão; Silva, Anaiza Vergolino e. Festas de santos e encantados. Belém, Academia Paraense de Letras, 1972)

* * *

Os traços com que a imaginação retratou o lobisomem são duplos, porque também, essa criatura infeliz, conforme o nome mostra, é dual. Como homem é extremamente pálido, magro, macilento, de orelhas compridas e nariz levantado.

A sua sorte é um fado, talvez a remissão de um pecado; mas esta adição vê-se quanto é estranha ao mito na sua pouca generalização. Por via de regra, o fado é a moral - é uma sorte apenas. Nasce-se lobisomem: em lugares são os filhos do incesto, mas, em geral, a predestinação não vem senão de um caso fortuito, e liga-se com o número que a astrologia acádia ou caldaica tornou fatídico - o número 7.

O lobisomem é o filho que nasceu depois de uma série de sete filhas. Aos treze anos, numa terça ou quinta-feira, sai de noite, e topando com um lugar onde um jumento se espojou, começa o fado. Daí por diante, todas as terças e sextas-feiras, de meia-noite às duas horas, o lobisomem tem de fazer a sua corrida, visitando sete adros (cemitérios) de igreja, sete vilas acarteladas, sete partidas do mundo, sete outeiros, sete encruzilhadas, até regressar ao mesmo espojadouro, onde readquire a forma humana. Sai também ao escurecer, atravessando na carreira as aldeias onde os lavradores recolhidos não adormeceram ainda. Apaga todas as luzes, passa como uma flecha, e as matilhas de cães, ladrando, perseguem-no até longe das casas... Quem ferir o lobisomem, quebra-lhe o fado; mas que se não suje no sangue, de outro modo herdará a triste sorte...

Para desencantá-lo basta o menor ferimento que cause sangue. Ou bala que se unte com cera de vela que ardeu em três missas de domingo ou na missa do galo, na meia-noite do Natal.


(Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1954)

 

 

Ilustração de Marcos Jardim

A CUMACANGA

O lobisomem cuja cabeça se solta do corpo, e que denominam cumacanga, é sempre a concubina de um padre, ou a sétima filha de seu amor sacrílego. O corpo fica em casa e a cabeça, sozinha, sai, durante a noite da sexta-feira, e voa pelos ares como uma bola de fogo.

"Quando uma mulher tem sete filhas, a última vira curacanga, isto é, a cabeça lhe sai do corpo, à noite, e, em forma de bola de fogo, gira à toa pelos campos, apavorando a quem a encontrar nesta estranha vagabundeação. Há porém meio infalível de se evitar esse hórrido fadário: é tomar a mãe a filha mais velha para madrinha da ultimogênita" (Basílio de Magalhães. Folclore no Brasil).

A cumacanga é do Pará, e a curacanga, idêntica, é do Maranhão.


(Cascudo, Luís da Câmara. Dicionário do folclore brasileiro. Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura / Instituto Nacional do Livro, 1954)

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