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| PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre
plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos;
orações; devoções; magia e feitiçaria... |
Na sociedade nacional a moça desfruta situação delicada no que diz respeito à sua
honestidade sexual. É preciso andar numa linha impecável para não sofrer desconfiança
pública que certamente a prejudicará. Vários noivos, vida mais ou menos dissoluta,
cheia de liberdade com tais requisitos, a pretendente a casamento se acha
prejudicada, criando-se em torno de si histórias do arco da velha, cuja destruição não
se apresenta como coisa fácil assim. Também na sociedade aborígene existia essa
espécie de jovem disfarçadamente desportiva.
Corre a lenda cariri de que uma índia estava para se casar, porém o pretendente
desconfiou de que a sua virgindade não mais existia, era conversa em língua estrangeira,
coisa desconhecida, razão por que não podia aceitar novo estado civil que lhe trouxesse
ridículo e opróbio. E deu o fora solene, sem mais complicacão nem considerações.
Outros noivados se sucederam até que um deles tomou atitude de segurança e seriedade
menos comum. É que o filho de chefe da tribo diferente se apresentava como noivo.
A jovem índia era de real beleza e vivacidade tão notável que chamava a atenção de
todo mundo. Mas alguém disse ao ouvido do rapaz o que se propalava sobre a reputação da
moça. Houve movimento diplomático entre as tribos. Conferências, encontros e, por fim,
a providência definitiva e que de uma vez por todas pusesse termo àqueles
sussurros impertinentes, malévolos e, sobretudo, prejudiciais à moral da pequena
selvagem pronta para as núpcias.
O tabu da virgindade pré-matrimonial teria de ir a limites imprevistos. Era preciso tomar
uma medida clara e de certa urgência ante as maneiras apaixonadas do noivo que se
mostrava exaltado e muito capaz de cometer loucuras. Então é quando os pais aflitos
resolvem entregar a noiva aos cuidados da serpente karukê. Ela é que tinha poderes
sobrenaturais para completo reconhecimento sobre a virgindade da índia candidata ao
matrimônio e que atravessava crítica fase de desconfianças públicas e
particulares necessárias do mais indisfarçável senão total esclarecirnerito. Karukê
ficou encarregada de fazer a grotesca verificação pericial. Não podia recusar o
serviço que lhe era reclamado.
Sabia-se que essa cobra de origem divina pertencia ao deus do Amor e por este motivo
especial devorava as moças que teriam tido a infelicidade de perder a virgindade antes do
casamento Fez-se a "operação" em todos os seus estilos. Constatou-se que a
jovem se encontrava intata. Encontrava-se digna de casar com um moço de honra. Então a
cobra recebeu muitos presentes das tribos interessadas no consórcio e numa noite de lua
cheia se realizou o resto da cerimônia com todo o seu complicado ritual.
Não é de estranhar que já nesse tempo selvagem existisse gabinete para exame
médico-legal?
A serpente karukê fazia parte da raça que vivia à margem do Piancó, isto é, vivia sob
a proteção e cuidados das tribos que ocupavam a região, deles merecendo respeito e
considerações constantes. Era réptil útil. Não fazia mal. Dispunha de poderes
divinais e teria sido, pela sua especialidade, a primeira profissional brasileira
que se dedicava à. prática do exame pré-nupcial. Apenas com a diferença de que
devorava, invés de mandar ir embora pelos caminhos de Deus. Ou do inferno.
(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares
brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.463-463)
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