Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA

setaquad.gif (95 bytes)A serpente kakurê e o tabu da virgindade entre os índios cariri, por Ademar Vidal.

setaquad.gif (95 bytes)As manifestações populares da Quaresma no estado do Rio de Janeiro.

setaquad.gif (95 bytes)Crendice entre os caçadores do sertão do Seridó, por Osvaldo Lamartine de Faria.

CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PANACÉIA - Nesta seção, textos sobre plantas medicinais; rezas; benzeduras; simpatias; crenças; superstições; amuletos; orações; devoções; magia e feitiçaria...


EXAME PRÉ-NUPCIAL

Ademar Vidal


Na sociedade nacional a moça desfruta situação delicada no que diz respeito à sua honestidade sexual. É preciso andar numa linha impecável para não sofrer desconfiança pública que certamente a prejudicará. Vários noivos, vida mais ou menos dissoluta, cheia de liberdade — com tais requisitos, a pretendente a casamento se acha prejudicada, criando-se em torno de si histórias do arco da velha, cuja destruição não se apresenta como coisa fácil assim. Também na sociedade aborígene existia essa espécie de jovem disfarçadamente desportiva.

Corre a lenda cariri de que uma índia estava para se casar, porém o pretendente desconfiou de que a sua virgindade não mais existia, era conversa em língua estrangeira, coisa desconhecida, razão por que não podia aceitar novo estado civil que lhe trouxesse ridículo e opróbio. E deu o fora solene, sem mais complicacão nem considerações. Outros noivados se sucederam até que um deles tomou atitude de segurança e seriedade menos comum. É que o filho de chefe da tribo diferente se apresentava como noivo.

A jovem índia era de real beleza e vivacidade tão notável que chamava a atenção de todo mundo. Mas alguém disse ao ouvido do rapaz o que se propalava sobre a reputação da moça. Houve movimento diplomático entre as tribos. Conferências, encontros e, por fim, a providência definitiva — e que de uma vez por todas pusesse termo àqueles sussurros impertinentes, malévolos e, sobretudo, prejudiciais à moral da pequena selvagem pronta para as núpcias.

O tabu da virgindade pré-matrimonial teria de ir a limites imprevistos. Era preciso tomar uma medida clara e de certa urgência ante as maneiras apaixonadas do noivo que se mostrava exaltado e muito capaz de cometer loucuras. Então é quando os pais aflitos resolvem entregar a noiva aos cuidados da serpente karukê. Ela é que tinha poderes sobrenaturais para completo reconhecimento sobre a virgindade da índia candidata ao matrimônio — e que atravessava crítica fase de desconfianças públicas e particulares necessárias do mais indisfarçável senão total esclarecirnerito. Karukê ficou encarregada de fazer a grotesca verificação pericial. Não podia recusar o serviço que lhe era reclamado.

Sabia-se que essa cobra de origem divina pertencia ao deus do Amor e por este motivo especial devorava as moças que teriam tido a infelicidade de perder a virgindade antes do casamento Fez-se a "operação" em todos os seus estilos. Constatou-se que a jovem se encontrava intata. Encontrava-se digna de casar com um moço de honra. Então a cobra recebeu muitos presentes das tribos interessadas no consórcio e numa noite de lua cheia se realizou o resto da cerimônia com todo o seu complicado ritual.

Não é de estranhar que já nesse tempo selvagem existisse gabinete para exame médico-legal?

A serpente karukê fazia parte da raça que vivia à margem do Piancó, isto é, vivia sob a proteção e cuidados das tribos que ocupavam a região, deles merecendo respeito e considerações constantes. Era réptil útil. Não fazia mal. Dispunha de poderes divinais — e teria sido, pela sua especialidade, a primeira profissional brasileira que se dedicava à. prática do exame pré-nupcial. Apenas com a diferença de que devorava, invés de mandar ir embora pelos caminhos de Deus. Ou do inferno.



(Vidal, Ademar. Lendas e superstições; contos populares brasileiros. Rio de Janeiro, Empresa Gráfica O Cruzeiro, 1950, p.463-463)

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