Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA
CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA

setaquad.gif (95 bytes)Maçantes, crônica de Joaquim José da França Júnior.

setaquad.gif (95 bytes)Hábitos e costumes na Amazônia de 1865, por Elizabeth Agassiz.

setaquad.gif (95 bytes)Na feira baiana de água de meninos há todas as cores vozes e ruídos

COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e costumes; tipos populares...


UM OUTRO SÍTIO: HÁBITOS E COSTUMES

Elizabeth Cary e Louis Agassiz


A habitação se compõe de várias construções, das quais a mais importante é constituída por uma sala comprida e aberta, onde dançam as pessoas brancas de Manaus e seus arredores, quando vêm, o que não é raro, passar a noite no sítio em numerosa companhia; a índia velha que me faz as honras da casa conta-me esse detalhe com certo orgulho.

Um muro baixo, de três ou quatro pés mais ou menos de altura, delimita dos lados essa galeria, e em volta estão colocados bancos de madeira; as duas extremidades são inteiramente fechadas por uma forte tapagem de folhas de palmeira muito lustrosa, tão delicadas quanto belas e de uma linda cor de palha. Numa delas, vê-se um imenso bastidor de bordar (porventura igual ao de Penélope) onde, neste momento, só está estendida uma rede de fibra de palmeira, obra inacabada da "senhora Dona" (a dona da casa). Esta concorda em me mostrar como trabalha no bastidor; ela fica de cócoras, num pequeno banco muito baixo, diante desta armação, e me faz notar que as duas fiadas transversais são separadas por uma peça grossa de madeira envernizada, em forma de régua chata. Faz-me admirar, em seguida, umas redes de cores e tecidos variados que estão arranjando para maior comodidade dos visitantes; depois, enquanto os homens vão se banhar no igarapé, percorro o resto das instalações com a dona da casa e sua filha, uma índia muito bonita. É a mais velha das duas senhoras que dirige tudo, o dono da casa está ausente: tem no exército uma comissão de capitão.

Conversas com as índias

No decorrer da conversação, verifico um traço de costumes cuja singularidade me impressiona cada vez mais, ele é geral, à medida que se prolonga a nossa permanência na Amazônia. Estou diante de pessoas de boa condição, embora de sangue índio, muito longe de serem necessitadas, vivendo com certa facilidade e relativamente ao seu meio, quase ricas; pessoas entre as quais, por conseguinte, se esperaria encontrar o conhecimento das leis mais rudimentares da moral. Pois bem: quando me apresentaram à moça, como eu lhe pedisse notícias deseu pai, pensando que fosse o capitão ausente, a mãe me respondeu sorrindo e com a maior simplicidade: "Não tem pai; é filha da fortuna." Por sua vez a moça me mostra os seus dois filhinhos, duas criaturinhas um pouco menos escuras que a mãe, e, à minha pergunta se o pai estava também no exército, deu a mesma resposta ingênua: "Não tem pai." É comum mulheres índias de sangue mestiço falarem a cada instante de seus filhos sem pai; isso num tom sem queixa nem tristeza, e, pelo menos na aparência, sem nenhuma consciência, da vergonha e de falta, como se o marido estivesse morto ou ausente. Ora, seria de estranhar que fosse coisa extraordinária: o contrário é que seria uma exceção entre a massa do povo. Quase nunca as crianças sabem coisa alguma sobre os seus pais. Conhecem apenas a mãe porque sobre ela recaem os cuidados e toda a responsabilidade, mas ignoram quem seja seu pai, e, realmente, não creio que à mulher ocorra a de que ela e seus filhos tenham qualquer direito sobre tal homem.

Voltemos, porém, ao sítio. No mesmo terreno cuidadosamente tratado em que está situada a sala do que falei, se encontram, mais ou menos perto umas das outras, várias "casinhas", cobertas de palha e formando uma só peça; depois se segue uma construção pouco maior, de paredes de barro e chão de terra, que contém um ou dois quartos e cuja frente é guarnecida por uma varanda de madeira. São os apartamentos particulares da dona da casa. Um pouco mais embaixo da colina, está a casa de farinha, com todos os utensílios para o preparo da mandioca. Nada mais bem cuidado que o terreiro desse sítio, onde umas três pretas foram postas a trabalhar, com umas vassouras feitas de galhos finos. Em volta dessas construções se estende a plantação de mandioca e cacau, onde também se vêem aqui e ali alguns pés de café. É dificil calcular a área coberta por essas plantações, pois são irregulares e compreendem várias plantas — mandioca, cacau, café e mesmo algodão — misturadas sem ordem; esta plantação que estamos visitando parece, entretanto, como aliás todo o resto do sítio, ser mais vasta e bem tratada que as que comumente se vêem. Nesse ínterim, voltaram os banhistas e pedimos licença para nos retirar, apesar dos repetidos convites para almoçar. Na partida, a nossa hospedeira índia me trouxe cesto de ovos e "abacatys" [sic] ou "peras de jacaré".

Entramos em casa justamente na hora da refeição da manhã, que reúne a todos, pessoas que se divertem e pessoas que trabalham. Os caçadores voltaram da floresta carregados de tucanos, papagaios, periquitos e grande variedade de outras aves, e os pescadores trouxeram numerosas preciosidades novas para Agassiz.



(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil: 1865-1866. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1975)

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