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| PALHOÇA - Nesta seção, textos sobre a
casa em diferentes regiões; utensílios; materiais; móveis, indumentárias; usos e
costumes; tipos populares... |
UM OUTRO SÍTIO: HÁBITOS E COSTUMES |
| Elizabeth Cary e Louis Agassiz |
A habitação se compõe de várias construções, das quais a mais importante é
constituída por uma sala comprida e aberta, onde dançam as pessoas brancas de Manaus e
seus arredores, quando vêm, o que não é raro, passar a noite no sítio em numerosa
companhia; a índia velha que me faz as honras da casa conta-me esse detalhe com certo
orgulho.
Um muro baixo, de três ou quatro pés mais ou menos de altura, delimita dos lados essa
galeria, e em volta estão colocados bancos de madeira; as duas extremidades são
inteiramente fechadas por uma forte tapagem de folhas de palmeira muito lustrosa, tão
delicadas quanto belas e de uma linda cor de palha. Numa delas, vê-se um imenso bastidor
de bordar (porventura igual ao de Penélope) onde, neste momento, só está estendida uma
rede de fibra de palmeira, obra inacabada da "senhora Dona" (a dona da casa).
Esta concorda em me mostrar como trabalha no bastidor; ela fica de cócoras, num pequeno
banco muito baixo, diante desta armação, e me faz notar que as duas fiadas transversais
são separadas por uma peça grossa de madeira envernizada, em forma de régua chata.
Faz-me admirar, em seguida, umas redes de cores e tecidos variados que estão arranjando
para maior comodidade dos visitantes; depois, enquanto os homens vão se banhar no
igarapé, percorro o resto das instalações com a dona da casa e sua filha, uma índia
muito bonita. É a mais velha das duas senhoras que dirige tudo, o dono da casa está
ausente: tem no exército uma comissão de capitão.
Conversas com as índiasNo decorrer da
conversação, verifico um traço de costumes cuja singularidade me impressiona cada vez
mais, ele é geral, à medida que se prolonga a nossa permanência na Amazônia. Estou
diante de pessoas de boa condição, embora de sangue índio, muito longe de serem
necessitadas, vivendo com certa facilidade e relativamente ao seu meio, quase ricas;
pessoas entre as quais, por conseguinte, se esperaria encontrar o conhecimento das leis
mais rudimentares da moral. Pois bem: quando me apresentaram à moça, como eu lhe pedisse
notícias deseu pai, pensando que fosse o capitão ausente, a mãe me respondeu sorrindo e
com a maior simplicidade: "Não tem pai; é filha da fortuna." Por sua vez a
moça me mostra os seus dois filhinhos, duas criaturinhas um pouco menos escuras que a
mãe, e, à minha pergunta se o pai estava também no exército, deu a mesma resposta
ingênua: "Não tem pai." É comum mulheres índias de sangue mestiço falarem a
cada instante de seus filhos sem pai; isso num tom sem queixa nem tristeza, e, pelo menos
na aparência, sem nenhuma consciência, da vergonha e de falta, como se o marido
estivesse morto ou ausente. Ora, seria de estranhar que fosse coisa extraordinária: o
contrário é que seria uma exceção entre a massa do povo. Quase nunca as crianças
sabem coisa alguma sobre os seus pais. Conhecem apenas a mãe porque sobre ela recaem os
cuidados e toda a responsabilidade, mas ignoram quem seja seu pai, e, realmente, não
creio que à mulher ocorra a de que ela e seus filhos tenham qualquer direito sobre tal
homem.
Voltemos, porém, ao sítio. No mesmo terreno cuidadosamente tratado em que está situada
a sala do que falei, se encontram, mais ou menos perto umas das outras, várias
"casinhas", cobertas de palha e formando uma só peça; depois se segue uma
construção pouco maior, de paredes de barro e chão de terra, que contém um ou dois
quartos e cuja frente é guarnecida por uma varanda de madeira. São os apartamentos
particulares da dona da casa. Um pouco mais embaixo da colina, está a casa de farinha,
com todos os utensílios para o preparo da mandioca. Nada mais bem cuidado que o terreiro
desse sítio, onde umas três pretas foram postas a trabalhar, com umas vassouras feitas
de galhos finos. Em volta dessas construções se estende a plantação de mandioca e
cacau, onde também se vêem aqui e ali alguns pés de café. É dificil calcular a área
coberta por essas plantações, pois são irregulares e compreendem várias plantas
mandioca, cacau, café e mesmo algodão misturadas sem ordem; esta plantação que
estamos visitando parece, entretanto, como aliás todo o resto do sítio, ser mais vasta e
bem tratada que as que comumente se vêem. Nesse ínterim, voltaram os banhistas e pedimos
licença para nos retirar, apesar dos repetidos convites para almoçar. Na partida, a
nossa hospedeira índia me trouxe cesto de ovos e "abacatys" [sic] ou
"peras de jacaré".
Entramos em casa justamente na hora da refeição da manhã, que reúne a todos, pessoas
que se divertem e pessoas que trabalham. Os caçadores voltaram da floresta carregados de
tucanos, papagaios, periquitos e grande variedade de outras aves, e os pescadores
trouxeram numerosas preciosidades novas para Agassiz.
(Agassiz, Louis. Viagem
ao Brasil: 1865-1866. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1975) |
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