
As santas missões, por Alexandre José
de Melo Morais Filho.
O
morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho, por
Eustórgio Wanderlei
Entrudo
e frevo, por Mário Sette
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| FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre
festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas;
instrumentos musicais... |
| Alexandre José de Melo Morais Filho |
Calma e solene como o sol poente é a alma religiosa que se embevece das maravilhas do
céu e que aceita, sem controvérsias, o problema da fé.
Ela marcha segura em seu caminho, e trilha indiferente sobre rosas e sobre espinhos, sem
olhar para outro horizonte que não seja o de suas crenças.
No espírito delicado das populações do Norte, embaladas pelos cantares suavíssimos da
igreja, afagadas pelo sobrenatural, que tanto eleva e realça a religião cristã, o
simbolismo do culto exerce poderosa influência, e daí acentuada característica de sua
psicologia especial.
Crente por índole, fatalista por vezes e supersticiosa quase sempre, aquela gente altiva
e inculta encontra nessas fontes o segredo de suas lendas piedosas, de seus cantos e
contos, de sua tendência ao entusiasmo e à devoção.
Diante da natureza selvagem, de florestas virgens e de vozes misteriosas, de cascatas que
mugem, de rios que se espadanam, é impossível deixar-se de ser crente, de ser-se
religioso...
Parece que se habita o país natal da grande poesia, dessa poesia sempre nova e eterna que
não pode ter outro ideal além da divindade, outro intérprete além do coração.
Esvaziai a floresta e os sertões da sombra de Deus e os séculos farão medo pendurados
das ramas dos arvoredos excelsos; tirai daquele povo a religião com todos os seis
preconceitos, com todas as suas superstições, e nenhuma outra coisa a substituirá,
capaz de merecer um raio dos nossos crepúsculos dourados!
Dentre os costumes populares do Norte, bem poucos existem mais na altura de enfrontar com
a natureza amena e aspérrima daqueles climas, de desenhar mais nitidamente o perfil
daquela raça, do que uma santa missão, quando esta é seguida de uma jornada de
penitência.
Os homens de fé viva, os missionários capuchinhos, que tomavam o rumo do céu pela
estrada que vai do sacrifício à morte, empreendiam anualmente a salvadora cruzada, e o
povo em peso comparecia no templo para a expiação das culpas e remissão dos pecados.
Em uma freguesia, quando havia missão, todo o sertão sabia... A notícia
espalhava-se distante, difundia-se como por encanto, e a boa nova encontrava disposto o
ânimo dos fiéis para os jejuns, a prece em comum e outros deveres forçados à estação
e ao ato.
A santa missão realizava-se pela quaresma, em dias variáveis; geralmente às
sextas-feiras e aos domingos.
Nos povoados onde as igrejas eram demasiado pequenas, um toldo acrescentava-se ao alpendre
singelo, teto protetor de inúmeros crentes que vinham de longe para assisti-las.
Em outros lugares, porém, devido às circunstâncias do acaso, armava-se, na falta de um
templo qualquer, enorme barracão, dentro do qual o santo missionário fazia erigir um
altar, colocava a sagrada imagem de Cristo, acendia velas de cera antes de começar a
doutrina.
O povo adornava de folhagens aromáticas e flores nativas o improvisado templo; trazia
dádivas espontâneas, antecipava-se contrito à tradicional desobriga.
O púlpito, a um lado do altar, ali se achava, e o confessionário via-se defronte,
toscamente feito, sem arte preparado.
Uma cruz, dominando ao alto da porta da entrada, traduzia o pensamento da construção e
convidava os fiéis ao recolhimento dalma e à meditação na morte.
O efeito que isso causava, no domínio pleno dos sertões bravios, era indescritível: o
tabaréu descobria-se, passando, e ajoelhava-se; o escravo benzia-se e implorava
misericórdia; as mulheres e as crianças paravam um isntante, persignavam-se, e
seguiam...
Nas igrejas das freguesias, entretanto, celebravam-se comumente as santas missões, as
desobrigas do ano.
Preparar o povo pela penitência, instruí-lo no catecismo, encaminhá-lo pelo batismo,
pela prática da virtude e do bem ao reino de Deus, era o objetivo do sacerdote errante,
do apóstolo impregnado das verdades eternas.
Ao entardecer, quando as aves cantam nas selvas, os sertanejos começavam a abandonar suas
habitações humildes, ganhando a estrada; as famílias, a pé ou em carros de bois,
aproximavam-se do arraial e, pouco a pouco, o adro da igreja e a praça formigavam de
povo, que sentava-se depois ao acaso, à espera do catecismo e da prédica.
O luto da quaresma, o religioso temor daquela gente, compenetrada em extremo do martírio
da Paixão, carregava o aspecto dessa cena ao ar livre, em que a quietação e o silêncio
campeavam imperturbáveis.
E a igreja se abria.
Em um instante a turba invadia o recinto, bipartia-se primeiro, tornava-se compacta logo
após... Estanciada por último à grade do presbitério, contemplava respeitosa e atenta
o missionário, que descia do altar-mor e sentava-se em sua cadeira sacerdotal, para explicar a doutrina cristã, para ensinar os mandamentos
e as orações que serviam de preparo à confissão.
À explicação da doutrina, quase simultânea ou oportuna, sucedia a ladainha, cantada
pelo catequista, fazendo coro a multidão, de joelhos, prosternada.
E de fora, à semelhança do órgão das catedrais, a turba apinhada prolongava o
acompanhamento, que os ecos repetiam rolando pelos despenhadeiros e tombando nas
esplanadas.
Depois... nem mais um cântico sagrado!
As luzes batiam pálidas no crucifixo do presbitério deseto, e uma figura ajoelhada, com
a fronte entre as mãos, descobria-se no púlpito mural, refletindo, orando.
E erguia-se!
Era o missionário, cuja palavra ardente de fé preparava as almas para a
bem-aventurança; era o apóstolo do Evangelho que pregava a penitência, que redime as
culpas; era o capuchinho intrépido e sublime apregoando a lei de Deus nas solidões do
Novo Mundo!...
E começava:
Vida breve...
Morte certa...
Do morrer a hora incerta...
E seu fervor alentava-lhe intenso, cada vez mais intenso, a frase incorreta, porém
inspirada...
O povo, suspenso à sua palavra, olhava-o pasmado; com o crucificado na destra trêmula,
tinha no braço a força de um exército!
E depois de confundir os vícios, de exalçar as virtudes, de condenar à morte eterna
aqueles que viviam em pecado, empunhava a disciplina d epontas de ferro, e, à direita e
à esquerda, açoitando-se convulso, penitente e horrível, bradava:
Misericórdia! Misericórdia!...
E o povo, de bruços, voltado para a imagem de Cristo encerrada, repetia, batendo nas
faces:
Misericórdia! Misericórdia!...
Nesse momento, o choro, as lamentações, os soluços e os ais angustiosos asilavam-se no
templo, formando uma atmosfera sonoramente lúgubre e dolorosa...
Mais tarde, se era necessário, para a construção de uma capela, de um cemitério, de um
hospital, saía a procissão de penitência, precedida do veterano missionário que, de
pés descalços e alçando uma crus, dirigia o povaréu.
A crença, que faz resplandecer as ações, e a esperança do céu, que avigora as almas
piedosas, abrigavam desde logo, debaixo de suas asas cândidas, os pobres sertanejos, para
a romagem compensadora das boas obras. Os breves, as milagrosas relíquias, as
indulgências abundantes robusteciam aqueles epíritos, alentavem-nos com as promessas de
perdão dos pecados, anunciadas na palavra incendida e austera do catequista intemerato.
Pelas três horas da tarde, já os penitentes começavam a reunir-se nos largos das
matrizes, à porta da determinada igreja...
E aqueles homens morenos e possantes, aquelas mulheres negras ou trigueiras, aquelas
crianças aventurosas e obedientes, ansiavam pela presença do missionário que os
encaminharia através do sertão e florestas.
Alguns penitentes, coroados de espihos da mara, esperavam tambpem, revendo na consciência
o negror de suas culpas.
De repente tocava o sinal da partida, e o capuchinho, rompendo a marcha, entoava a ladainha.
A cada versículo, no final de cada oração, o povo em tropa respondia, cantando:
Piedade, sinhô!
Piedade de nós pecadô...
Entornados pelas matas soberanas e escuras, pelos despenhadeiros vertiginosos e profundos,
pela extensão das estradas bárbaras, aqueles rumores tinham alguma coisa de sacrílego e
monstruoso.
Dir-se-iam os alaridos de um titã fulminado nos primeiros dias do caos!
E a procissão seguia, transpondo vales e serras, afrontando o imprevisto das selvas e o
desconhecido dos caminhos.
Sem as pedras necessárias para a edificação planejada, lutando braço a braço contra a
dificuldade das distâncias, o fervoroso sacerdote buscava às margens dos rios os pontos
mais conhecidos e próximos, onde elas existiam, e para lá se encaminhavam com o seu
rebanho de pecadores, com os sertanejos valentes e infatigáveis nas jornadas assombrosas.
Por onde quer que passassem os penitentes, famílias inteiras deixavam as suas casas e
incorporavam-se ao préstito; os escravos, que não podiam segui-los, choravam
penalizados; os meninos e os tropeiros, fugindo às tropas e aos povoados, lá iam felizes
na romaria de Deus.
É belo de imaginar-se o grandioso espetáculo que se desdobrava à vista, desses colonos
da fé, na viagem sublime e obscura dos atos meritórios e do Evangelho!
E de longe, de bem longe, lá do além, umas harmonias brandas como o respirar da
infância, uma espécie de coro de anjos nas horas misteriosas e melancólicas do
crespúsculo, vinham ainda extinguir-se no soturno da igreja:
Piedade, Sinhô!
Piedade de nós pecadô...
Chegando a procissão, o capuchinho suspendia as rezas, as mulheres e os meninos
descansavam aqui e ali, enquanto os homens separavam e escolhiam as pedras mais ou menos
volumosas, que pudessem carregar.
A multidão era numerosa: de mais de seiscentas pessoas, às vezes, compunha-se uma
procissão de penitência, que habitualmente constituía-se um prolongamento da santa
missão.
Eis senão quando, o missionário, tomando a cruz, erguia-se solene: o sol dourava-lhe a
barba grisalha e ondulante, as virações da tarde enchiam-lhe a manga do burel grosseiro
e humilde.
O povo, que o adorava, que via nele a figura de um santo, punha-se em movimento; e, as
mulheres e os velhos, os homens possantes e as crianças, suspendiam à cabeça e ao ombro
as pedras de romagem, que conduziam às vezes a léguas de caminho, para fins piedosos.
E os penitentes cantavam:
Quem é que esta pedra
Me ajuda a levar
Que Nossa Senhora
Nos há de ajudar...
E o suro gotejava da fonte e dos braços nervosos do matuto; as mulheres aliviavam,
passando de um ombro para outro, o peso das pedras enormes; as crianças suspendiam nas
mãos erguidas as que lhes couberam na partilha.
E quando as trovas populares e religiosas emudeciam, o apóstolo das selvas, o
missionário imponente e admirável, recomeça os cânticos sagrados, que o povo, em
marcha forçada, fazia seguir do pungitivo coro:
Piedade, Sinhô!
Piedade de nós pecadô...
E essas toadas reboavam na floresta, como os ecos do Josafá nos funerais do mundo!
Assim eram as santas missões; assim a fé antiga erigia seus santuários magnifícos,
hoje quase desertos de tradições e de Deus!
(Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas
e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979.
Reconquista do Brasil, 55, p.139-143) |
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