Ano V - março  2003 - nº 55

Sua revista com a cara e a alma brasileiras


SUMÁRIO - EDIÇÃO 55
FESTANÇA

setaquad.gif (95 bytes)As santas missões, por Alexandre José de Melo Morais Filho.

setaquad.gif (95 bytes)O morcego, o dominó, o papangu, o doutor, o urso, o príncipe, a morte, o diabinho, por Eustórgio Wanderlei

setaquad.gif (95 bytes)Entrudo e frevo, por Mário Sette

CANCIONEIRO
IMAGINÁRIO
OFICINA
PALHOÇA
COLHER DE PAU
PANACÉIA
CATAVENTO
ALMANAQUE
REALEJO
COLABORAÇÕES

 

FESTANÇA - Nesta seção, textos sobre festas populares, religiosas e profanas; folguedos; danças; datas comemorativas; instrumentos musicais...


AS SANTAS MISSÕES

Alexandre José de Melo Morais Filho


Calma e solene como o sol poente é a alma religiosa que se embevece das maravilhas do céu e que aceita, sem controvérsias, o problema da fé.

Ela marcha segura em seu caminho, e trilha indiferente sobre rosas e sobre espinhos, sem olhar para outro horizonte que não seja o de suas crenças.

No espírito delicado das populações do Norte, embaladas pelos cantares suavíssimos da igreja, afagadas pelo sobrenatural, que tanto eleva e realça a religião cristã, o simbolismo do culto exerce poderosa influência, e daí acentuada característica de sua psicologia especial.

Crente por índole, fatalista por vezes e supersticiosa quase sempre, aquela gente altiva e inculta encontra nessas fontes o segredo de suas lendas piedosas, de seus cantos e contos, de sua tendência ao entusiasmo e à devoção.

Diante da natureza selvagem, de florestas virgens e de vozes misteriosas, de cascatas que mugem, de rios que se espadanam, é impossível deixar-se de ser crente, de ser-se religioso...

Parece que se habita o país natal da grande poesia, dessa poesia sempre nova e eterna que não pode ter outro ideal além da divindade, outro intérprete além do coração.

Esvaziai a floresta e os sertões da sombra de Deus e os séculos farão medo pendurados das ramas dos arvoredos excelsos; tirai daquele povo a religião com todos os seis preconceitos, com todas as suas superstições, e nenhuma outra coisa a substituirá, capaz de merecer um raio dos nossos crepúsculos dourados!

Dentre os costumes populares do Norte, bem poucos existem mais na altura de enfrontar com a natureza amena e aspérrima daqueles climas, de desenhar mais nitidamente o perfil daquela raça, do que uma santa missão, quando esta é seguida de uma jornada de penitência.

Os homens de fé viva, os missionários capuchinhos, que tomavam o rumo do céu pela estrada que vai do sacrifício à morte, empreendiam anualmente a salvadora cruzada, e o povo em peso comparecia no templo para a expiação das culpas e remissão dos pecados.

Em uma freguesia, quando havia missão, todo o sertão sabia... A notícia espalhava-se distante, difundia-se como por encanto, e a boa nova encontrava disposto o ânimo dos fiéis para os jejuns, a prece em comum e outros deveres forçados à estação e ao ato.

A santa missão realizava-se pela quaresma, em dias variáveis; geralmente às sextas-feiras e aos domingos.

Nos povoados onde as igrejas eram demasiado pequenas, um toldo acrescentava-se ao alpendre singelo, — teto protetor de inúmeros crentes que vinham de longe para assisti-las.

Em outros lugares, porém, devido às circunstâncias do acaso, armava-se, na falta de um templo qualquer, enorme barracão, dentro do qual o santo missionário fazia erigir um altar, colocava a sagrada imagem de Cristo, acendia velas de cera antes de começar a doutrina.

O povo adornava de folhagens aromáticas e flores nativas o improvisado templo; trazia dádivas espontâneas, antecipava-se contrito à tradicional desobriga.

O púlpito, a um lado do altar, ali se achava, e o confessionário via-se defronte, toscamente feito, sem arte preparado.

Uma cruz, dominando ao alto da porta da entrada, traduzia o pensamento da construção e convidava os fiéis ao recolhimento d’alma e à meditação na morte.

O efeito que isso causava, no domínio pleno dos sertões bravios, era indescritível: o tabaréu descobria-se, passando, e ajoelhava-se; o escravo benzia-se e implorava misericórdia; as mulheres e as crianças paravam um isntante, persignavam-se, e seguiam...

Nas igrejas das freguesias, entretanto, celebravam-se comumente as santas missões, as desobrigas do ano.

Preparar o povo pela penitência, instruí-lo no catecismo, encaminhá-lo pelo batismo, pela prática da virtude e do bem ao reino de Deus, era o objetivo do sacerdote errante, do apóstolo impregnado das verdades eternas.

Ao entardecer, quando as aves cantam nas selvas, os sertanejos começavam a abandonar suas habitações humildes, ganhando a estrada; as famílias, a pé ou em carros de bois, aproximavam-se do arraial e, pouco a pouco, o adro da igreja e a praça formigavam de povo, que sentava-se depois ao acaso, à espera do catecismo e da prédica.

O luto da quaresma, o religioso temor daquela gente, compenetrada em extremo do martírio da Paixão, carregava o aspecto dessa cena ao ar livre, em que a quietação e o silêncio campeavam imperturbáveis.

E a igreja se abria.

Em um instante a turba invadia o recinto, bipartia-se primeiro, tornava-se compacta logo após... Estanciada por último à grade do presbitério, contemplava respeitosa e atenta o missionário, que descia do altar-mor e sentava-se em sua cadeira sacerdotal,

para explicar a doutrina cristã, para ensinar os mandamentos e as orações que serviam de preparo à confissão.

À explicação da doutrina, quase simultânea ou oportuna, sucedia a ladainha, cantada pelo catequista, fazendo coro a multidão, de joelhos, prosternada.

E de fora, à semelhança do órgão das catedrais, a turba apinhada prolongava o acompanhamento, que os ecos repetiam rolando pelos despenhadeiros e tombando nas esplanadas.

Depois... nem mais um cântico sagrado!

As luzes batiam pálidas no crucifixo do presbitério deseto, e uma figura ajoelhada, com a fronte entre as mãos, descobria-se no púlpito mural, refletindo, orando.

E erguia-se!

Era o missionário, cuja palavra ardente de fé preparava as almas para a bem-aventurança; era o apóstolo do Evangelho que pregava a penitência, que redime as culpas; era o capuchinho intrépido e sublime apregoando a lei de Deus nas solidões do Novo Mundo!...

E começava:

— Vida breve...
Morte certa...
Do morrer a hora incerta...

E seu fervor alentava-lhe intenso, cada vez mais intenso, a frase incorreta, porém inspirada...

O povo, suspenso à sua palavra, olhava-o pasmado; com o crucificado na destra trêmula, tinha no braço a força de um exército!

E depois de confundir os vícios, de exalçar as virtudes, de condenar à morte eterna aqueles que viviam em pecado, empunhava a disciplina d epontas de ferro, e, à direita e à esquerda, açoitando-se convulso, penitente e horrível, bradava:

— Misericórdia! Misericórdia!...

E o povo, de bruços, voltado para a imagem de Cristo encerrada, repetia, batendo nas faces:

— Misericórdia! Misericórdia!...

Nesse momento, o choro, as lamentações, os soluços e os ais angustiosos asilavam-se no templo, formando uma atmosfera sonoramente lúgubre e dolorosa...

Mais tarde, se era necessário, para a construção de uma capela, de um cemitério, de um hospital, saía a procissão de penitência, precedida do veterano missionário que, de pés descalços e alçando uma crus, dirigia o povaréu.

A crença, que faz resplandecer as ações, e a esperança do céu, que avigora as almas piedosas, abrigavam desde logo, debaixo de suas asas cândidas, os pobres sertanejos, para a romagem compensadora das boas obras. Os breves, as milagrosas relíquias, as indulgências abundantes robusteciam aqueles epíritos, alentavem-nos com as promessas de perdão dos pecados, anunciadas na palavra incendida e austera do catequista intemerato.

Pelas três horas da tarde, já os penitentes começavam a reunir-se nos largos das matrizes, à porta da determinada igreja...

E aqueles homens morenos e possantes, aquelas mulheres negras ou trigueiras, aquelas crianças aventurosas e obedientes, ansiavam pela presença do missionário que os encaminharia através do sertão e florestas.

Alguns penitentes, coroados de espihos da mara, esperavam tambpem, revendo na consciência o negror de suas culpas.

De repente tocava o sinal da partida, e o capuchinho, rompendo a marcha, entoava a ladainha.

A cada versículo, no final de cada oração, o povo em tropa respondia, cantando:

Piedade, sinhô!
Piedade de nós pecadô...

Entornados pelas matas soberanas e escuras, pelos despenhadeiros vertiginosos e profundos, pela extensão das estradas bárbaras, aqueles rumores tinham alguma coisa de sacrílego e monstruoso.

Dir-se-iam os alaridos de um titã fulminado nos primeiros dias do caos!

E a procissão seguia, transpondo vales e serras, afrontando o imprevisto das selvas e o desconhecido dos caminhos.

Sem as pedras necessárias para a edificação planejada, lutando braço a braço contra a dificuldade das distâncias, o fervoroso sacerdote buscava às margens dos rios os pontos mais conhecidos e próximos, onde elas existiam, e para lá se encaminhavam com o seu rebanho de pecadores, com os sertanejos valentes e infatigáveis nas jornadas assombrosas.

Por onde quer que passassem os penitentes, famílias inteiras deixavam as suas casas e incorporavam-se ao préstito; os escravos, que não podiam segui-los, choravam penalizados; os meninos e os tropeiros, fugindo às tropas e aos povoados, lá iam felizes na romaria de Deus.

É belo de imaginar-se o grandioso espetáculo que se desdobrava à vista, desses colonos da fé, na viagem sublime e obscura dos atos meritórios e do Evangelho!

E de longe, de bem longe, lá do além, umas harmonias brandas como o respirar da infância, uma espécie de coro de anjos nas horas misteriosas e melancólicas do crespúsculo, vinham ainda extinguir-se no soturno da igreja:

Piedade, Sinhô!
Piedade de nós pecadô...

Chegando a procissão, o capuchinho suspendia as rezas, as mulheres e os meninos descansavam aqui e ali, enquanto os homens separavam e escolhiam as pedras mais ou menos volumosas, que pudessem carregar.

A multidão era numerosa: de mais de seiscentas pessoas, às vezes, compunha-se uma procissão de penitência, que habitualmente constituía-se um prolongamento da santa missão.

Eis senão quando, o missionário, tomando a cruz, erguia-se solene: o sol dourava-lhe a barba grisalha e ondulante, as virações da tarde enchiam-lhe a manga do burel grosseiro e humilde.

O povo, que o adorava, que via nele a figura de um santo, punha-se em movimento; e, as mulheres e os velhos, os homens possantes e as crianças, suspendiam à cabeça e ao ombro as pedras de romagem, que conduziam às vezes a léguas de caminho, para fins piedosos.

E os penitentes cantavam:

Quem é que esta pedra
Me ajuda a levar
Que Nossa Senhora
Nos há de ajudar...

E o suro gotejava da fonte e dos braços nervosos do matuto; as mulheres aliviavam, passando de um ombro para outro, o peso das pedras enormes; as crianças suspendiam nas mãos erguidas as que lhes couberam na partilha.

E quando as trovas populares e religiosas emudeciam, o apóstolo das selvas, o missionário imponente e admirável, recomeça os cânticos sagrados, que o povo, em marcha forçada, fazia seguir do pungitivo coro:

Piedade, Sinhô!
Piedade de nós pecadô...

E essas toadas reboavam na floresta, como os ecos do Josafá nos funerais do mundo!

Assim eram as santas missões; assim a fé antiga erigia seus santuários magnifícos, hoje quase desertos de tradições e de Deus!



(Morais Filho, Alexandre José de Melo. Festas e tradições populares do Brasil. Belo Horizonte, Editora Itatiaia, 1979. Reconquista do Brasil, 55, p.139-143)

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