Ir para a página principalRetornar para Oficina

Março 2002
Ano IV - nº 43

ZOOTECNIA POPULAR

A herança portuguesa de lidar com os animais domésticos, como o gado bovino, cavalar, muar, ovino, suíno, etc., deu ao rurícola brasileiro uma técnica de subsistência que assinalou no passado um ciclo econômico no Brasil – o pastoril, cujo esplendor foi cognominado por Capistrano de Abreu – "civilização de couro".

O gado bovino que nos dá carne, leite e outros elementos indispensáveis para o nosso conforto, além de sua existência nas regiões do campeiro, do boiadeiro e do vaqueiro, é encontrado em escala menor noutras regiões.

O jegue está a merecer um estudo acurado porque ele é sem dúvida o animal de real importância nas regiões secas do Nordeste.

O cavalo nos pampas é o pégaso do progresso cuja presença econômica e histórica está ligada ao gaúcho – rei do campeirismo, cujo trono é a coxilha.

O burro está presente em todo o território nacional, para tiro e carga.

Em Piaçabuçu, no Estado de Alagoas, acreditam que a cor de um animal possa significar força, resistência, indomabilidade, etc. As cores dos cavalos são: castanho (com as seguintes tonalidades: amarelo, escuro e vermelho); rosado (que é o branco com pintas); russo (branco sem pintas); alazão (com as seguintes variantes: amarelado ou tostado que é o queimado); rosilho (avermelhado com alguns pêlos brancos pelo meio); pampo (malhas brancas e vermelhas); melado caxita (cor de café com leite); alvo cambraia (todo branco) e preto.

"Cavalo forte é o castanho escuro das canas (pernas) pretas". "Cavalo preto é ligeiro e esperto". "Cavalo alazão é bom corredor, porém pouco resistente". "Cavalo russo de couro branco é fraquíssimo". "Cavalo gázeo de olhos esbranquiçados é louco, rompe tudo, não respeita nada". "Cavalo gato com quatro sinais brancos é muito ligeiro, por exemplo, três pés brancos e uma estrela na testa, são ligeiríssimos". Os preços dos cavalos estão também relacionados com a altura. Um cavalo de seis palmos de altura, chegando a sete, custava Cr$ 2.000,00 em 1952. Observam muito é o tipo de andar do animal vaqueano. Dois são os tipos de passos: puxada a baixo e puxada-a-meio. Cavalo chotão é o que não tem habilidade, é bruto, anda a galope ou trote duro, é tão ruim que o melhor é andar a pé do que cavalgá-lo. O cavalo baixeiro é de passada baixa que não maltrata o cavaleiro. Cavalo esquipador é que tem puxada forte, certa, ritmada, anda muito depressa, tem "esquipança". Depois da esquipança é o galope. O cavalo bom tem três passadas distintas: puxada baixa ou baixeiro, puxada do meio e esquipança.

Os burros são das seguintes cores: castanho, preto, pelo de rato e branco.

Com referência ao gado, em capítulo anterior, ao tratar da Vaquejada, descrevemos a partilha essa instituição criada pelo dono da terra, pelo fazendeiro, uma forma de escravidão do vaqueiro – tão amante da liberdade que o convívio com os campos abertos lhe inspira – mas preso ao compromisso da palavra empenhada e à partilha – forma tradicional de sujeição e exploração tacitamente aceita.

Ao marcar o gado, há sinais convencionais feitos por exemplo nas orelhas das vacas e garrotes, ou a marca da ribeira da região do vaqueiro.

Em todo o Brasil é comum a prática de magias para a cura de animais. Em São Luís do Paratinga, Estado de São Paulo
[1] recolhemos estas simpatias para cura de animais:

- Para curar dor de barriga de animal, fazer uma cruz, ligando os quatros rastros do animal doente.

- Para curar dor de barriga de animal, amarrar a palha de milho no rabo. Ficará logo são. Não presta nó no rabo dos cavalos, pois lhes trará dor de barriga. Cura-se às vezes, só desamarrando o nó.

- Quando o animal está com dor de barriga, toma-se uma garrafa de café amargo, coloca-se alcanfora e faz o animal tomar. Depois fazer que ele corra até esquentar o corpo e suar. Depois amarra-se uma palhinha de milho no rabo do animal para completar o tratamento. Ele logo começará a pastar e defecar normalmente.

- Para curar tosse de cachorro, fazer um colar de sabugo de milho.

- Para que o cachorro não seja fujão, tirar o seu tamanho com um barbante e pendurá-lo no fumeiro. O barbante só deve ser enrolado, não se deve dar-lhe nó.

- Para curar nambiuvu de cachorro, passar azeite quente na orelha dele, durante nove dias seguidos.

- Para que os cachorros sejam bons guardas e não enlouqueçam, é bom no dia 16 de agosto, dia de São Roque, oferecer um almoço para eles. Faz-se a comida, como se fizesse para a família, e oferece-se para os cachorros.

- Para curar cachorro paqueiro, para curar "curso de sangue" ou qualquer outra doença, procura-se barranco de terra vermelha no lugar onde bate o sol, e tiram-se três punhados, cozinha-se e dá para o cachorro beber. Sarará em poucos dias.

- Para curar bicheira de animais é fazê-los passar por um lugar mais ou menos úmido. No sinal deixado pelos pés, rastros, enfiar pregos. Quando os pregos estiverem enferrujados, os bichos cairão por si.

- Para curar bicheira, chama-se o animal pelo nome e diz-se no seu ouvido: "falaram que vós tem seis bicho. Já olhei e vós tem só cinco". Até chegar à conclusão de que não tem nenhum. Reza-se depois desta simpatia um Padre-Nosso e uma Ave-Maria. Não olhar mais o animal depois da simpatia. Cairão todos os bichos.

- Esta simpatia não pode ser feita em dias que não sejam de trabalho. Toma-se um terrão que não deve ser colhido dos terrenos da propriedade da pessoa, dizendo as seguintes palavras: - "essas bicheira, essas imundície que vá acima e avante, assim como vai o serviço de domingo e dia santo e festa de guarda, aqueles que trabalham por um "abuso". Repetir três vezes, quando finalizar a terceira, soltar o torrão no rastro esquerdo da criação. Virar as costas, sair sem olhar para trás.

- Para curar bicheira pegar três pedras de cristal da rocha, deixar cair um pingo de sangue da bicheira em cima. Virar as três pedras para baixo e dizer três vezes: - "esta bicheira há de ir adiante, como serviço de domingo e dia santo".

- Para curar berne de animal, desde a benzedura, simpatia de dar nove bagos de chumbo para comer , colocar sarro de pito no local ou fumo mascado até ao remédio atualmente muito em uso que é a creolina.

- Quando começam a morrer as galinhas, finca-se m bambu bem alto na beira do terreiro da casa com uma garrafa, na ponta e põe-se nos três cantos da casa um papelzinho no qual se escreve nove vezes o nome de Ave-Maria.

- Para curar verrugas de animal, amarrar um sedenho do rabo em torno, que ela cairá por si.

- Para criação de galinhas ir para frente, dar um frango para São Roque.

- Para curar pigarra de galinha, tira-se uma pena, e atravessa com ela a pele do pescoço da ave.

- Para a criação de galinha ir para frente, na véspera de Natal, vender uma delas e dar o dinheiro para o Deus-Menimo. Elas não pestearão.

- O boi deve ser carneado (morto) pela manhã, se o for ao anoitecer, trará azar para quem o matou (carneou).

- Quem tira do boi a "camisa", o couro, sem camisa fica (pobre).

- Quando se está tirando leite duma vaca, e este cai no chão, pode "empedrar" a úbere da vaca. É preciso lavá-la com água quente, passando a mão entre as tetas formando cruz.


Nota:

1. Araújo, Alceu Maynard. Alguns ritos mágicos (Prêmio Mário de Andrade, 1951. Gráfica da Prefeitura Municipal de São Paulo, 1958).


(Araújo, Alceu Maynard, Folclore nacional, v.3, p.120)

Topo

Jangada Brasil © 2002