Março
2001
Ano III - nº 31 |
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Depois de três ou quatro
dias de viagem, a ponta inferior da ilha de Itaparica, com suas numerosas palmeiras,
aparece no horizonte e apenas por um curto espaço de tempo, surge diante dos olhos
escondendo o perfil das abóbadas brancas e das torres das igrejas de São Salvador, da
Bahia, a segunda cidade do império.
Chegado o vapor fui, por gentileza do senhor Nobre, o guarda-mor, imediatamente levado
para a costa no seu escaler oficial. Os muros de uma fortaleza circular que se ergue do
fundo das águas, construído pelos holandeses, levantam as suas carrancas sobre a
embarcação; enquanto as fortalezas dos mortos dominam o porto e toda a cidade.
Desembarcando na rua da Alfândega, passei pela cidade baixa, com suas ruas estreitas (em
alguns trechos existe apenas uma) correndo paralelas com a praia.
Ao longo da rua da Praia estão localizados a Alfândega e o Consulado, pelo qual todos os
produtos da região devem passar previamente para serem exportados. Alguns dos trapiches
vizinhos são de uma imensa extensão, e dizem figurar entre os maiores do mundo.
Em redor dos desembocadouros, centenas de canoas, lanchas e várias outras pequenas
embarcações, descarregam suas cargas de frutos e produtos. Em uma parte da praia está
uma larga abertura, que é usada como praça do mercado. Perto deste um belo e moderno
edifício espaçoso foi construído para uma Bolsa. está bem suprido de jornais de todas
as partes do mundo, e ocupa ótima posição. As principais casas comerciais situadas na
rua Nova do Comércio, compõem o mais belo bloco de edifícios do Brasil, - talvez de
toda a América do Sul. Estes edifícios poderiam adornar os bairros comerciais de
Londres, Paris ou Nova Iorque.
A cidade baixa não foi calculada para causar uma favorável impressão no estrangeiro. Os
altos edifícios são quase todos velhos, embora geralmente apresentando alegres fachadas.
As ruas nesse bairo são muito estreitas, desiguais e mal pavimentadas, e por vezes tão
imundas quanto as de Nova Iorque. Estão repletas de mendigos e carregadores de todas as
espécies. Aqui ficamos informados de uma das peculiaridades da Bahia. Devido às
irregularidades de seu terreno e a forte declividade que separa a cidade alta da baixa,
não é possível o uso de carruagens de rodas. Nem mesmo um carro ou carretazinha é
vista destinada a remover cargas de um lugar para outro. Tudo que requer troca de lugar em
todo o comércio e negócios comuns deste porto de mar - e é o segundo em tamanho e
importância na América do Sul - deve ser na cabeça e nos ombros dos homens. As cargas
são aqui mais comumente carregadas nos ombros, visto que a principal exportação da
cidade é açúcar em caixas e algodão em fardos, que é impossível carregar na cabeça
como sacas de café.
Grandes quantidades de negros altos e atléticos são vistos movendo-se em pares ou bandos
de quatro, seis ou oito, com suas cargas suspensas entre eles por fortes varapaus. A
maioria deles é vista sentada em tais varapaus, trançando palha, ou dormindo deitados
nos becos e nas esquinas das ruas, lembrando negras serpentes enroladas à luz do sol. Os
dorminhocos têm geralmente alguma sentinela pronta para chamá-los quando se precisa dos
seus serviços, e ao sinal dado, levantam-se como o elefante para a sua tarefa. Como os
carregadores de café do Rio de Janeiro, eles muitas vezes cantam e gritam quando andam;
mas o seu modo de andar é necessariamente lento e medido, semelhando antes a uma marcha
fúnebre do que o duplo passo apressado dos seus colegas fluminenses. Outra classe de
negros se ocupa em carregar passageiros numa espécie de assento tipo sedan denominado
"cadeira".
É em verdade um trabalho penoso e algumas vezes perigoso para uma pessoa branca subir a
pé as encostas íngremes onde fica a cidade alta, mormente quando os poderosos raios de
sol estão dardejando sem dó, sobre a cabeça. Nenhum ônibus ou cabriolé se encontra
para fazer o serviço. De acordo com este estado de coisa, o transeunte encontra perto de
cada esquina ou ponto de maior freqüência, uma longa fileira de cadeiras acortinadas,
cujos portadores, de chapéu na mão, aglomeram-se apressados em volta dele, embora sem as
desfaçatez dos condutores de carros da América do Norte, dizendo, "Quer cadeira,
senhor?" Depois que fez a sua escolha, e sentou-se à vontade, os condutores levantam
a sua carga e marcham, aparentemente tão satisfeitos pela oportunidade de carregar um
passageiro, como este com a sorte de ser carregado. Ter uma ou duas cadeiras, e negros
para levá-las, é tão necessário à uma família na Bahia, como ter carruagem e cavalos
em outro qualquer lugar. O traje dos condutores e o grande custo das cortinas e ornamentos
das cadeiras, indicam a categoria e o tom da família que os possui.
Provavelmente os encontrará uma altiva crioula negra mina, que se gaba de ser chamada
pelo nome de baiana. Seu turbante, seu xale, seus ornamentos e passo elástico sobre
chinelas de salto, mostram uma graça nativa inatingível pela moda moderna.
Sinto não ter nenhum desenho da Bahia tirado de bordo, - pois deste ponto a cidade parece
verdadeiramente magnífica em suas proporções; mas a grande gravura feita de um
daguerreótipo, dá essa vista da metrópole religiosa do Brasil, estendendo-se em seus
morros em forma de terraços em torno de Monserrate. A subida íngreme em que vemos os
condutores de cadeiras, é a mesma que Henry Martyn subiu em 1805, tão pitorescamente
descrita no diário que foi incorporado às páginas da sua biografia. A cidade baixa, com
exceção da rua Nova do Comércio, mudou muito pouco desde a visita desse devotado
missionário.
Algumas das ruas que ligam as cidades altas e baixas sofrem um curso em zig-zag ao longo
das escarpas, outras cortam elevações quase verticais para evitar, tanto quanto
possível, a sua forte declividade. Nem mesmo no alto dessas colunas a superfície é
plana. Nem mesmo Roma pode gabar-se de tantos morros como os que aqui se acham reunidos,
formando o recinto da Bahia. Sua extensão entre seus limites extremos - Rio Vermelho e
Monserrate - é de cerca de seis milhas. A cidade não é em parte alguma larga, e na
maior parte é composta apenas de duas outras ruas principais. a direção destas ruas
muda com as várias voltas e os ângulos necessários para não abandonar o alto do
promontório. Intervalos freqüentes entre as casas construídas ao longo da parte mais
alta permitem ver a mais pitoresca vista da baía, de um lado, e do interior do outro. O
aspecto da cidade é antigo. Grandes somas têm sido gastas no seu calçamento, - porém
tendo mais em vista conservar as ruas contra os danos das chuvas, do que fornecer estradas
para qualquer gênero de carruagem. Aqui e ali podem ser vistas antigas fontes de
cantaria, situados num vale de maior ou menor profundidade, para servir de ponto de
captação para as águas que descem morro abaixo; mas em parte alguma se vê um aqueduto
importante, se bem que recentes obras hidráulicas, com motores a vapor fabricados na
França, tenham sido realizadas do lado leste do Noviciado, que permitirá um benéfico
suprimento de água potável para a cidade alta.
Contemplando a baía vista do teatro (o grande edifício no alto da esplanada) somos
levados aos mais primitivos tempos da história colonial do Brasil. O antigo forte
arredondado no meio das ondas é um episódio do breve poderio da Holanda nessa porção
da América, construção sobre a qual o tempo não fez grandes alterações.
(KIDDER, Daniel Parish; FLETCHER, James Cooley. O Brasil e
os brasileiros) |
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