Jangada Brasil, nº 19, março de 2000: Panacéia – A procissão dos passos

A PROCISSÃO DOS PASSOS

A imagem do Bom Jesus dos Passos que vem às ruas da nossa católica cidade, numa sexta-feira da Quaresma, possui a sua lenda e bem significativa.

Em uma noite de grande trovoada e de formidável aguaceiro, desses que anunciam no Recife a entrada do inverno, um pobre velho, andrajoso, trôpego, doente, pingando água, foi bater à porta do Convento do Carmo. Entre o estalar de dois pavorosos trovões, o leigo, lá dentro, interrompendo o sono, ouviu estranhas pancadas e veio, de andar arrastado, esfregando os olhos, de mau humor, ver quem era o afoito que lhe perturbava o sono. Ladeou o claustro todo inundado e abriu o postigo do parlatório.

– Quem é?

À voz ácida do leigo respondeu a voz mansa do mendigo.

– Um agasalho pelo amor de Deus!

– Aqui não é hospedaria. Vá dormir debaixo da ponte…

O leigo, vira, ao abrir de um relâmpago, a roupa esfarrapada do velho e não teve medidas para repeli-lo.

Foi-se o pobre, resignado e humilde, debaixo do temporal, em busca de teto mais cristão. E, caminhando a esmo viu-se no largo do Corpo Santo. Ainda existia o templo que a “estética dos engenheiros” derrubou para substitui-lo em outros pontos da cidade pelos arranha-céus… Subiu os degraus de mármore e bateu à porta da sacristia.

Não foi preciso bater muito. O vigário atendeu e mandou-o entrar.

– Durma aí nesse banco, irmão.

No outro dia, ao clarear, indo despertar o hóspede, o pároco não o encontrou mais. Ao invés dele, achava-se na sacristia do Corpo Santo a bela imagem do Senhor dos Passos.

E ali ficou até que a igreja foi abaixo. E dali começou a sair em procissão desde aquela época.

Contam que os carmelitas, ao saber do fato, protestaram, exigiram a entrega da imagem sob alegação de que Jesus fora primeiro pedir abrigo no Carmo, manifestando assim preferência de moradia. Mas o juiz a quem coube desenlinhar o caso, decidiu em favor do Corpo Santo, por haver sido mais humano e mais gentil, mesmo antes de conhecer a divina identidade do falso mendigo. Como ficha de consolação, resolveu-se que o Bom Jesus todos os anos passaria uma noite e um dia no templo carmelita.

E tudo ficou de bem. No meu tempo de menino ouvia dizer que por qualquer circunstância a imagem não pudesse regressar na sexta-feira de Passos ao Corpo Santo, passaria a pertencer ao Carmo. Muita gente acreditava nessa outra lenda. Por isso, em 1895, quando uma chuvada inclemente e incessante não consentiu que a procissão se realizasse, meu espírito de criança se alvoroçou logo com a notícia trazida pelo preto Isidoro, lá da rua, de que dessa vez Nosso Senhor ficaria para sempre no Carmo. Mas não era mais que um boato…

Outro acontecimento notável, – neste eu ainda não fora convocado para servir no mundo – muito falado no Recife e assustando muita gente, foi o meteoro que iluminou o céu na noite de procissão dos Passos, em 27 de março de 1871. Um clarão súbito, enorme, encandeador. Houve quem pensasse no fim do mundo… Houve quem o atribuísse a algum pecado cometido durante o desfile religioso… Um olhar, um aperto de mão, um beliscão, um gracejo, um cravo roubado do andor para dar a uma sinhazinha que viera num palanquim azul…

A procissão dos Passos sempre teve no Recife honras de esplendor e de fama. Marcava mesmo uma etapa do ano. Um mês antes, quem dispunha de recursos, tratava de encomendar o vestido de seda preta lavrada ou de gorgorão. As mocinhas contentavam-se com as cambraias de seda com salpicos. As matronas exigiam dos maridos as capas de damassé com vidrilhos e as severas capotas com enfeites de veludo. Dos guarda-roupas para o banho de benzina saíamcroisés e fraques de casimira negras.

Quem morava em rua onde passa o cortejo, tomava precauções. Era preciso robustecer a munição da dispensa. As famílias amigas e os parentes não faltavam. No Recife quieto e silencioso desse tempo, ao quebrar do meio-dia começavam as igrejas a dobrar. Não havia bondes elétricos, nem caminhões, nem automóveis de escapação aberta para infernar os ouvidos, e, por isso, o toque das igrejas tomava ares de um escândalo de ruídos. Os livres pensadores queixavam-se, explodiam. As irmandades passavam, de cruzes alçadas, para o Carmo.

Na quinta-feira era a procissão chamada do Encerro, porque a imagem do Senhor dos Passos ia do Corpo Santo ao Carmo, coberta. Ao escurecer, o Corpo Santo iniciava os seus dobres lentos, dolorosos, tristes. As ruas do velho bairro do Recife pouco a pouco se movimentam e o comércio em grosso fechava por completo. Grupos iam-se adensando pelas calçadas e pelas pontes. Varandas enchiam-se. Punham-se nas janelas e sacadas castiçais com velas protegidas por mangas de vidro. Nos Arcos da Conceição e de Santo Antônio havia também muitas luzes. Os vetustos sobradões da rua da Candeia, de ordinário fechados e desertos, ganhavam uma vida que eles só haviam conhecido em épocas mais remotas.

O longo, belo e tocante cortejo noturno saía por volta das 7 horas e vinha-se estendendo pela ponte do Recife para ganhar o bairro vizinho. Duas imensas e tremulejantes fileiras de barandões acesos por umas angélicas de papel de seda resguardando as chamas. Entrava-se pela rua do Crespo, transpunha a pracinha, enfiava-se por Cabugá e Nova….

Em todo trajeto muita gente à espera. A imagem de Jesus, velada por um dossel de seda roxa, era carregada pelos oficiais da Guarda Nacional. Via-se apenas a ponta da cruz de fora. Músicas, povo. E um cheiro de incenso que ficava depois por alguns momentos nas ruas vazias…

No outro dia, à tarde, voltava o Senhor dos Passos a sua igreja. O comércio cerrava as portas mais cedo. Nas esquinas os mesmos grupos clássicos de mulheres que vinham de longe e traziam crianças que choramingavam. Todos queriam “pegar canto”. Velhotas arengando. Moleques tomando pagode com as beatas de lenços brancos nas cabeças e de balandraus ruços. Rodavam carros com famílias lordes. Abriam-se varandas de primeiros andares que serviam de depósitos das lojas.

E enchiam-se os prédios da rua da Cadeia, da rua do Crespo, da rua do Cabugá, da rua Nova… Iam transitando anjos procedendo das casas das vestideiras. Algumas eram célebres em São José e tinham muito gosto em fazer as saias armadas, bem redondas, ensinando as crianças a gingar, – fazer o passodos querubins.

Afinal surdia a procissão, depois de uma expectativa de duas ou três horas, ouvindo os sinos e espreitando a boca da rua.

– Lá vem o pendão!

– Minha gente! Corra!

– Vem perto!

Havia sempre alguém lá por dentro e todos acorriam à varanda. Aí é que era o pega para arranjar canto. Os mais sabidos já estavam abancados. Os donos da casa sempre ficavam por trás, trepados nas cadeiras.

E o grande pendão, com o seu S. P. Q. R. que o povo traduzia por “Sopa, pão, queijo, rapadura“, passava seguro pelo Rodrigão, o homem mais alto do Recife. Em seguida os guiões das Almas e do Sacramento. Os colégios: o Instituto Pernambucano, o Aires Gama, o 9 de Janeiro, o 19 de Abril o Salesiano… As irmandades, as confrarias, o andor enfeitado com cravos e alecrins, as ordens terceiras, o seminário, o pálio, o governador Gonçalves Ferreira, o bispo domLuís, os oficiais da linha, da Polícia, da Guarda Nacional, as músicas, o povo…

Um desfile extenso, colorido, bonito, empolgante! De quando em vez se via no meio do préstito um homem com um rabecão, outro com um violino, outro ainda com uma música na mão. Era a orquestra que ia tocar num dos passos. Ali o andor parava, dando as quedas do ritual. A multidão arrojava…

Cercava a imagem um grupo de soldados de cavalaria com espadas desembainhadas. No tempo da monarquia, seguia-se um batalhão.

A oficialidade da Guarda Nacional oferecia um pitoresco muito da época, na procissão dos Passos. Era um dia grande para esses militares porque lhes ofereciam ensejo de mostrar o garbo do fardamento. Mas, havia alguns que não tinham nada desse garbo, e apareciam em público com umas fardas mal ajustadas aos bustos, as espadas tronchas, os bonés de banda. Mesmo assim iam exultantes de entusiasmo, de marcialidade. Máxime quando ouviam voz feminina, na multidão, apontando-os:

– Lá vai seu Anacleto da botica, feito major.

– Nem parece aquele de mangas de camisa, hein, Licota?

– E seu Augusto do açougue da Cabanga, de general.

– Que general, menina! Ele é coronel!

– Vai besta mesmo!

Eles sorriam, aprumavam-se ainda mais, punham a mão no punho da espada ou endireitavam o penacho.

A procissão ia desaparecendo aos olhos daquela gente. Calçadas se esvaziavam. A música tocando mais distante a marcha típica em que sobressaíam o bombo e os pratos. Anjos voltavam com cara de quem traz os pés a arder, a curiosidade satisfeita e o sono perto. Nos dedinhos as cestas de bolos vazias. Irmandades desciam a ponte apressadas, com as opascheias pelo vento, tremulando, tremulando… E o sino do Corpo Santo a afirmar: “Já chegou… já chegou… já chegou.”

Todos tinham aquela impressão misto de cansaço, de saciedade, de tristeza, de fastio que deixam as festas acabadas e os espetáculos que de antemão já se sabe serem sempre iguais. A própria emoção religiosa estava gasta. Maxambombas apitavam, bondes de burro tornavam a se mover.

Depois da procissão ia-se correr os passos armados aqui e acolá, uns em nichos especiais, outros em portas de sacristias, todos enfeitados de flores e cheios de luzes. Era o da Conceição dos Militares, do Arsenal de Marinha, da rua do Crespo, dos fundos do Corpo Santo…

Dentro das casas as visitas demoravam. Havia sempre um velho fraque preto e calça branca que evocava a procissão do seu tempo. “Aquelas, sim, faziam gosto”. E pormenorizava: Varriam-se as ruas de manhãzinha, punham-se folhas de canelas. Nas janelas colchas de seda e tapetes de pelúcia. As moças usavam vestidos aperta-barriga, muito em moda. As velhotas vinham à rua de “timão”, com balandraus de capuz. Saía dos baús muito traje ruço, fedendo a azeite, rapé e barata. Os escravos ajoelhavam-se pelos caminhos. Os palanquins traziam as damas lordes da Trempe, do Mondego, do Chora Menino, de Fora de Portas. Formavam as tropas com seus penachos verde-amarelo e suas bandas vermelhas. Depois do pálio, o presidente da província, o comandante das armas, o bispo, os juízes, os oficiais. Tantos anjos! As vestideiras não davam conta das encomendas.

– Aquilo é que era procissão. Hoje…

A conversa tomava outros destinos. As senhoras comentavam os vestidos das amigas e conhecidas. Não tinham gostado de D. Nana com aquelas mangas de babados. E a blusa de Mariquinhas com uma gola de veludo espantadíssimo! Maria da Anunciação, do Dr. Carrapateira, botara saia comprida. Tinham visto?

– Também, está em tempo, minha gente. Ela nasceu com o meu Elpidinho. Fez 15 anos…

Sorrisos e olhares de malícia. Ainda houve tesouradas no passarinho do chapéu de D. Quitéria Gameleira.

– Não se enxerga.

– Da minha idade.

– E não é? Em vez de botar logo capota, anda com chapéus daqueles…

Vem da cozinha um cheirozinho agradável de carne guisada e de pirão com bem manteiga. Simulava-se vontade de ir embora.

– Fiquem para jantar.

– Qual! Tanto incômodo!

– Que nada! Agora o trem está muito cheio, comadre Isabel.

– Um horror… Cada empurrão…

– E depois as afoitezas. Com essas meninas…

– Tinha graça. Saírem daqui de barrigas vazias.

Ficavam, como nas procissões anteriores. A rua cada vez mais escura, mais quieta, mais silenciosa. Os próprios passos atraíam menor curiosidade.

Últimos grupos de retorno às casas. E a frase invariável, insatisfeita, incisiva:

– Eu gostei muito mais do ano passado.

(SETTE, Mário. Maxambombas e maracatus)

 

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