Jangada Brasil, nº 7, março de 1999: Oficina – Vocabulário da Jangada

O vocabulário da jangada

Mestre: Piloto da jangada e o primeiro pescador. Tem a responsabilidade da navegação, escolha dos pesqueiros, duração da tarefa. Leva o remo de governo na mão e a linha de corso amarrada na coxa, sentado no banco de governo ou de mestre. Tem direito até a quarenta e cinco porcento do pescado. É a autoridade real da jangada. Mestre é para mandar. Quem é mestre deve saber…

Proeiro: Segunda pessoa da jangada. É quem puxa o peixe na linha de corso. Substitui o mestre doente ou impossibilitado do comando. Fica à sua direita nos espeques e aí pesca. O pescado do proeiro é marcado por uma ponta da cauda cortada.

Bico de Proa: Terceiro pescador da jangada. Substitui o proeiro. Marca o peixe que lhe é destinado cortando as duas pontas da cauda.

Contra Bico: Quarto e último homem na jangada. Pesca na proa e marca o peixe cortando uma parte da cabeça.

Pau de Jangada: Jangadeira. Tiliácea, Apeiba tibourbou, Aubl. Gabriel Soares de Souza, em 1587, foi o primeiro a descrever o pau de jangada: – “Apeiba é uma árvore comprida, muito direita, tem a casca muito verde e lisa, a qual árvore se corta de dois golpes de machado, por ser muito mole: cuja madeira é muito branca, e a que se esfola a casca muito bem; e é tão leve esta madeira, que traz um índio do mato as costas três paus destes de vinte e cinco palmos de comprido e da grossura da sua coxa, para fazer delas uma jangada para pescar no mar, à linha; as quais árvores se não dão senão em terra muito boa. “Apeiba”, contração de a-pe-iba, significa “árvore de flutuar” e tibourbou semelhantemente “pau que flutua ou bubuia” (Pirajá da Silva, notas à Notícia do Brasil, 2º, 70). O pau de jangada é exportado do Pará e por Alagoas, vindo do município de São Miguel dos Campos, considerado o melhor “boeiro”, que bóia e certas partidas cearenses são acusadas de “madeira alagada”. Chamam-na ainda embira branca e pente de macaco.

Mastro: O único mastro da jangada é feito de gororoba, camassari ou conduru e mede de cinco a seis metros. São estas madeiras recomendadaspela resistência e flexibilidade. Durante a pescaria, largado o tauaçu ou a fateixa, enrola-se a vela no mastro, retirando-o do banco. Deitam-no apoiado no banco de vela e na forquilha dos espeques. A vela é uma influência estrangeira? Os portugueses não a encontraram no Brasil no século XVI. Havia no Pacífico, segundo Nordenskiold. Se desceu pelo Amazonas, vinda do Peru ou Equador, não deixou rasto. Deduzo, entretanto, que a vela já estava aplicada à jangada na quarta década do século XVII, no litoral do nordeste brasileiro.

Vela: As jangada usam uma vela única, triangular, latina de algodãozinho. Os indígenas tupis chamavam-na “língua branca”, cu-tinga, pela sugestão de sua forma. O almirante Alves Câmara encontrou na Bahia, em 1888, jangadas com duas velas e dois mastros: uma quadrangular, maior, e outra pequena e triangular, num mastro de vezena inclinado para vante e escorado ou amarrado no aracambuz e esquepes atuais. O tamanho da vela é relativo à altura do mastro. Os mestres põem o mastro no solo e riscam a futura vela na areia, marcando o desenho com fios e cobrindo o espaço com faixas de pano que vai sendo cortado e cosido dentro das dimensões fixadas. O trabalho mais sério é “entralhar” ou “palombar” a vela. Consiste em cosê-la com fio encerado em cera de abelha, e que se chama “coberta”, enfiado na agulha de palombar, à uma corda de macambira, carrapicho ou cabo de manilha, de três quartos. A corda, que se denomina “envergue”, sofreu um processo de prova, exposta vinte e quatro horas ao sol, esticada entre os coqueiros e com um tauaçu pendente, para que não encolha, fazendo a vela ficar “sacuda”, com sacos, com bolsos, diminuindo a superfície de exposição ao vento. A vela fica cosida com pontos de duas polegadas de distância de um ao outro. Depois de “entralhada” é levada para “envergar” no mastro. Referia-se a pôr a vela na verga que não existe nas jangadas. A parte superior da vela é a “testa” e o restante “corpo”. Os vértices são “guinda”, o superior; “punho”, o mais saliente e “amura” ou “mura”, o inferior. Os grandes mestres de jangada governavam olhando apenas a vibração do vento na “testa” da vela. O segredo da jangada corredeira está no entralho da vela. Os portugueses não encontraram o uso da vela nas embarcações indígenas brasileiras. No Pacífico, o piloto Bartolomé Ruiz viu, em 1526, nas águas do Equador, uma grande bolsa com vela quadrangular e já utilizando a bolina: Dos mástiles o palos gruesos, colocados en el centro del buque, sostenian una gran vela cuadrada de algodón, mientras que un grosero timón y una especie de quilla hecha com una tabla encajada entre los maderos facilitaba al marinero el que diese dirección a esta clase de buque, que seguia su curso sin la ayuda del remo. É a mais antiga menção. No Brasil, o primeiro registro gráfico é um desenho na Brasilae Geographica & Hydrographica Tabula Nova, etc de Jorge Marcgrav, 1643, num desenho. Vê-se uma pequeníssima jangada com um só negro pescador, usando a vela quadrangular, suspensa duma carangueja. Tenho a convicção do uso da vela nas jangadas, já em 1635, e possivelmente a bolina, como quilha móvel e o remo de governo. Sem a vela, como registraram os cronistas quinhentistas, a jangada apenas fazia a pesca próxima à costa. Arriscar-se ao mar aberto, com direção deliberada e domínio do vento só seria possível com aparelhagem que hoje conhecemos: vela, bolina e remo de governo. E há documentação destas viagens, em 1635. Resta apurar se nos veio do Pacífico, via Amazonas, onde não deixou vestígios, dando explicação à vela redonda da jangadinha de Marcgrave, em 1643, ou seria influência direta e imediata, e lógica das embarcações portuguesas, vindas de Portugal, e as construídas no Brasil sob a sua técnica.

Botar prá maré: Ir pescar.

Dar de vela: Voltar das pescaria. É a ordem de “largar”, findando o trabalho.

Encalhar: Botar prá cima, arrastar a jangada para terra enxuta, fazendo-a deslizar em cima de rolos de coqueiro. É operação diária e sempre delicada e nem todos sabem encalhar com precisão e limpeza. Durante a noite o mestre avisa sua chegada soprando o búzio, pedindo o auxílio aos companheiros que encalharam anteriormente.

Búzio: Búzio era outrora empregado pelos jangadeiros, chamando os fregueses, anunciando peixe fresco quando as jangadas chegavam à praia. Continua usadissimo em quase todas as praias do Rio Grande do Norte para avisar a aproximação das jangadas ou canoas durante a noite. O som é prolongado e rouco atrai infalivelmente os pescadores que ajudam encalhar a jangada ou recebem encomendas ou recados trazidos. No Ceará, denominava-se atapu.

(CASCUDO, Luís da Câmara. Jangadeiros)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Copyright © All rights reserved. | Newsphere by AF themes.