angada Brasil, nº 7, março de 1999: Colher de Pau – A presença da cachaça na vida dos mineiros

A PRESENÇA DA CACHAÇA NA VIDA DOS MINEIROS

 

Costuma-se repetir aquilo de que o vinho alegra o coração do homem, como está no salmo 103, versículo 15. E também se pode citar, a propósito, o poeta do Rubayat [1]. Ouçamo-lo: “Dizem-me: – Não bebas mais, Káyyám / E eu respondo: Quando bebo ouço o que dizem as rosas, as tulipas e os jasmins. Ouço mesmo o que me não pode dizer a minha bem amada!…” Se não alegra o coração, o vinho mitiga ao menos a pena de viver. É lastimável a embriaguez? Sim, é. Mas, ouçamos ainda Káyyám: “Considera com indulgência os que bebem até à embriaguez / Lembra-te que tens defeitos maiores / Se queres conhecer a paz e a serenidade, pensa nos miseráveis que padecem os piores infortúnios e… acabarás por jugar-te feliz“.

Não estamos defendendo a bebida. Somos mesmo abstêmios, não em homenagem à virtude, mas por disposição da nossa natureza particular. Temos, no entanto, de reconhecer que não faltou razão a quem disse nada haver mais triste que duas pessoas sentadas em frente de uma garrafa de água mineral. Disse-o um poeta paulista. Martins Fontes [2], em conferência sobre “A alegria”, e indagava, lealmente, sinceramente, já houve alegria sem bebida? – Não pode haver, respondia. Quando a sabedoria popular diz que alguém está alegre, é porque, na certa, esse alguém bebeu.

Uma das últimas reflexões escritas do romancista W. Somerset Maugham, já nonagenário, foi esta: “Quando tiverem alcançado a minha idade descobrirão que às seis da tarde a vida começa a tornar-se um tanto difícil; mas, se tomar um pouco de whiskey, enfrentar a noite fica bem mais fácil“.

A cachaça, como o vinho, alegra o coração. Sobretudo o do homem pobre, que tem no copo o seu remédio de males. A cachaça dos cem nomes não é só o aperitivo de virtudes muito apreciadas, mas ainda um poderoso estimulante para levantar as energias. Para levantá-las até o limite em que as abaixa e anula, sempre que provoque embriaguez de segundo e terceiro graus. Abaixa e degrada, muita vez, como aconteceu nos tempos bíblicos do patriarca Noé. Esse homem justo e perfeito, que achara graça diante do Senhor, aplicou-se depois do dilúvio à vida agrícola, plantou uma vinha e, tendo bebido do vinho, embebedou-se e apareceu nu na sua tenda. Ficou o exemplo para os que bebem sem moderação.

Bebe-se muita pinga em Minas? Bebe-se. Pinga boa, a de muitas partes do estado. Pinga da cabeça. E muita, muita pinga detestável, na maioria dos casos.

A produção de cachaça no país, foi de trezentos milhões de litros, o que representa trezentas doses por ano para cada brasileiro maior de idade. A informação é de Realidade, ano I, nº 1, 01/04/1966. Existem registrados hoje, no Brasil, uns vinte mil nomes de caninha e já a temos exportado para a Itália, Antilhas Britânicas e Alemanha.

Logo que se descobriram as Minas, e a pouco se começarem a povoar, instalaram-se engenhos de moer cana e destilar aguardente. Informado de que tais engenhos eram prejudiciais aos interesses da Real Fazenda, por ocuparem numerosas pessoas mais úteis em outros misteres, etambém porque perturbavam o sossego público em razão das desordens causadas por negros bêbados, Sua Majestade proibiu que se instalassem novos engenhos. A aguardente devia ser importada das capitanias de São Paulo e Rio de Janeiro, onde não havia mineração, e também do Reino. Expediram-se sucessivas ordens nesse sentido, que não foram executadas com a devida exação. Multiplicavam-se os engenhos e engenhocas e rara era a fazenda, mesmo pequena, onde não os havia. Vendia-se por isso a aguardente a um preço ínfimo. [3] Em nosso tempo, já em fase importante da economia canavieira, com a montagem de engenhos centrais e usinas, as tradicionais engenhocas das velhas fazendas mineiras limitaram-se a fabricar rapadura e aguardente, e a própria rapadura vem sendo abandonada aos poucos. Só a aguardente dá resultado compensador. E cachaça nunca faltou no mercado, por mais que aumente a sede dos seus consumidores.

É de crer que sempre se bebeu muita cachaça no país, se bem que as opiniões de alguns viajantes divirjam nesse particular. O reverendo Robert Walsh achou que o brasileiro era pouco dado à bebida. A cachaça, escreveu ele, “salutar antídoto contra os efeitos do frio e da umidade“, era consumida pelos negros ou pelos marinheiros estrangeiros. Isto com referência ao observado no Rio de Janeiro, George Gardner, vindo depois, corroborou de certo modo essa opinião. Andando por Liverpool, disse, vira em poucos dias mais ébrios do que encontrara entre brasileiros, pretos e brancos, durante cinco anos de viagem. Pareceu-lhe o brasileiro muito mais temperante no beber que no comer e muito mais inclinado ao rapé que ao fumo.

Viajando por Minas, em 1840, notou Gardner, todavia, o uso imoderado da cachaça na região de Diamantina, e não só entre os pretos, que tinham motivos de sobra para ingerirem ácool com freqüência, mas entre os brancos de ambos os sexos, em todas as camadas sociais, os quais lhe pareceram também largamente viciados. Viu contudo poucos casos de embriaguez.

Richard Burton referiu-se também à nossa cachaça. “A aguardente, disse, citando o Dr. Johnson, é bebida de heróis e aqui os homens bebem heroicamente a sua cachaça; o resultado é a hepatite, a hidropisia e a morte!” Seu emprego lícito, aduziu, é no banho depois de insolação ou para afastar os incômodos insetos. Reconhecia que, bebida com moderação, especialmente em manhãs frias e tardes úmidas, fazia mais bem do que mal. O homem do povo, francamente a seu favor, reconhecia-lhe as virtudes de refrescar o calor, aquecer o frio, secar o úmido e umedecer o seco. Bons pretextos – se acaso fossem necessários – para um gole. O hospedeiro brasileiro, geralmente, mandava ao seu hóspede uma garrafa dela com a tina de água quente, para o banho.

Gardner não mentia: os diamantinenses granjearam a fama de amigos da pinga e ainda a conservam em nossos dias. Exigência do clima frio, provavelmente. Pelo norte de Minas correm estes versinhos folclóricos:

Montes Claros dá toucinho
Bocaiúva dá feijão
Buenópolis dá dinheiro
Diamantina dá pifão

Os diamantinenses, ao menos os dotados de senso de humor, não o negam. Como aquele que cantava:

Na Diamantina nasci
É minha terra, pois não
Bebendo pinga cresci
E hei de morrer no pifão

Aires da Mata Machado Filho cita no seu livro Arraial do Tijuco, Cidade Diamantina os versinhos de um coreto que, no dizer dos antigos, era cantado pelos pretos de São João da Chapa:

Oia como bebe
Esse povo do Brasil
Inxuga um garrafom
Mai depressa qu’un funi

Não era melhor que a de Diamantina a fama de Ouro Preto. O Zé da Fé, popular tipo de rua, sempre bêbado, cantava pelas ladeiras vilarriquenses versos satíricos que estudantes lhe sopravam, como estes:

Os moços desta cidade
São como os velhos daqui
Bebem demais, é verdade
Não passam sem parati

Seria porém totalmente injusto restringir a fama às duas tradicionais cidades de Minas, outrora celebradas pela urbanidade de suas populações. Houve época, não distante, em que geralmente se bebia mais do que hoje. Pode-se afirmá-lo, não com o fundamento em dados estatísticos, que não existem, mas pelo testemunho até certo ponto aceitável dos mais velhos. Eram comuns e numerosos os casos visíveis de embriaguez, observados em lugares públicos. Muito mais comuns do que hoje. Os viciados de condição humilde eram apontados como “cachaceiros” e os que mereciam consideração social recebiam a qualificação atenuada de “etílicos“.

Não se praticava desportos. Tirante as festas religiosas e as conversas no adro das igrejas, a única distração que se achava fora da casa era na mesa dos botequins, baiúcas mal instaladas e pouco limpas, quase sempre. Passava-se aí, e à noite nos bordéis, a chamada vida de boêmia, cara aos amigos do copo e da estúrdia, aos estudantes vadios, aos artistas impecuniosos e aos literatos in herbis, que também os havia.

Terra de boêmios foi a Vila Rica de fins do século passado e princípios deste. A frígida garoa serrana convidava ao gole. Como em Diamantina. E havia outro motivo: a cataduratristinha da cidade como que incitava a matar o bicho da melancolia. Pretextos? Claro que sim. Há sempre pretexto para se tomar um trago. Pelas voltas de 1860, ou proximidades, “existia em Ouro Preto uma sociedade composta de muitos homens de posição, denomidada Nossa Senhora dos Tombos, devota de Ceres e Baco, tendo procissões anuais da pragmática, além das que efetuava em benefício das Vendas Novas e que consistiam em esvaziar em uma só noite todos os líquidos que vinham para o primeiro sortimento“. [4]

Os botequins tinham fregueses até às tantas da madrugada. Era preciso que o botequineiro, quase sempre um italiano, despejasse os retardatários: “Per favore, signori… Bisogno dormire.” Fora, esmurravam a porta, recalcitrantes: “Abra para mais um traguinho! Abra, seo carcamano!” vociferavam. “Ainda temos dinheiro para comprar toda essa m.!” Urinavam-lhe na porta, alagando o passeio, com escândalo das velhas beatas, rebuçadas em xales pretos, que àquela hora matinal se dirigiam para a missa das cinco.

Bebia-se laranjinha, conhaque, rum, genebra, aniz, vinho e outros líquidos alcóolicos. A cerveja que se consumia era da melhor qualidade, importada da Alemanha e da Inglaterra (marcas Einbeck, Pá, Guiness e Porter), não faltando também as de fabrico nacional, marca barbante, assim chamada a inferior, cujas garrafas tinham as rolhas presas por meio de barbantes. As boas marcas nacionais só apareceriam em fins do século passado.

O vinho que se importava de Portugal em pipas e quartolas costumava ser escandalosamente falsificado pelos comerciantes. Por causa disso houve em Ouro Preto um conflito que deixou lembrança duradoura na história da cidade. O caso é que um representante da Higiene Pública, o doutor Campos da Paz, empreendeu saneadora campanha contra os vendedores de vinhos falsificados. Penetrava em armazéns, examinava o material das garrafas e barris e, se adulterados, mandava-os quebrar e derramar o liquido nas sarjetas. Ardeu Tróia! O comércio protestou, gritou, alvoroçou-se. Ataques ao médico higienista. Colocados ao lado da autoridade, os estudantes da Escola de Farmácia, em represália, promoveram uma manifestação de desagravo. Quando o cortejo passava pela praça Tiradentes, foi atacado inopinadamente por numerosa massa de capangas assalariados e por caixeiros das casas comerciais, adredepreparados para o assalto. Levantaram-se paralelepípedos da calçada. Tiros, pedradas, porretadas. Entreveros a socos e pontapés. Comparece a polícia militar, distribuindo pranchadas a torto e a direito. Resultado do conflito, que durou minutos: um comerciário morto e inúmeros feridos.

Por aquele tempo, em todo o país, importava-se de Portugal e outras partes da Europa muito vinho que se falsificava aqui, e da mesma procedência vendiam-se artigos alimentícios, como por exemplo a manteiga, já em mau estado de conservação.

Dizem os amigos da caninha que só quem não bebe é sino e ovo, sino porque tem o ventre para baixo e ovo porque é cheio. E a caninha bebe-se pura ou misturada, lisa ou queimada, em grogues, ponches e batidas. À queimada se dá também o nome de quentão, bebida quente, como o nome diz, forte, com ou sem gengibre – o grogue nacional por excelência. O melhor ponche é o preparado com laranja azeda, aguardente e açúcar, e a batida mais apreciada é a de aguardente com limão e, modernamente, com uma camada de gelo moído. Para as bandas de Januária, terra de famosa aguardente, dá-se o nome de pitoresco à cachaça fervida com açúcar mascavado, servida em cuités nas festas de casamento, batizado, etc. Quem toma cuitezadas do pitoresco é chamado folião e quem não toma é dito quelementes. O folclorista Manuel Ambrósio [5], de quem recolhemos a informação, não explica o porquê do nome quelementes.

Muitos amigos da caninha preferem bebê-la temperada ou misturada. A mistura pode ser com gengibre, ruibarbo, umburana, junça, xarope, vermute, aniz, bitter ou fernet. Pede-se no balcão “parati com goma“, isto é, um xarope adocicado em que entram gotas de bitter ou fernet. A cachaça engana a fome. Para não relaxar o estômago, o freqüentador de botequim pode beber dilatadamente a sua branquinha acompanhando-a de nacos de lingüiça frita na hora, o que lhe permite ir longe nas suas libações.

Notas:
1. Rubayat de Omar Kháyyám, versão portuguesa de Otávio Tarquínio de Sousa, Rio de Janeiro, 1938.

2. Citado por Leonardo Mota, Sertão Alegre, Belo Horizonte. 1928, p.124.

3. Ver ‘Instrucção para o governo da Capitania de Minas Gerais’ por J. J. Teixeira Coelho, in Revista do Arquivo Público Mineiro, VIII, p. 558.

4. Albino Esteves. O teatro em Juiz de Fora. Juiz de Fora, 1910, p. 33.

5. Brasil interior. São Paulo, 1934, p. 126

(FRIEIRO, Eduardo. Feijão, angu e couve)

 

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