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| CANCIONEIRO: Nesta seção, textos sobre
música regional; literatura de cordel; cantos de trabalho; poesia popular; desafios;
romances; cantos religiosos; quadras, pasquins... |
HISTÓRIA DO CAVALO QUE DEFECAVA DINHEIRO |
Numa cidade distante
Antigamente existia
Um duque velho invejoso
Que nada o satisfazia
Pois desejava possuir
Todo objeto que via
Esse duque era compadre
De um pobre muito atrasado
Que morava em sua terra
Num rancho todo estragado
E sustentava seus filhos
Tendo vida de alugado
Se vendo o compadre pobre
Naquela vida apertada
Foi trabalhar num engenho
Longe da sua morada
Na volta trouxe um cavalo
Que não servia pra nada
O pobre disse à mulher:
Como é que se há de passar?
O cavalo é magro e velho
Não pode mais trabalhar...
Vamos inventar um plano
Pra ver se o querem comprar
Foi na venda e de lá trouxe
Três moedas de cruzado
Sem dizer nada a ninguém
Para não ser censurado
No fiofó do cavalo
Fez o dinheiro guardado...
Do fiofó do cavalo
Ele fez um mealheiro
Saiu dizendo: Sou rico
Inda mais que um fazendeiro
Porque possuo um cavalo
Que só defeca dinheiro
Quando o velho duque soube
Que ele tinha esse cavalo
Disse pra vela duquesa:
Amanhã vou visitá-lo...
Se o animal for mesmo assim
Faço jeito de comprá-lo
Chegou, salvando o compadre
Muito desinteressado:
Compadre, como lhe vai
Onde tanto tem andado?
Há dias que eu não lhe vejo...
Certo que anda melhorado
É quase certo, compadre,
Ainda não melhorei
Porque andava por fora
Faz três dias que cheguei
Mas breve farei fortuna
Com um cavalo que comprei
Se for assim, meu compadre
Você está muito bem
É bom guardar o segredo
Não dizer nada a ninguém...
Me conte qual a vantagem
Que este seu cavalo tem!
Disse o pobre: Ele está magro
Só tem o osso e o couro
Porém, tratando-se dele
Meu cavalo é um tesouro
Basta dizer que defeca
Níquel, prata, cobre e ouro!
Aí chamou o compadre
E saiu muito vexado
Para o lugar onde tinha
O cavalo defecado
O duque ainda encontrou
Três moedas de cruzado
Aí exclamou o duque:
Só pude achar estas três...
Disse o pobre: Ontem, de tarde
Ele botou dezesseis
E até já tem defecado
Dez mil réis mais de uma vez
Enquanto ele está magro
Me serve de mealheiro
Só tenho tratado dele
Com babuge de terreiro
Porém, depois dele gordo
Não há quem vença dinheiro!
Disse o duque: Meu compadre
Você não pode tratá-lo
Se for trabalhar com ele
Com certeza é para matá-lo...
O melhor que você faz
É vender-me este cavalo
Meu compadre, este cavalo
Só posso negociar
Só se for por uma soma
Que dê bem para eu passar
Com toda a minha família
Sem precisar trabalhar
Disse o duque: Meu compadre
Assim não é que se faz
Nossa amizade é antiga
Do tempo de nossos pais
Dou-lhe seis contos de réis!
Acha pouco? Inda quer mais?
Compadre, o cavalo é seu
Eu nada mais lhe direi...
Ele, por esse dinheiro
Que agora me sujeitei
Para mim nem foi vendido
Faço de conta que dei...
O duque, pela ambição
Que era descomunal
Deu-lhe os seis contos de réis
Tudo em moeda legal
Depois, pegou no cabresto
Saiu puxandoo animal
Quando ele chegou em casa
Foi gritando no terreiro:
Eu sou o homem mais rico
Que habita no mundo inteiro
Porque possuo um cavalo
Que só defeca dinheiro
Pegou o dito cavalo
Botou-o na estrebaria...
Milho, farelo e alfafa
Era o que o bicho comia
O velho duque ia vê-lo
Dez, doze vezes por dia
Logo no primeiro dia
O duque desconfiou
Porque na presença dele
O cavalo defecou
E ele, remexendo tudo
Nem um tostão encontrou
Aí, o velho zangou-se
Começou logo a falar:
Como é que meu compadre
Se atreveu a me enganar?
Eu quero ver, amanhã
O que ele vem me contar
Porém o compadre pobre
Bicho de quengo passado
Fez depressa um outro plano
Inda mais bem arranjado
Esperando o velho duque
Quando viesse zangado
O pobre foi na farmácia
Comprou uma borrachinha
Depois mandou encher ela
Com o sangue de uma galinha
E ficou olhando a estrada
Para ver quando o velho vinha
O pobre disse a mulher:
Faça o trabalho direito
Segure essa borrachinha
Amarre em cima do peito
Para o velho não saber
Como o trabalho foi feito
Quando o velho aparecer
Na volta daquela estrada
Você começa a falar
E eu grito: Mulher danada!
Quando ele aparecer
Eu lhe dou uma facada
Porém eu dou-lhe a facada
Em cima da borrachinha
E você fica lavada
Com o tal sangue de galinha
E eu grito: Está danada
Nunca mais come farinha!
Quando ele ver você morta
Parte para me prender
Eu, então, digo pra ele:
Eu dou jeito a ela viver...
O remédio eu tenho aqui
Faço para o senhor ver!
Eu vou buscar a rabeca
Começo logo a tocar
Você, então, se remexe
Como quem quer melhorar
Com pouco, diga: Estou boa
Já posso me levantar
Foi-se acabando a conversa
E, na mesma ocasião
O duque veio chegando
Aí travou-se a questão:
O velho pegou a faca
Botou a mulher no chão
Aí o duque gritou
Quando viu a mulher morta:
Você está preso, bandido!
E tomou conta da porta...
Disse o pobre: Eu vou curá-la
Pra que é que o senhor se importa?
Correu, foi ver a rabeca
Começou logo a tocar...
De repente, o duque viu
A mulher se endireitar
Depois dizer: Estou boa
Já posso me levantar
O duque ficou suspenso
De ver a mulher curada
Porém como estava vendo
Ela muito ensanguentada
Corregeu ela e não viu
Nenhum sinal de facada
O pobre,entusiasmado
Lhe disse: Já conheceu?
Quando esta rabeca estava
Nas mãos de quem me vendeu
Tinha feito muitas curas
De gente que já morreu...
No lugar que eu estiver
Não deixo ninguém morrer
Como eu adquiri ela
Muita gente quer saber
Mas ela me está tão cara
Que não me convém dizer
O duque, que tinha vindo
Somente propor questão
(Porque o cavalo velho
Nunca botou um tostão)
Quando foi vendo a rabeca
Quase morre de ambição
Compadre, você desculpe
Eu ter-lhe tratado assim...
Agora estou mais que certo
Que eu mesmo fui o ruim
Mas olhe: a sua rabeca
Só serve bem é pra mim...
Como sabe, eu sou um homem
De muito grande poder...
O senhor é muito pobre
Ninguém o quer conhecer
Perca o amor da rabeca
Responda se quer vender...
Porque a minha mulher
Também é muito estouvada
Mas eu, comprando a rabeca
Dela não suporto nada
Se quiser teimar comigo
Também dou-lhe uma facada!
Ela se vê quase morta
Sente medo do castigo
Mas eu, com esta rabeca
Salvo ela do perigo
E ela, daí por diante
Não quer mais teimar comigo
Responde o compadre pobre:
O senhor faz muito bem
Quer me comprar a rabeca
Não venderei a ninguém
Custa seis contos de réis
Por menos, nem um vintém!
O duque, muito contente
Disse, de si para si:
A rabeca já é minha
Eu preciso a possuir...
Ela para mim foi dada
Ele nem soube pedir...
Pegou a rabeca e disse:
Vou já mostrar à mulher...
A velha zangou-se e disse:
Vá mostrar a quem quiser
Eu não quero ser culpada
Do prejuízo que houver
O senhor mesmo é um velho
Avarento e interesseiro...
Que é que fez do tal cavalo
Que defecava dinheiro?
Meu velho, dê-se a respeito
Seja menos trapaceiro!
O duque, que confiava
Na rabeca que comprou
Disse a ela: Cale a boca
A coisa agora virou:
Dou-lhe quatro punhaladas
Já você sabe quem eu sou!
Ele findou as palavras
A velha ficou teimando
Diz ele: Velha dos diabos
Você inda está falando?
Deu-lhe quatro punhaladas
E ela ficou arquejando...
O velho duque, ligeiro
Foi buscar a rabequinha
Ia tocando e dizendo:
Acorde, minha velhinha!
Porém a pobre da velha
Nunca mais comeu farinha...
O duque estava pensando
Que a mulher inda tornava
Ela acabou de morrer
Ele ainda duvidava
Depois então conheceu
Que a rabeca não prestava...
Quando ele ficou ciente
Que a velha tinha morrido
Botou o joelho em terra
E deu tão grande gemido
Que o povo daquela casa
Ficou tudo comovido
Ele dizia chorando:
Este crime hei de vingá-lo!
Seis contos desta rabeca
Com outros seis do cavalo...
Eu lá não mando ninguém
Eu mesmo quero matá-lo...
Mandou chamar dois capangas
E seguiu no outro dia
Prendeu o compadre pobre
Trancou-o numa enxovia
Para exercer a vingança
Da forma que pretendia
Disse ele aos dois capangas:
Me faça um surrão bem feito
Façam isso com cuidado
Quero ele um pouco estreito
Com uma argola bem forte
Pra levar esse sujeito
Quando acabarem a coisa
Mandem este bandido entrar
Para dentro do surrão
E acabem de costurar
E levem para o rochedo
Sacudam dentro do mar
Os homens eram dispostos
Findaram no mesmo dia...
O pobre entrou no surrão
Pois era o jeito que havia
Botaro o surrão nas costas
Saíram numa folia...
Adiante, disse um capanga:
Não aguento o rojão
Já estou muito cansado
Botemos isto no chão
Vamos tomar uma pinga
Arriemo o tal surrão
Lembrou bem, meu companheiro
Vamos tomar a bicada
Falou o outro capanga
Respondendo ao camarada
E seguiram para a venda
Que ficava além da estrada
Quando os capangas seguiram
O preso ficou dizendo:
Não caso porque não quero!
Me acabo aqui, padecendo!
A moça é milionária
Mas o resto eu bem estou vendo...
Foi passando um boiadeiro
Quando ele dizia assim
O boiadeiro pediu-lhe
Arranje isto pra mim...
Eu não me embraço que a moça
Seja boa ou seja ruim!
Continua o fazendeiro:
Eu dou-lhe, de mão beijada
Todos os meus possuídos
Que vão aqui na boiada
Fica o senhor como dono
Pode seguir a jornada
Ele, condenado à morte
Não fez questão, aceitou
Descozeu o tal surrão
Nele o boiadeiro entrou
E o pobre, morto de medo
Num minuto o costurou
O pobre quando se viu
Livre daquela enrascada
Montou-se num bom cavalo
Tomou conta da boiada
Saiu por ali dizendo:
A mim não falta mais nada!
Os capangas nada viram
Que o serviço foi ligeiro...
Pegaram dito surrão
Com o pobre do boiadeiro
Jogaram de serra abaixo
Não ficou um osso inteiro!
Fazia dois ou três meses
Que o pobre negociava
A boiada, que lhe deram
Cada vez mais aumentava...
Foi ele, um dia, passear
Onde o compadre morava
Que quando o duque viu ele
De susto empalideceu:
Compadre, por onde andava?
Só hoje me apareceu?
Muito me engano, ou você
Já é mais rico do que eu!
Aqueles seus dois capangas
Voaram-me num lugar
Eu saí de serra abaixo
Até a beira do mar
Ali vi tanto dinheiro...
Quase não posso ajuntar!
Quando me faltar dinheiro
Eu prontamente vou ver...
O que trouxe não é pouco
Vai dando para eu viver
Junto com minha família
Passarei até morrer
Compadre, sua riqueza
Diga que fui eu quem dei!
Mas, para recompensar-me
Tudo quanto lhe arrumei
É preciso que me bote
No lugar que eu lhe botei!
Disse-lhe o pobre: Pois não!
Estou pronto pra lhe mostrar
E é mesmo com meus capangas
Nós mesmos vamos levar
E o surrão, de serra abaixo
Sou eu que quero empurrar...
O duque, no mesmo dia
Mandou fazer um surrão
Depressa meteu-se nele
Já cego pela ambição
E disse: Compadre, estou
À sua disposição!
O pobre foi procurar
Dois cabras de confiança
Se fingindo satisfeito
Fazendo a coisa bem mansa
Só assim ele podia
Tomar a sua vingança
Saíram com o velho duque
Na carreira, sem parar
Subiram de serra acima
Té o mais alto lugar
Dali soltaro o surrão
Deixaro o velho embolar...
O duque ia pensando
De encontrar muito dinheiro
Porém sucedeu com ele
Do jeito do boiadeiro
Que, quando chegou embaixo
Não tinha um só osso inteiro...
Aprenda lá quem quiser
Neste mundo viver bem
A desmedida ambição
Decerto que não convém!
Em cima do que possui
Ninguém arrisca o que tem!
(Em Mota, Leonardo. Violeiros
do norte; poesia e linguagem do sertão nordestino. 3ª ed. Fortaleza, Imprensa
Universitária do Ceará, 1962, p.153-168) |
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