Maio
2001
Ano III - nº 33 |
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A FESTA DO DIVINO
ESPÍRITO SANTO E SUA ORIGEM |
Nossa popularíssima festa do Divino
Espírito Santo não é comum a todo o Brasil. Além do Rio Grande do Sul, onde é
comemorada com festejos populares em algumas localidades, especialmente Porto Alegre, -
celebram-na ainda em Santa Catarina, mas não em todo o estado, em parte do estado de São
Paulo, Espírito Santo e, segundo Luís da Câmara Cascudo (comentários à obra Festas
e tradições populares do Brasil, de Melo Morais Filho. 3ª edição, Rio de Janeiro,
1946), "era festa querida, especialmente no Sul (Santa Catarina e Rio Grande
do Sul) Minas Gerais, São Paulo, Rio de Janeiro. Na Bahia era festejada
igualmente".
Hoje, porém, só parte de São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul celebram a
grande e tradicional festa do Divino. Mas não esqueçamos que também em algumas
localidades do estado do Espírito Santo fazem celebrações ainda hoje.
Todos os núcleos coloniais, antigas colônias, desses estados onde se tornou predominante
à população de origem não portuguesa e onde, por várias razões, como no nordeste,
centro e centro-norte do Brasil, influíram fatores alienígenas e indígenas (africanos e
índios principalmente), a festa do Espírito Santo passou sem deixar vestígio, ou nunca
foi comemorada popularmente.
No Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina, Minas Gerais, Espírito Santo e Rio Grande
do Sul, onde a população de origem portuguesa e sobretudo açoriana se fez sentir, a
tradição dos festejos populares em honra do Divino Paráclito conservou-se por muito
tempo em alguns, e em outros, como entre os sul-riograndenses, perdura ainda com a mesma
intensidade embora já muito diferente, em tudo, de suas origens e comemorações até
fins do século passado, ou, como em São Paulo, onde ainda se realizam as velhas folias
dos açorianos e antigos portugueses do continente. Em outros recantos do país não mais
se realizam, tendo a tradição desaparecido. No estado do Espírito Santo, por exemplo, a
festa do Divino, segundo Cristiano Fraga (Folclore, nºs 7-8, Vitória,
julho-outubro de 1950), foi proibida pela igreja e pela polícia. Diz ele textualmente,
falando da antiga festa e de sua proibição:
"Os de agora não cantam mais, e por música levam apenas o grosso tambor de maceta,
que logo silenciam ao chegar a uma casa, calados, cheios de poeira e limpando o suor. A
gente simples do povoado dá-lhes alguma moeda, café e até almoço ou jantar. O
estandarte é levado às pessoas da casa para beijar e para rodar por todos os cantos com
fim de trazer boa sorte e afastar os malefícios. Tais romeiros são entretanto, as
mais das vezes, simples patuscos finórios, dispostos a farrear alguns dias à custa da
comida e do dinheiro alheio. Por isso a proibição da igreja e da polícia nos últimos
anos, tem feito desaparecer esse último e esfarrapado vestígio da tradicional
festividade".
Mas em outros lugares, como em Portugal, talvez seja o principal culpado da
"morte" dessa tradição multi-secular a famosa secularização tão
amaldiçoada e comentada pelo Conde dAurora... (Roteiro da Ribeira Lima. 2ª
edição, Porto, 1939).
As festas populares do Espírito Santo foram instituídas pela rainha Santa Izabel de
Aragão e el rei dom Diniz, lá pelo ano de mil duzentos e tantos, logo após seu
casamento com a rainha santa. Teve essa festa por berço a então vila de Alemquer, de
onde se irradiou por todo o continente português, instalando-se definitivamente e com
raízes profundas, no arquipélago dos Açores desde o início de seu povoamento regular.
Dessas ilhas teve prioridade na instalação da festa a ilha de Santa Maria, que na
primeira metade do século XV já a celebrava com brilho e pompa.
Assim, enquanto na zona continental os festejos perdiam o antigo esplendor e entusiasmo,
nas ilhas mais e mais se incrementavam e intensificavam.
Em 1492 foi erguido o melhor império da ilhas, em Angra do Heroísmo, ilha
Terceira, sob a invocação do Paráclito.
A pouco e pouco foram os impérios se renovando, com arte e luxo, procurando cada
ilha tê-lo maior e melhor. Era em frente desses impérios, - capelas dedicadas e
consagradas ao Espírito Santo, - que se dava o bodo, isto é, a distribuição de
alimentos aos pobres no dia do Divino. Esta parte era a essencial da festa e se realizava
após a missa festiva. À tarde havia procissão e, à noite, luminárias.
No século XVI o programa das festas foi ampliado já no primeiro quartel, sendo
introduzida cerimônia especial para o peditório, para a guarda da coroa, procissão e
outros pormenores exteriores. Foi quando o simples peditório para o bodo passou a
denominar-se folia, observando ritual extra, ritual este que também no Brasil, em
particular no Rio de Janeiro, São Paulo, Santa Catarina e Rio Grande do Sul (interior e
arredores da capital), bem como no Espírito Santo, foi observado com mais ou menos rigor.
Em parte ainda o observam hoje em certos lugares do interior de São Paulo.
Compreendia, a folia, a composição de um terceto, quarteto ou quinteto de
músicos, no geral violino (rebeca), viola ou guitarra, pandeiro e ferrinhos, e mais
outros tantos não músicos, para auxiliarem a cantoria e receberem óbulos.
Esse grupo, com vestuário característico quase sempre, - chapéu que parecia mitra
episcopal, tocando e cantando, percorriam as ruas da localidade pedindo a esmola para a
celebração da festividade e distribuição do bodo.
O cancioneiro dessas folias era interessante e pitoresco não raro, conforme se
pode verificar pelo que ficou conservado através a tradição e os
"reminiscentistas" daqueles tempos:
Ajunte-se gente toda,
A quem nós queremos tanto;
Vamos buscar a coroa
Do Senhor Espírito Santo.
Lá vem o Espírito Santo
Mais alvo do que um cristal;
Dera-lhe o vento das asas,
Começara a voar...
Nossa Senhora das Neves,
Eu no vosso adro estou!
Botai-me a vossa benção
Que sem ela me não vou.
Abri-vos portas do céu,
Com muito grande alegria!
O Divino Espírito Santo
Está em nossa companhia.
Deus vos salve, casa santa,
De Jesus acompanhada,
Onde está o cális bento
Mais a hóstia consagrada.Bendito e louvado seja
O Santíssimo Sacramento,
Pois Ele é pai dos Anjos
E dos Anjos alimento.
Divino Espírito Santo
Senhor de ceptro e coroa,
Vós na terra sois Pombinha,
No céu Divina Pessoa.
Estas sete quadras são as populares, tradicionais, das folias do Divino nas
Ilhas dos Açores. Há, entretanto, muitas outras, ocasionais e consagradas a cada caso
especial, como a visita aos conventos, casas de saúde, autoridades e outras, que também
já se tornaram tradicionais, muitas delas.
De ilha para ilha estas quadras variam. Muitas, porém, das acima transcritas são comuns
a todas. A sétima, por exemplo, veio parar no Brasil, levemente alterada. Cita-a Melo
Morais Filho (ob. cit.) nas antigas folias do Rio de Janeiro:
Meu Divino Espírito Santo
Divino e celestial,
Vós na terra sois pombinha,
No céu pessoa real.
No Rio Grande do Sul tivemos notícias de quadras que teriam sido, outrora, cantadas ao
voltar a folia ao Império. Devemos notar que entre nós, ao que parece, pois não
encontramos referência alguma, o termo folia não foi usado. Em lugar dele,
porém, empregavam a palavra bandeira, - a Bandeira do Divino vai chegando; - a
Bandeira vai passando, - para designar não só o estandarte mas, por extensão, o
conjunto ou grupo dos que faziam e, ainda hoje, fazem o peditório, não mais cantando,
mas soltando foguetes...
As quadras a que nos referimos, cantadas no Rio Grande do Sul, foram-nos comunicadas pelo
sr. Joaquim Saturnino dos Santos Paiva, falecido no ano de 1938 com mais de 80 anos de
idade. Esse senhor bastante ilustrado e antigo jornalista, foi secretário na última fase
do Partenão Literário. Note-se a semelhança e mistura de versos com as citadas
açorianas:
Bendito e louvado seja
O Divino Espírito Santo!
Que festeje a gente toda
A quem nós queremos tanto!
Ó Divino Espírito Santo,
Santa pomba divinal,
Abençoai vossos fieis
Na vossa festa terreal.
Em São Paulo, segundo Belmonte (Tradições paulistas: A festa do Divino. DEIP,
São Paulo, sd), entre muitas outras canta-se a quadra seguinte, entoada por ocasião do
peditório, e que também possui reminiscência das velhas quadras açorianas, citadas por
Gabriel de Almeida (Fastos Açorianos. Lisboa, 1889) e Luís da Silva Ribeiro (Os
foliões do Espírito Santo nos Açores. Angra do Heroísmo, 1942):
O Divino Espírito Santo,
Não pede por precizá;
Quem pede são seus devoto,
Que lhe querem festejá.
No Rio de Janeiro, segundo Melo Morais Filho, cantavam assim:
O Divino é muito rico,
Tem brasões e tem riqueza,
Mas quer fazer sua festa
Com esmolas da pobreza.
E no Rio Grande do Sul, conforme o já citado senhor Santos Paiva, cantavam, entre outras
que o informante não recordava, a seguinte:
O Divino Santo Espírito
É senhor da terra e céus;
Mas quer que a festa se faça
De esmolas dos filhos seus.
Não temos certeza se as quadras citadas, fornecidas a nós pelo senhor Santos Paiva,
foram por ele ouvidas em Porto Alegre ou na cidade do Rio Grande, onde viveu por longos
anos como funcionário da Alfândega. Faleceu em 1938 como arquivista aposentado da
Prefeitura Municipal de Porto Alegre. Pertenceu ao Partenão Literário, última fase,
tendo sido, segundo declarou, o último secretário da ilustre entidade desaparecida pouco
antes da proclamação da República.
Do que eram as folias do Divino no interior do Rio Grande do Sul na segunda metade
do século passado, diz-nos Luís Araújo Filho (Recordações Gaúchas. 2ª
edição, Porto Alegre, 1905):
"Já com sol alto, ao treparem uma pequena coxilha, avistaram ao longe um grupo de 20
a 30 pessoas, a pé e a cavalo, que avançava vigorosamente no sentido oposto ao em que
eles iam. Em vista dos acontecimentos da noite os viajantes sentiram uns certos assomos de
desconfiança, mas, pelo rumo que traziam os do grupo, em breve se fez a calma, quando o
piá Nadico afirmou ter ouvido uns sons como toque de tambor e avistou entre as pessoas
uma bandeira. Era o Divino. (...) Folia chamava-se, como se sabe, o
ato de tirarem esmolas de casa em casa, pela campanha, e foliões os indivíduos
que disso se ocupavam, - quase sempre quatro, representando uma comparsa de música sacra,
do seguinte modo: alferes da bandeira, que era quem a carregava e era o chefe do
serviço, desempenhando também a parte de tenor; um tocador de viola, outro de
rabeca, que faziam de barítono e contra baixo, e um que tocava tambor e cantava
com voz de tiple. Este era sempre menino. Às vezes acrescentavam um pandeiro.
Esta era a genuína folia, a dos antigos. Os foliões eram sempre bem
esperados e ainda melhor recebidos. Os moradores, com as respectivas famílias, iam
encontrá-los a uma certa distância, e a dona da casa tomava das mãos do alferes
a bandeira, que empunhava com santo recolhimento, sem dizer nada aos recém-vindos".
Ao chegarem à casa do homenageado, iniciavam as cantorias: primeiro, o peditório,
depois, o agradecimento e, se a hora não permitia irem além, acrescentavam o pedido de
pousada e, no dia seguinte, ao reencetarem o itinerário, novo agradecimento.
O citado autor, Luiz Araújo Filho, cita as seguintes quadras relativas a cada
"ato":
Peditório:
Aqui chegou o Divino
Que a todos quer visitar
Vem pedir-vos uma esmola
Pra o seu império enfeitar.
O Divino Espírito Santo
Não pede por carestia,
Pede somente uma esmola
Pra festejar o seu dia.
Agradecimento:
O Divino Espírito Santo
Agradece a sua oferta
Que lhe deram seus devotos
Para fazer sua festa.
O Divino agradece
Aos senhores e senhoras,
E também aos inocentes,
Que lhe deram sua esmola.
Pousada:
A Pombinha do Divino
De voar já vem cansada,
Vem pedir aos seus devotos
Que lhe dêem uma pousada.
Despedida ou novo agradecimento:
O Divino Espírito Santo
Vai seguir sua jornada,
Agradece os seus devotos
Que lhe deram esta pousada.
Se despeçam, nobre gente,
Que a Pombinha do Divino
Vai seguir sua jornada
Visitar outros vizinhos.
"Os moradores, - continua a informar-nos Luís Araújo Filho, - acompanhavam a folia
até longa distância e, se havia casa perto, iam até lá; e assim sucessivamente de casa
em casa, iam os foliões percorrendo municípios e comarcas, arrecadando as
dádivas dos devotos: dinheiro, jóias e coisas de valor, que tudo era meticulosamente
entregue ao respectivo festeiro, sem quebra de um vintém, porque eles, além de honestos,
eram sustentados à tripa forra pelos habitantes que os hospedavam".
E conclui dizendo que "o andar dos tempos devia trazer consigo grave transformação
nestes costumes, e os foliões de hoje, de cuja probidade muita gente duvida, se não
têem calos devem ter pelo menos bem bons arranhões na consciência no tocante à
arrecadação".
Isso há, pelo menos, cinqüenta anos. Hoje... para que comentar?
Como se vê, a tradição conservou mais ou menos, até certa época, o antigo ritual das folias
açorianas, inclusive os bandos com instrumentos musicais. Por uma fotografia de fins do
século passado, que nos foi gentilmente oferecida, verificamos que também no Rio Grande
do Sul, - a fotografia é de um peditório nos arredores de Porto Alegre, - Belém Velho,
- a folia existiu, embora com outro nome, acompanhada dos seguintes instrumentos:
gaita de fole e violões. Dançavam, também, como se verifica dessa fotografia.
Mas, a pouco e pouco, tudo se foi modificando e os alegres cânticos de outrora foram
substituídos pelos... incríveis foguetes de nossos dias! E isso até mesmo em plena
cidade e não somente nos subúrbios.
Quando a festa do Divino Espírito Santo recebeu a organização nova, as folias
com cânticos e músicas, - houve oposição e restrições às festividades por se
tornarem demasiado mundanas: o bispo dom Frei Valério do Sacramento, em 1774 tentou
terminar com as festas "proibindo as folias e bailes do Espírito Santo".
Nada, porém, conseguiu além de algumas reformas, pois o povo se opôs tenazmente às
ordens do senhor bispo.
Houve ainda outras tentativas idênticas, mas todas sem resultado: a festa era exigida e a
própria Câmara Municipal isso nos Açores, - intervinha implorando a graça de
ser celebrada como de costume. E as ordens episcopais, assim, eram relaxadas em parte,
tratando-se, apenas, de evitar abusos e demasias mundanas: luxos, bailes e exibições
cômicas, como acontecia muitas vezes.
Aliás, a primeira proibição da festa do Espírito Santo nas ilhas dos Açores, data de
1523, anterior à introdução do instrumental nas folias, pois que estas somente
em fins do século tiveram maior incremento no continente de onde, pouco depois, passaram
às ilhas.
A razão dessa primeira proibição foi a seguinte: o povo, cuidando excessivamente dos
luxos nessas festas, fazia com elas e nelas gastos que, não raro, levavam os senhores da folia
(festeiros) à ruína. O luxo e a ostentação nos jantares em honra do Divino e a riqueza
do bodo alarmou o governo e daí a proibição decretada por dom Manuel que, mais
tarde, em 1559, nas constituições do bispado insulano dizia, reforçando, em parte, a
proibição anterior: - "Que se não fizessem impérios, imperadores e imperatrizes
em muitas domingas porque gastavam em comidas e festas o que não têem; e em algumas
partes fazem diversos imperadores, e o que é pior com diversas superstições se
encomendam ao Espírito Santo".
Mais adiante se proíbe a imperatriz: - "Que haja um só imperador, com pena de um
carretel de cera, pela segunda vez dobrada, e pela terceira um cruzado para cera e
vinho".
A festa, porém, continuou sempre e das ilhas veio para o Brasil, trazida, como é bem de
imaginar-se pelos casais açorianos que povoaram o Brasil Sul, em especial Santa Catarina,
a partir de 1748, e o Rio Grande do Sul, a partir de 1751, embora já muito antes casais
açorianos, avulsos, tivessem aportado e se instalado por todo este sulbrasílico, desde
1737.
Em São Paulo e no Rio de Janeiro, bem como em Minas Gerais, a origem da festa deve ter
sido continental, enquanto que no Espírito Santo parece-nos ter sido introdução
açoriana. No Ceará e no Pará também existiram núcleos povoantistas açorianos mas, ao
que parece, - pelo menos não encontramos referências, - em nada influíram, ou melhor,
foram totalmente absorvidos sem deixar maiores vestígios.
Para nós no Rio Grande do Sul, a festa do Divino Espírito Santo é uma das mais vivas,
senão a mais viva reminiscência açorita a par de muita cousa no linguajar de nosso
povo, conforme podemos verificar e registramos em nossos ensaios de curioso
"Arcaísmos portugueses na linguagem popular do Rio Grande do Sul" (Boletim
do Instituto Histórico da Ilha Terceira, v. V, Angra do Heroísmo, 1947), - e
"Influência e reminiscências do linguajar português dos séculos XVI a XVIII na
linguagem popular brasileira de nossos dias" (Anais do I Congresso de Historia da
Bahia, Salvador, 1950), entre outros.
Devemos, entretanto, notar que as modernas festas do Espírito Santo nada mais têm das
que se celebravam nos séculos XVI a XVIII, e nem das do século XIX. A festa tão somente
religiosa (coleta, missa, bodo, procissão), passou a ter partes profanas a partir do
século XVI: bailes públicos, no adro da igreja ou na rua, além de peditórios com
cantorias. Proibidos os bailes, tiveram início às representações, ou autos já usados
em algumas ilhas que nunca adotaram os bailes. Com novas tentativas de proibição e
reformas, as festas se organizavam na praça fronteira ao império, à noite,
durante três dias consecutivos, com músicas, cantos, leilões e "outras
prendas", que tinham início na véspera do dia do Espírito Santo com a coroação
do imperador (ou festeiro), cerimônia que também foi usada entre nós até 1889.
Com a proclamação da República, a coroa caiu... com dom Pedro II, e o imperador
do Divino também começou a usar... barrete frígio, ou cousa semelhante, por medo dos
famosos "históricos" e valentões do novo regime...
Mas o império ficou e o imperador da festa do Divino continua, mesmo porque o
Divino nada tem que ver com a política... Em todo o caso, para evitar confusões,
denomina-se Imperador-festeiro.
Bom seria, entretanto, que se restabelecesse o antigo cerimonial da coroação, o bodo
e as luminárias, sem as profanidades introduzidas ainda mais recentemente, com a
da visita da bandeira a certas casas duvidosas, onde são esfregadas nas camas
pouco dignas para... trazer sorte e bons "coronéis", ou pelos prados
(atualmente Jóqueis) e respectivas cocheiras, onde a bandeira do Divino é posta (não
sabemos se ainda fazem isso, mas vimos tais sacrilégios mais de uma vez...) sobre os
cavalos e éguas de corrida para dar sorte ao feliz proprietário dos animais!
É que, modernamente, na Irmandade do Divino Espírito Santo existem até pessoas
católicas...
Isto no Rio Grande do Sul, em Porto Alegre.
Por tudo isso, queremos crer, voltar ao passado seria viver vida nova e ... sã. Digam-no
aqueles que ainda crêem no Brasil, na sociedade e na moral cristã.
[1955]
(SPALDING, Walter. Tradições e superstições do Brasil sul) |
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