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Maio 2001
Ano III - nº 33

A B C DOS NEGROS

Este curiosíssimo abecedário foi colhido no Maranhão por Leonardo Mota e publicado no seu Sertão alegre, p. 218/221. É posterior a 13 de maio de 1888 e anterior a 15 de novembro de 1889.

Agora tocou a sorte
Dizer o que o peito sente,
Falar dos 13 de Maio
Que também querem ser gente.

Bacalhau de couro cru
Com três palmos de comprido,
É o que dá ensino a negro
Mode não ser atrevido.

Comendo peia no lombo
Negro vivia tossindo;
Mas hoje, como estão forro,
Do tempo vivem se rindo.

Do negro quero distância,
Apriceio o cidadão...
Abraço qualquer caboclo
Porém negro só pro Cão!

Entre mil nação da terra
O negro é o mais infeliz...
Não entra em Casa de Câimbra
Nem conversa com o Juiz...

Fugir pra negro é desbanque,
É sestro, é costume, é visso...
Anda sempre degradado
Só com medo do serviço...

Gosta só de pagodeira,
Se mete em toda função,
Mode ver se alguém lhe abraça
Ou se alguém lhe estende a mão.

Hoje negro quer ser home,
Quer carregar presunção...
Porém eu não lhe dou palha
Nem que seja meu irmão.

Inxerido e metediço,
Mesmo onde não é chamado,
Negro é sempre negro em tudo
Negro é bicho apresentado!...

Jogo de branco é dinheiro,
De caboclo é frecharia,
Vida de cabra é cachaça,
De negro é feitiçaria...

K é letra decadente
Meu mestre assim me dizia,
É como os "13 de Maio"
Mesmo depois da forria...

Lombo de negro não tem
Um só pedaço pagão;
Couro de boi o batiza
Pra minha satisfação.

Moça que casa com negro
Tem coragem com fartura,
Tem estambo de cachorro
E coração de mucura.

Nunca vi rasto de alma
Nem visage em meu camim...
Nunca vi mulher sem peito
Nem negro sem pituim...

O negro que pede moça
Só merece bacalhau
Negro que casa com negra
É cunha do mesmo pau...

Pará é terra de cobre,
Piauí pra criar gado,
Mas este tal Maranhão
É pra negro apresentado.

Quem disser "Bom dia" a negro
Não dá-se a respeito, não.
Não procede de família
Nem se dá a estimação.

Rico só dorme na rede,
Negro dorme no girau.
O rico toma café
E o negro engole mingau...

Semblante de negro é fumo
A cor é café torrado.
Mão de paca, pé de urso,
Calcanhar todo rachado.

Tudo no mundo se acaba
Tudo no mundo tem fim,
Só negro é que não se acaba
Por ser praga da mais ruim...

Um home tendo carate
Tendo vergonha e fineza
Não presta atenção a negro
Nem senta com negro à mesa

Viola desafinada
Não pode tocar lundu;
Manguá em costa de negro
É quem tira calundu...

Xambari de boi cansado
Era o que negro comia
Feijão cheio de gorgulho,
Fato cheio de polia...

Ypissilone é furquia
Tem do negro a perna torta;
Por isso é que ninguém usa
Tá ficando letra morta...

Zombando vou acabar
Este abecê tão querido
Que fala a pura verdade
Dos negros intrometido

TIL como é letra do fim
Por ser acento moderno,
Inda tenho fé de vê (r)
"13 de Maio" no Inferno!...


(CASCUDO, Luís da Câmara. Vaqueiros e cantadores)

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