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QUEIMA-CAMPO


"Queima-Campo", entre os caipiras, é o indivíduo que, a propósito de tudo, e até fora de propósito, tem um caso a contar, uma mentira engatilhada.

A origem do cognome é o caso de um indivíduo que, após a descrição de um incêndio de mata, em que o fogo pulou um rio e começou a queimar um campo, deixou a coisa nesse pé e pegou uma variante, descambando para outros casos noutros terrenos... Cada vez que o interrompiam perguntando pelo fogo, respondia ele: "o campo tá queimano" e assim varou a tarde, a noite, e, já noutro dia... "o campo tava queimano", e talvez, para ele, até hoje o fogo não tenha sido cercado.

MENTIRAS


Entre os caipiras a mentira, quase sempre, é um jogo de espírito.

Mentem por passatempo, para empulhar o próximo, principalmente se esse próximo é da cidade.

Depois de pregar meia dúzia de mentiras a um cidadão (homem da cidade) o caipira, no sítio, em festas, goza! Ri gostosamente, contando aos companheiros:

- Ah! Impuei um bobo da vila...Contei p’rele um delúvio de puia e o bocó aquerditô!

Há mentiras de troça e há mentiras de verdade...

Há caipiras mentirosos de uma fecundidade de imaginação assombrosa! Não sabendo escrever, não podendo escrever suas novelas e romances, criações próprias, o caipira desanda a mentir.

Mas o Joaquim Queima-Campo mente de verdade! Quer e faz questão de ser acreditado!

É de se ouvir e ver o ...


...JOAQUIM QUEIMA-CAMPO


É um caboclinho mirradinho, olhinhos vivos, barbica em três capões: dois de banda e um no queixo; bigodes podados a dente, desiguais e sarrentos; nariz de bodoque, aquilino, recurvo, fino, entre bochechinhas chupadas; dois dentões amarelos, os caninos, que só aparecem quando ri, quais velhos moirões de porteira abandonados; rosto em longo triângulo; cabeçudinho; cabelos emaranhados; orelhinhas cabanas, cada qual suportando o seu toco de cigarro, amarelentos e babados.

De camisa, de algodão riscado, aberta ao peito, deixa ver pendurada no magro pescoço de cordeveias salientes, uma penca de "bentinhos", favas de Santo Inácio e patuás com rezas que servem para "fechar" o corpo e evitar mordedura de cobras.

Baixinho, miudinho, desnalgado, perninhas finas e canelas luzidias, brilhantes ao reflexos do fogo, ao pé do qual nós reunimos todas as noites, o Joaquim Bentinho é um serelepe, espertinho e perereca...

Observei que, como os outros roceiros, traz uma das pernas da calça arregaçada mais alta que a outra. Porque será? Depois de muito maturar, descobri que é para evitar que o enrodilhado de uma perna se esfregue no outro, ao ser mudado o passo, rustindo e estragando a roupa...

Mas, vamos aos "casos"...

O leitor certamente conhecerá desde criança grande número dessas mentiras que se vão seguir... Mais não diga isso ao Joaquim Bentinho, que ele bufará, "danado de réiva"... O "caso" se deu com ele! E não há quem o convença do contrário.

Vamos pois as...

 

ESTRAMBÓTICAS AVENTURAS DO JOAQUIM BENTINHO – (O QUEIMA-CAMPO)

 

De como um tio de Joaquim Bentinho
faz um tiro assombroso

Nas palestras roceiras é muito comum a descrição de caçadas, em que se contam proezas do arco-da-velha, entre tiros de boca cheia e ladrar animado de cães imitados pelos caçadores.

Quando menos se espera, surgem casas em que há referência à armas "assombro de boas" e tiros raríssimos.

O Queima-Campo, ao ouvir qualquer narrativa verdadeira, arranja sempre uma entrada para aparar a conversa alheia, impingindo suas petas e puias.

– Tiro esquisito feis um meu tiu...

– Já vem já... - ameçou Nho Tomé.

– É de verdade! Se fô mintira, que caia um raio in mecê, agorica mêmo!

- In tu... - benzeu-se o velho.

– Nóis tava lidano no quintá, quano lá do terrero mea tia garrô gritá: - "Djente! O’i um gavião aqui quereno pegá frango! É um bitélo de um carancho!"

Nho tiu garrô na pica-pau...

– Co essa não, nho tiu, tá carregada cua bala só...

– Puis se eu mato cuitelinho cum bala, quanto mais carancho!

Saimo no terrero, Quando o carancho incastelô...aquilo foi: tinnn!

- Impacotô?

- Quá.. A bala num saiu!

- E então?

Nho tiu espiô drento da espingarda, a bala i-vinha-vino... ele indireitô a pontaria e o carancha murchô as asa...

– Matou, ainda?

- Ara, sê... Aquilo tiniu no chão!

A bala acertô bem no grão do zóio esquerdo!

- Hom-esta nem cum açucre... duvidou o velho Nho Tomé.

De como o Queima-Campo não morreu à míngua, vivendo sozinho no sítio, atacado de maleita, bexigas, e febre amarela, ao mesmo tempo.

– E ainda está vivo?!

Pra vacê vê! Quano Deus qué, inté o cadave de um defunto revive e perobêra é capais de dá bacaxi...

Eu móro sozinho no sítio, ua capuava na vorta do riu, na invernada, lugá que, in certos ano, dá maleite, in tudo!

Vacê vê, ali pro meio-dia, a cachorrada garra reuni perto do fogo, tudo ripiado, e garra tremê: é maleite!

Vacê vai no terrero, chega perto do cuiquero, vê a porcada tudo muntuado um riba d’outro, gemendo que nem gente: é maleite!

Vacê ove de repente uma búia de ramaiada chacuaiada no mato, vacê cuida que é caça u é o vento, vai vê; são as arve que tão tremeno... é maleite! Inté ninho de passarinho cae do gaio!

Tudo sofre maleite, cumo é que eu havera de escapá?

Um dia eu tava borrecido da vida, sentado no terrero, na pedra de afiá... A bixiga tava pipocano na villa e a febre marela tava lavrano nua toada... Eu já num tinha mais mantimento in casa...

I na vila? Não!

De repente oiei no ar, ansim: vinha dois bichinhos esturdio, avuano e brigano... viéro... viéro vino... viéro vino... e eu feito bobo, num corri...

Viéro brigano, brigano e... cran!... fincaro o ferrão no meu pescoço poco abaxo do Adão!

Matei os tar.

Vacê que sabe o que erum?

Dois micróbe, moço! Dois microbão, dos ligite!

Um, era bem marelo, verde no incontro das asa, barriga peluda, listrada; co as unha vorteada... Outro era cor de mardade, co a cacunda tudo pipocado...

Digo: tô morto! Já num chegava os arrepiu que já tava sintino da sezão...

Agora, tava pronto! Fanhoso e sem nari!

Fui pra drento, ponhei água ferveno na bacia, cinza, limão, ua foi de parma benta, um pôco de alecrim, um raminho de arruda, tomei um escarda-pé e se deitei.

Tive um febrão e gumitei preto.

No amiudá dos galo, garrei uvi um baruião fora de perposito.

Principiô cumo baruio de rebentação de pipoca in caçaroa tampado cum texto. Despois parecia queimada de capoêra onde tem taquará... Despois asvoroço e parecia baruio de mir cartêra de traque rebentano drento de ua lata... Pro fim já parecia bataria de festa do Divino...

Ô! Pros quinto!

Era a bixiga que tava rebentano!

Fiquei quéto na cama.

O que me valeu foi que ante de se deitá, ponhei um pote d’ àgua perto da cabecera da cama.

Tive sete somana deitado.

– Sem ter quem lhe fizesse um caldo? Interrompi, depoi de ouvi-lo desenrolar quase toda a corda da parolagem.

– Talequá.

– E não morreu de fome?

- Inté ingordei...

– É impossível!

- Parece mais num é. Eu iê conto. Eu tenho ua galinhada cumo num hai ótra; é ua raça de galinha muito inteligente, ladina... Vacê sabe que microbe num péga nas galinha, morde as pena e inté a galinhada faiz razôra neles.

Do meu quarto sahia aqueles inxame de microbe, que-nem bando de cafanhoto, a galinhada inchia o papo, avançano nos tar e não achava farta de mio...

– Que jeito tinham os micróbios?

- Tinha de uns que nem cafanhoto sem asa, sartão, erum fióte, cum cara de "cavalinho de Nosso Sinhó", boca de gente e um ôio só no meio da testa: esse reganhadinho era o tar da febre marela... Tinha otros que-nem manguizó, esse bichinho que nem éroprano, que véve avuano in riba das poça dagua, chamado, cum perdão da má palavra, lava-bunda: é os da maleite; e tinha uns esturdio, mistiço de barata cum pirnilongo, pampa na barriga e maiado na cacunda, que nem sapo; é os da bixiga...

– Mas ao caso: como é que você se alimentava?

- Já vai vê. Eu tava sozinho in casa. Defunto Fidencio pode contá pra vassuncê, se num aquerditá. Ele ia me vê tudo o dia...

- Mas diga logo: que é que você comia?

- Ah! Galinhada ladina e de bão coração é as que eu tenho!

As galinha, na hora de ponhá ovo, vinha ua, devagazinho, pra não me incomodá, trepava nos pé da cama, aninhava in riba da cuberta, botava o ovo e saia, desfarçano, e só no chegá no terrero é que garrava gritá: - "Já, ponhei... já ponhei!" Vinha outra e outra e, ansim, era tudo dia dúzia e meia...

– Bebia os ovos crus?

- Nhor não... Tava cua febre tão arta que ponhava um ovo in baxo de cada sovaco e: um minuto, bebia ovo quente... dois minuto, cumia ovo cuzido...

A caipirada, que a meu pedido não interrompera o Bentinho ao pé do fogo, não se pode conter:

- Sim, sinhor!

- Já é sê sem vergonha...

– Vá cumê furmiga...

(PIRES. Cornélio, Musa caipira; As Estrambóticas Aventuras do Joaquim Bentinho - o queima-campo)

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