À exceção de Hamburgo, na Alemanha, de
Londres, na Inglaterra, e da então Brooklyn, Nova Iorque, nos Estados Unidos, o Rio de
Janeiro foi um dos primeiros lugares do mundo a ter serviço de esgoto.
As primeiras experiências teriam sido realizadas na Casa de Detenção, em 1855, pelo
súdito britânico e major da nossa Guarda Nacional, John Frederick Russel (não confundir
com John Russel, que foi o primeiro-ministro da Inglaterra em 1850 ou com o irmão deste,
Lord Francis Russel, comandante da corveta Tweed, que aqui esteve por volta daquele
ano).
Dois anos depois dessas experiências, o decreto imperial nº 1929, de 29 de abril de
1857, concedeu-lhe privilégio exclusivo por 90 anos para "construir e estender todas
as obras necessárias para o estabelecimento de um sistema completo de despejos e esgotos
das habitações, semelhante ao adotado na Inglaterra".
Entre as prerrogativas e favores, gozaria o concessionário da isenção de impostos de
importação do material necessário e o direito de exportação para países
estrangeiros, também livre de impostos, de todo o estrume que preparasse nas suas
máquinas
Entretanto, nada de prático se fez, sendo a concessão transferida, a 20 de fevereiro de
1862, para a The Rio de Janeiro City Improvements Co. Ltd. (ou mais simplesmente a City,
como ficou conhecida), que iniciou imediatamente as obras, em grande escala, e inaugurou a
primeira etapa do serviço em fevereiro de 1864.
Até então, as águas servidas eram lançadas à via pública pelas janelas das casas.
Era esse um hábito generalizado, que o costume e até a lei permitiam, com a exigência
única do preventivo e generoso grito de "Água vai!"
É fácil, pois, imaginar-se o estado em que viviam os logradouros, com as suas valas de
escoamento de águas pluviais transformadas em verdadeiras cloacas.
Os dejetos e refugos domiciliares eram guardados em barris, que permaneciam nas
residências nos quintais, quando os havia até encherem. A remoção
fazia-se geralmente à noite, embora, muitas vezes, isso ocorresse durante o dia.
Transportados à cabeça por negros escravos, eram os barris levados para os terrenos
baldios ou para o mar, onde a imundície era despejada. Em tempos passados, a praça da
República era um vasto esterquilínio e depósito de materiais fecais.
John Luccock, comerciante inglês que morou no Rio de Janeiro de 1808 a 1818, conta que,
em alguns casos, esses barris eram levados a esvaziar diariamente, mas, noutros, somente
uma vez por semana, dependendo do número de escravos, porém sempre transportados já
sobremodo insuportáveis. Se acontecesse desabar um súbito aguaceiro, logo surgiam os
tais barris, despejavam-se-lhe o conteúdo em plena rua, deixando-se que a enxurrada o
levasse. Nas casas em que não houvesse esse utensílio, os detritos eram atirados ao
pátio, formando uma montoeira mais repugnante do que é possível a uma imaginação
limpa fazer idéia. E ali ficavam, ajudando a criar insetos e originando doenças, à
espera de que as chuvas pesadas do clima tropical os levassem. A água que caía no
pátio, depois de impregnada, corria para a rua, por meio de sulcos ou calhas que passavam
por debaixo do soalho da casa, ou para dentro de um poço escavado bastante fundo para que
se comunicasse com a camada arenosa inferior, em que se dissolvia ou através da qual uma
parte encontrava o caminho para o mar. "Cloacinas (latrinas) dizia Luccock
não possuem altar no Rio de Janeiro, e, em seu templo, usa-se uma espécie de pot-de-chambre".
Voltemos aos barris. O conjunto negro-barril informam Estélio Emanuel de
Alencar Roxo e Manuel Ferreira no excelente trabalho O saneamento do meio físico
fora apelidado de tigre, pois não menos assustadora do que a de uma fera se
afigurava, aos transeuntes das ruas desertas, de precária iluminação, a aproximação
de tais personagens, de cujo choque, involuntário ou proposital, podemos muito bem
imaginar as conseqüências
Joaquim Manuel de Macedo, autor do conhecido romance A moreninha, narra o seguinte
fato ocorrido em 1839 ("Ah! que não sei do nojo como o conte!" dizia
ele):
"Pouco depois das 20 horas, subia pela rua do Ouvidor um sisudo inglês, trajando
casaca preta, gravata branca e um chapéu patente, quando, subitamente, topou com
um tigre que descia, levando um barril para despejar no mar.
O pobre africano, ainda a tempo, recuou um passo; mas o inglês, que não sabia recuar,
avançou outro.
O tigre encostou-se à parede que lhe ficava à direita e o inglês, supondo-se
desconsiderado por um negro que lhe dava passo à esquerda, honrou o pobre africano
com um soco. Este, perdendo o equilíbrio pelo ataque inesperado, deixou cair o barril
para diante e, naturalmente, de boca para baixo.
O barril abismou em seu bojo o chapéu e a cabeça e inundou com o seu conteúdo a casaca,
o colete e as calças do inglês. O negro fugiu acelerado e a vítima de sua própria
imprudência, conseguindo livrar-se do barril, que o encapelara, lançou-se a correr
atrás do africano, sacudindo o chapéu em estado indizível e bradando furioso: Pegue
ladron! Pegue ladron!
Mas, qual "Pega ladrão!" Todos se arredavam do inocente e mal cheiroso negro
que fugia, e ainda muito mais do inglês, tornado de tigre pela inundação que
recebera. Foi geral o coro de risadas na rua do Ouvidor, àquela noite".
Conta, também, Manuel de Macedo, que certo francês (viajante charlatão), passando pelo
Rio de Janeiro e demorando-se aqui alguns dias, ouviu de patrícios queixas dos incômodos
tigres, que freqüentemente passavam pelas ruas, à noite. Sábio e consciencioso
observador que era, tomou nota do fato e, algum tempo depois, publicou no seu livro de
viagens esta importante notícia: "Na cidade do Rio de Janeiro, capital do Império
do Brasil, feras terríveis, os tigres, vagam, durante a noite, pelas ruas
"
(DUNLOP, C. J. Crônicas;
fatos, gente e coisas da nossa história) |


Cloaca Cano ou cova destinada a receber as
dejeções; Tudo que é imundo, que tem mau cheiro.
Consciencioso Escrupuloso, cuidadoso.
Esterquilínio O mesmo que esterqueira;
Imundície, impureza. |