Junho
2002
Ano IV - nº 46 |
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ESCOLA PRIMÁRIA
DE MENINAS EDUCAÇÃO DA MULHER NO BRASIL |
Pouca coisa tenho também a dizer sobre a
escola para as meninas. Em geral, no Brasil, pouco se cuida da educação das mulheres, o
nível de ensino dado nas escolas femininas é pouquíssimo elevado; mesmo nos pensionatos
freqüentados pelas filhas das classes abastadas, todos os professores se queixam de que
lhes retiram as alunas justamente na idade em que a inteligência começa a se
desenvolver. A maioria das meninas enviadas à escola aí entram com a idade de sete ou
oito anos; aos treze ou quatorze são consideradas como tendo terminado os estudos. O
casamento as espreita e não tarda a tomá-las. Há exceções, sem dúvida. Alguns pais
mais esclarecidos prolongam a permanência no pensionato ou fazem dar instrução em casa
até dezessete ou dezoito anos; outros mandam as filhas para o estrangeiro. Habitualmente,
porém, salvo uma ou duas matérias bem estudadas, francês e música, a educação das
jovens é pouco cuidada e o tom geral da sociedade disso, se ressente. Claramente, na
sociedade brasileira há mulheres cuja inteligência recebeu alto grau de cultura; mas a
minha afirmação não é menos verdadeira; são meras exceções e nem outra coisa
poderia ser com o atual sistema de educação; e as mulheres que o personificam sente
amargamente a influência deste sistema sobre a situação que para o seu sexo criam os
costumes nacionais.
Efetivamente, nunca conversei com as senhoras brasileiras com quem mais de perto privei no
Brasil sem delas receber as mais tristes confidências acerca de sua existência estreita
e confinada. Não há uma só mulher brasileira, que, tendo refletido um pouco sobre o
assunto, não se saiba condenada a uma vida de repressões e constrangimento. Não podem
transpor a porta de sua casa, senão em determinadas condições, sem provocar escândalo.
A educação que lhes dão, limitada a um conhecimento sofrível de francês e música,
deixa-as na ignorância de uma multidão de questões gerais; o mundo dos livros lhes
está fechado, pois é reduzido o número de obras portuguesas que lhes permitem ler, e
menor ainda o das obras a seu alcance escritas em outras línguas. Pouca coisa sabem da
história de seu próprio país, quase nada do de outras nações, e nem parecem suspeitar
que possa haver outro credo religioso além daquele que domina no Brasil; talvez mesmo
nunca haja ouvido falar da Reforma. Não imaginam que um oceano de pensamentos se
agita fora de seu pequeno mundo e provoca constantemente novas fases na vida dos povos e
dos indivíduos. Em suma, além do círculo estreito da existência doméstica, nada
existe para elas.
Estávamos um dia numa fazenda, quando avistei um livro em cima de um piano. Um livro é
coisa tão rara nos aposentos ocupados pelas famílias que fiquei curiosa em saber qual
seria o conteúdo daquele. Era um romance, e, ao virar-lhe as páginas, veio o dono da
casa e disse em alta voz que aquela não era uma leitura conveniente para mulheres.
"Aqui está (entregando-me um pequeno volume), uma excelente obra que comprei para
minha mulher e minhas filhas". Abri o precioso volulme, era uma espécie de pequeno
tratado de moral, cheio de banalidades sentimentais e de frases feitas em que reinava um
tom de condescendência e proteção à pobre inteligência feminina, porquanto, apesar de
tudo, as mulheres são mães dos homens e exercem um pouco de influência sobre sua
educação. Após essa mostra do alimento intelectual que lhes ofereciam, não me poderia
admirar que a esposa e as filhas do nosso anfitrião demonstrassem um gosto dos mais
moderados pela leitura. Nada impressiona tanto o estrangeiro como essa ausência de livros
nas casas brasileiras. Se o pai exerce uma profissão liberal, tem pequena biblioteca de
tratados de medicina ou direito; mas não sem vêem os livros espalhados pela casa como
objetos de uso constante; não fazem parte das coisas de necessidade corrente. Repito que
há exceções; lembro-me de ter encontrado, no quarto de uma jovem senhora cuja família
nos dera afetuosa hospitalidade, uma biblioteca bem escolhida das melhores obras de
história e literatura, em francês e alemão; mas foi o único exemplo desses que
encontramos durante um ano de permanência no Brasil. Mesmo quando as brasileiras
receberam os benefícios da instrução, há, em sua existência doméstica, tanta
compressão, tão pouco estão em ligação com o mundo exterior, que isso basta para pôr
obstáculo a seu desenvolvimento intelectual; seus prazeres são tão mesquinhos e raros
como meios de instrução.
Exprimindo essas duas verdades faço-me eco simplesmente de grande número de brasileiros
inteligentes que deploram esse estado de coisas, mau e perigoso, sem saber como
reformá-lo. E se, dentre os nossos amigos do Brasil, alguns que, baseados nos progressos
e transformações que se operam na vida social do Rio de Janeiro, ponham em dúvida a
exatidão de minhas asserções, tenho resposta bem simples para dar-lhes: é que não
conhecem as condições sociais das pequenas cidades do norte e do interior. Nunca vi em
parte alguma, para as pessoas do meu sexo, condição tão triste como a das mulheres
dessas pequenas localidades. É uma existência horrivelmente monótona, privada desses
prazeres sadios que proporcionam vigor; um sofrimento passivo, entretido, é verdade, mais
por falta absoluta de distrações do que por males positivos, mas que nem por isso é
menos deplorável; um estado de completa estagnação e inércia.
Além do vício dos métodos de ensino, há também uma ausência de educação doméstica
profundamente entristecedora: é a conseqüência do contato incessante com os criados
pretos e mais ainda com os negrinhos que existem sempre em quantidade nas casas. Que a
baixeza habitual e os vícios dos pretos sejam ou não efeito da escravidão, inegável é
que existem; e é estranho ver pessoas, aliás cuidadosas e escrupulosas em tudo o que se
refere aos filhos, deixarem-nos constantemente na companhia de seus escravos, vigiados
pelos mais velhos e brincando com os moços. Isso prova quanto o hábito nos torna cegos
mesmo para os perigos mais evidentes, um estrangeiro vê logo os perniciosos resultados
desses contatos com a grosseria e o vício; os pais não o percebem. Na capital, perigos
já são menores, pois todos os que conheceram o Rio de Janeiro há quarenta anos são
acordes em proclamar que notáveis melhoras se deram nos costumes sociais. Não devo
esquecer de dizer que a mais alta autoridade se pronunciou em favor da educação liberal
das mulheres. Todos sabem que a instrução das princesas imperiais não foi apenas
superintendida, mas mesmo, em parte, ministrada pessoalmente por seu pai.
(Agassiz, Louis. Viagem ao Brasil, 1865 1866. p.277-279) |
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