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Junho 2002
Ano IV - nº 46

O MILHO, VEGETAL FABULOSO

Têm-se a impressão de que, quando o criador criou o universo, ele previra que o planeta Terra seria habitado por criaturas que se classificam em duas classes: os que comeriam com fartura e os que viveriam na miséria. Isto porque já focalizamos a mandioca, vegetal denominado planta mata-fome, no capítulo intitulado – "A mandioca, vegetal mítico e miraculoso" – em que salientamos o curto ciclo vegetativo da mandioca, o seu elevado teor alimentício e a sua face mítica e miraculosa.

Hoje, apraz-nos focar outro vegetal mata-fome que se caracteriza, também, pelo ciclo vegetativo curto, seu teor nutritivo impressionante, sua abundância fabulosa e a sua face folclórica algo mítica: o milho.

O milho (zea mays L.), da família das gramíneas, originário provavelmente das regiões tropicais da América do Sul, de onde se espalhou pelas regiões subtropicais e temperadas do mundo, vem sendo cultivado em diversos países, inclusive o Brasil. É planta anual, caule erecto, que chega atingir até cinco metros de altura, sendo, por conseguinte, a maior das plantas cerealíferas. Coisa miraculosa: um grão de milho dá origem a um caule nodoso que é portador de uma e até três espigas-de-milho e cada espiga é portadora de centenas e centenas de grãos! Não há outro vegetal, se parece-nos, tão abundante em sua mesa! E tudo isso, essa abundância, verifica-se em menos de um ano!

No milho nada se perde: o seu caule maduro é alimento para o gado; seco, o caule é ótimo combustível, queimando-se com muita facilidade; os estigmas das suas flores hermafroditas são usados pela medicina oficial como poderoso diurético; os grãos são reservas de amido, glicose, açúcar-de-milho, o óleo-de-milho, que é um óleo gorduroso amarelo-claro de odoro e sabor característico; dextrinas, álcool industrial e diversas bebidas alcoólicas. As fibras da haste têm sido aproveitadas em alguns lugares na fabricação do papel. O caule, para combustível e como uma fonte de furfural, que se utiliza para solventes; explosivos, "nylon", matérias plásticas diversas e borracha sintética empregada ultimamente na produção de fibras artificiais com boa força de tensão e propriedades semelhantes às da seda. Os estigmas do milho, além de propriedades medicinais, cozidos, são um sucedâneo da cevada na fabricação de cerveja. A parte esponjosa do caule contém álcool e açúcar. Os grãos são muito nutritivos, com uma elevada proporção de carboidratos, gorduras e proteínas digestíveis. Servem de alimento para os animais domésticos em geral. O milho, industrializado para fins alimentícios, fornece o fubá, a canjica, a canjiquinha e a maizena. O fubá é o milho reduzido a pó e onde a culinária afro-brasileira é rica em pratos gostosos: o angu, o pão-de-milho, a broa, o mingau, o cubu, e que tais. O milho ainda verde é usado e ralado, dando origem a uma massa informe que é transformada num doce chamado de papa-de-milho-verde; substancioso e gostoso. A canjica é o grão de milho quebrado e bem cozido, misturado ao leite de coco e amendoim torrado é um prato muito gabado pela cozinha baiana. A canjiquinha é o grão de milho quebradinho que, bem cozido em água, se assemelha ao arroz; é por isso que é chamado "arroz dos pobres", visto que o arroz é um prato mais caro. O roceiro que tem milho armazenado no paiol tem a sua mesa garantida até a outra colheita vindoura desta gramínea fabulosa; visto que o milho, dentro de sua palha, é muito conservável.

Até a natureza foi zelosa para com o milho, pois suas espigas são envoltas em capas concêntricas de palha que resguardam os grãos-de-milho, protegendo-os contra as intempéries. Os grão acham-se enterrados num eixo cilíndrico feito de um tecido poroso que se chama, na linguagem popular, sabugo. Debulhada a espiga-de-milho, os sabugos não são atirados fora, pois a indústria aproveita-os na fabricação de celulose para o papel. Um pitoresco: nos sertões, onde não se conhecem a latrina e o papel higiênico, o roceiro utiliza-se do sabugo para "limpar-se..."

Na avalancha de produtos e subprodutos originários do milho, muito populares são a pipoca e a palha-de-milho. A pipoca é o grão-de-milho arrebentado ao fogo, que se comem com sal ou com mel, e vendida em pacotes interessantes, é fabricada num carrinho com arranjo especial, à vista do freguês. Há uma qualidade especial para o fabrico da pipoca: o milho-alho, onde o aproveitamento da pipoca é cem por cento, não deixando o carolo. Conhecem-se diversas qualidades de milho, conseqüentes de hibridação: branco, vermelho, amarelo, etc. A palha-de-milho é usada pelos roceiros fumantes para enrolar o fumo para o cigarro.

Os países, na produção mundial do milho, essa gramínea fabulosa, são, na proporção decrescente: Estados Unidos, China, Argentina, Brasil, Índia, México, África do Sul, Itália e URSS.

Focalizando-se um vegetal fabuloso, numa crônica folclórica não se poderia omitir à face mítica das origens do milho. Há duas lendas que propõem explicar as origens dessa fabulosa gramínea: uma, a pareci e outra, a guarani.

Lenda pareci: - Um grande chefe pareci dos primeiros tempos da tribo, Aimotarê, sentindo que a morte se aproximava, chamou seu filho Kaleitoê e ordenou-lhe que o enterrasse no meio da roça assim que terminassem os seus dias. Avisou, porém, que, algum tempo depois, rebentaria em sementes. Disse-lhe que não as comesse: guardasse-as para a replanta, e ganharia a tribo um recurso precioso. Assim se fez; e apareceu o milho entre eles.

Lenda guarani: - Dois guerreiros procuravam inutilmente caça e pesca e desanimavam de encontrar alimento para a família, quando um enviado de Nhandeiara (o grande espírito) dizia ser uma luta entre os indígenas a solução única. O vencido seria sepultado ali mesmo, e de sua sepultura nasceria uma planta que alimentaria a todos, dando-lhes de comer e beber. Lutaram os dois e sucumbiu Avati. De sua cova nasceu o milho, avati, abati, no idioma tupi.

Do México até ao Paraná, o milho é divizinado, personalizado por Mama Sara, sendo mesmo uma constelação: saramanca, folha-de-milho.

Depois da mandioca, o complexo etnográfico do milho é o mais vasto e com projeção folclórica pela culinária tradicional: pamonha, canjica, canjiquinha, mungunzá, pipoca, fubá, broa, espiga-de-milho verde assado, papa-de-milho-verde, farinha de milho, cuscuz, cubu etc. etc.


(Carvalho, Hernani de. No mundo maravilhoso do folclore, p.133-135)

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