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Junho 2001
Ano III - nº 34

SÃO PEDRO NA VOZ DO POVO
Comunicação de Hildegardes Cantolino Viana,
da Sub-Comissão Bahiana de Folclore, à CNFL

São Pedro, o santo das viúvas, vai a pouco perdendo terreno nos festejos de junho, as gerações novas consideram São Pedro mero complemento de São João e só as viúvas queimam fogueiras em louvor ao padroeiro.

No que tange às adivinhações, São Pedro ocupou e ainda ocupa lugar privilegiado. Sua palavra equivale a um oráculo. Com maiores credenciais que São João que, talvez por ser menino, de quando em quando prediz coisa que não se realiza.

Quem quiser ter confirmação do que foi predito na noite de São João, repete por São Pedro a mesma adivinhação. Se São Pedro confirmar não haverá dúvida quanto ao resultado.

Outrora as peças de fazenda traziam chumbinhos na beiras que eram aproveitadas para adivinhações de São Pedro. Benzia-se na fogueira uma vasilha cheia de água, derretia-se o chumbinho e jogava-se dentro, a forma que o chumbinho tomasse revelava o porvir.

Havia também o costume de benzer um copo com água na fogueira e ir com ele para detrás da porta da rua. Dizia-se assim: "Pedro! Pedro! Pedro! A Cristo 3 vezes negaste e logo te arrependeste. Numa lage de pedra te meteste. Lágrimas de sangue choraste. Ouviste uma voz na praia da Galiléia dizer: Pedro! Pedro! Pedro! Toma as chaves do céu. Estás perdendo. Assim como estas palavras foram certas e verdadeiras, mostrai-me por boca de inocente ou pecador, grande ou pequeno, muito claramente isto que peço... (neste ponto se fazia a pergunta)"

Tornava-se mister bater com o pé direito no chão toda as vezes que se pronunciava a palavra "Pedro". Terminada a oração rezava-se um Padre Nosso em intenção a São Pedro e bebia-se a água do copo tendo o cuidado de reter o último gole na boca. A resposta vinha antes da água aquecer.

Como ilustração contaram-se a seguinte história que tinha largo curso há cinqüenta anos atrás: Uma jovem andava receosa com a falta de pretendentes. Fazia adivinhações todo São João e nada saía que a pudesse elucidar. Era faca virgem na bananeira, espelho virgem no escuro, vela na água, laranja na fogueira e nada. Só uma ocasião saiu um véu de noiva na clara do ovo, indício remoto que tanto poderia ser casamento como mortalha. Desesperada, recorreu a São Pedro. Tomou um punhado de chumbos, benzeu a água e procedeu o ritual. Saiu a figura bem nítida de um homem, violino no queixo, de pé numa embarcação. No ano seguinte, já mais industriada, rezou a oração de São Pedro e ficou de trás da porta com a água na boca. Daí a instantes ouviu alguém ralhar com uma criança do vizinho: - Francisco! Francisco!... Que cabeça a sua!...

Passado algum tempo aportou a Salvador um navio trazendo um violinista de nome Francisco e que andava habitualmente com a cabeça inclinada para um lado. A demora do navio no porto ensejou o romance com a jovem casadoira, romance esse que culminou com o casamento.

Hoje esta oração é rezada mesmo fora de sua época e não só aos casadores tem aplicação. Fazem a reza às quintas-feiras, precisamente às 3 horas da tarde. Dispensam o copo de água, o bochecho e a porta. Ficam à janela, caladas, manhosamente, aguardando a resposta por boca inocente ou pecador.

O ano inteiro continua São Pedro firme no seu prestígio de chaveiro do céu. Tomo ao povo outros aspectos do porteiro celeste

São Pedro – anjo guardião

É comum, mesmo entre gente moça, colocar-se sob a guarda de São Pedro à hora de dormir: "Esta casa tem quatro cantos. Em cada canto tem um anjo – São Pedro, São Paulo, São Lucas e São Mateus. Ao centro Jesus Cristo e todos os seus. Com Deus me deito, com Deus me levanto, com os poderes de Deus e do Espírito Santo."

Tais palavras colocam qualquer mortal e seu lar fora do alcance de ladrões e malfazejos.

Alguns pedreiros quando sobem em andaimes, embora sob tom de pilhéria, repetem a quadra que ouviram em criança:

Subo a escada
Com um peso na mão
São Pedro, São Paulo,
São Martinho, São João.

A oração das três penas contra a erisipela é uma das provas de que São Pedro não esquece dos que se colocam debaixo de sua guarda. Com três penas de galinha (uma preta, uma branca, uma pedrez) e um pouco de azeite doce é rezada uma oração considerada pelos entendidos como miraculosa. Principia-se com a branca molhada no azeite: "Rosa Branca". Faz-se uma cruz sobre a enfermidade. Toma-se da preta: "Rosa preta". Faz-se outra cruz. Finalmente com a pedrez: "Rosa amarela". Mais uma cruz. Com as três penas juntas recomeça-se: "Rosa branca, rosa preta, rosa amarela. É da pele a carne, é da carne o osso, o osso é do defunto que lá ficará. Saiu Pedro e foi em Roma encontrar-se com Jesus Cristo. Jesus Cristo lhe perguntou: - Onde vais Pedro? – Vim de Roma e vou para Roma. Jesus Cristo perguntou então: - Que há por lá? Ele então respondeu: - Mal do monte e erisipela má. – Volte Pedro e com o óleo da minha oliveira te curarás mal de monte e erisipela má".

Reza-se um Padre-Nosso, uma Ave-Maria, sendo oferecidos a São Pedro pelos merecimentos que tenha junto a Jesus Cristo.

Mesmo nas rodas de viola São Pedro não é negligenciado. Haja vista essa em que a irreverência do violeiro vai longe:

Nosso Senhor
Quando andava
Pela cidade a passear
Gostava muito de ver
São Pedro numa viola
A pontear.
São Pedro dizia
Que a viola foi feita no desafio.

São Pedro serve de tema para as mais varíadas histórias em que seu temperamento é retratado sob os mais diferentes aspectos.

Deixá-los para tabaréu

Dizem que Jesus Cristo no princípio do mundo fazia gente na beira de um rio. Amassava o barro da terra com a água corrente, sovava demoradamente até conseguir uma liga apreciável e, depois de render graças, modelava primorosos bonecos, que ao sol, se transmudavam em criaturas humanas. São Pedro não se fartava de admirar e invejar as habilidades do mestre. Um dia aproveitando o momento em que Jesus Cristo recolhera-se para meditar, São Pedro fez uma massa as pressas e atabalhoadamente modelou alguns bonecos. Colocou-os para secar e correu para um canto para melhor reparar na surpresa do Salvador. A chuva veio e molhou os bonecos a ponto de amolecer as cabeças que estavam mais expostas. Quando sem poder refreiar a impaciência São Pedro anunciou que tinha feito gente, Cristo pediu para ver a sua obra. Pressuroso o Chaveiro do Céu trouxe o resultado do seu labor.

– Que é isso, Pedro?

- Gente, Senhor!

- Gente? Onde já se viu gente assim tão mal acabada. Que cabeças chatas! Que orelhas despregadas! Não pode ser, Pedro. Ou você não soube fazer ou a chuva amoleceu o barro.

– Foram ambas as coisas, Senhor! – confessou, humilde, o pobre velho. – Mas eu tinha tanta vontade de fazer gente!

- Lance os bonecos na água que preciso refazê-los. Assim como está é impossível aproveitá-los.

- Deixá-los, Senhor. Que sejam eles a minha criação.

– Mas onde colocá-los, Pedro? Onde poderá viver gente tão feia:

- Deixá-los para tabaréu, Senhor.

– É por isso são alguns tabaréus tão mal acabados.


Não é o que se gaba...

Jesus, São Pedro e a mãe de São Pedro andavam pelo mundo quando deram à casa de um ferreiro, sujeito contador de prosa, que começou a gabar-se. São Pedro para não ficar atrás passou a narrar mentiras e verdades, a cerca de suas habilidades. Aborrecido com aquele falatório inútil, Jesus Cristo, sem dizer palavra, agarrou a mãe de São Pedro, que dormitava a um canto, e levou-a à forja. Quando a viu em brasa, malhou-a até transformá-la em massa informe, ao fim de que recolocou-a na forja para de lá tirar momentos, depois, uma linda roça e graciosa. Os dois interlocutores entreolharam-se estupefatos.

– Não é o que se gaba o que melhor pratica – disse Jesus. Rendeu graças e foi dormir.

Daí a instantes, já esquecidos da lição do mestre, entraram de discutir novamente. O ferreiro para provar sua supremacia agarrou o primeiro pedaço de ferradura que lhe caiu sobre as vista e em dois minutos transformou-a em mimosa miniatura de coroa com um delicado rendilhado que mais parecia filigrama. São Pedro encheu-se de razões e disse: - Não é o que se gaba o melhor pratica:

Dito isso pegou na mão do ferreiro e tocou a malhá-la até vê-la verter sangue por todos os poros. Levou-a após à forja para de lá tirar um churrascado sapecado e cheirando a queimado. Cristo acordou a tempo de livrar São Pedro das garras do ferreiro que queria vingar sua mão. Tudo voltou ao normal quando Cristo fez voltar à forma antiga e à vida a velha senhora.

– Pedro! Não é o que se gaba o que melhor pratica. Que esta sirva de lição a quantos se orgulham dos dons que o Senhor lhe concedeu.


Tudo tem seu dia e sua hora

São Pedro e Jesus Cristo certa feita pediram pousada a um casal que morava num casebre à beira da estrada. Recebidos com carinho e agasalhados o melhor possível ficaram os dois a conversar baixinho enquanto o sono não chegava. Daí a momentos a mulher começou a sofrer as dores do parto e o marido sem recursos materiais implorava misericórdia ao Coração de Jesus que tinha na parede do quarto.

São Pedro observava com estranheza a indiferença de Jesus aos rogos que lhe eram dirigidos. Quando não pode mais ficar calado desabafou:

- Senhor, porque não despacha logo essa criatura. Está ela nessa gemedeira de cortar o coração e o marido a implorar...

– Tudo tem seu dia e sua hora. O momento não é chegado. Se duvida abra a janela.

São Pedro correu a abrir a janela e viu dentro da escuridão um jovem subindo para a forca e o casal desgrenhado a blasfemar contra Jesus.

Os minutos iam passando e a mulher cada vez a gemer mais. São Pedro impaciente voltou a interceder.

– Tudo tem seu dia e sua hora. O momento não é chegado. Se duvida abra a janela.

São Pedro tornou a espiar para fora e viu um louco apunhalando a mulher, enquanto o marido cego enlouquecia de dor.

São Pedro desistiu de pedir, comentando com seus botões que Jesus bem que poderia dar um jeito em tudo.

Ao alvorecer, depois de horas de tortura São Pedro ouviu do quarto vizinho o choro da criançinha que nascia.

– Tudo tem seu dia e sua hora. Chegou o momento. Se duvida abra a janela. São Pedro olhou para fora e deslumbrado viu uma linda missa de festa com um lindo moço padre a cantar. A um lado do altar o casal sorria e dava graças a Deus.

– Se eu aliviasse as dores da mulher e escutasse os rogos do marido fazendo a criança nascer antes da hora, amanhã eles chorariam lágrimas de sangue. O menino nasceria em má hora e teria má sina. Só agora o momento se mostrou propício.


Tal a mãe de São Pedro

Quando do díluvio universal, a mãe de São Pedro estava entre as coisas destinadas a desaparecer da face da terra. Sabedora disso tratou de desenvolver suas virtudes de avarenta, comendo tudo quanto tinha em casa e jogando fora no charco, o que não podia levar. Um pobre lhe pediu um grão de feijão por amor de Deus. A mãe de São Pedro afrontosamente deu-lhe um punhado. O pobre comeu os feijões e plantou um grão para quem viesse depois dele achar o pé e ter também o que comer.

Veio o díluvio e todos morreram, inclusive a mãe de São Pedro que ficou presa no limo da terra, desprezada pelo anjo que descera para recolher as almas dignas de misericórdia. São Pedro foi interceder junto ao Criador para que também sua mãe fosse contemplada com as bem aventuranças.

Apresentou o pé de feijão que florescia no local, onde o pobre o plantara, como obra da previdência e humildade de sua genitora. O Criador aceitou aquilo como boa ação e ordenou a megera que subisse pela frágil ramagem. Já estava a velha a boa altura quando notou que outras almas procuravam seguir-lhes o roteiro. Furiosa desceu para enxotá-las e o pé de feijão partiu ao seu peso. Desde então vive ela sem poder entrar no céu e sem poder pousar na terra.

Dessa lenda nasceu a comparação feita pelas pessoas atribuladas – "Estou como a mãe de São Pedro. Nem bem no céu, nem bem na terra."


(VIANA, Hildegardes Cantolino. São Pedro na voz do povo

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