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Julho 2002
Ano IV - nº 47

CONSELHOS DE "BENZINHEIRAS", COMADRES E "ENTENDIDOS"

Registramos uma série de indicações, receitas recolhidas na comunidade. São conselhos de "benzinheiras", de comadres e de "entendidos". Pessoas de ambos os sexos nos forneceram os dados abaixo e dentre elas podemos destacar dona Olindina, senhora de 64 anos de idade, "assistente", isto é, parteira com largo tirocínio. Em Piaçabuçu todos são unânimes em apontá-la como a mais hábil.

Ao arrolarmos as várias receitas, verificamos que algumas vezes, uma planta é apontada para os males do coração, outra para pele e rim, daí nosso interesse em registrá-las.

Durante nossas observações acerca da medicina rústica, pudemos perceber uma certa atitude de despeito manifestado por dona Olindina quanto aos remédios indicados pelo raizeiro Odilon. Ela sempre colocava em evidência tais discordâncias procurando ressaltar as suas receitas, oriundas de sua larga prática. Ei-las:

Purgante: "Rala-se o coco, apura-se o óleo, toma-se, pois ele trará a defecação. No dia deve-se guardar dieta". Porém, a defecação para que seja bem feita deve-se tomar cuidado, afirma a "benzinheira". Esta defecação "arrasta a doença".

Lavagem de sal torrado: "Pegar uma colher de sal bem limpo. Põe-se num "caco" (panela de barro) e torra-se. Quando ele começa estalar põe-se numa bacia bem limpa e ferve-se menos de um litro d’água e se põe aí com o sal. A lavagem está pronta. Coloca-se no irrigador e se dá o chá-de-bico. Serve para dores internas, para prisão de ventre". A informante diz "descarregar toda a podridão parada nos intestinos". Faz a lavagem tíbia (mais ou menos morna). Muitas vezes usa-se para mulher que vai dar a luz. Serve até mesmo para facilitar o parto, porque facilita a saída da criança. Serve também para a febre (refere-se ao tifo, que diz "téfi").

Prisão de ventre: (dor interna) "Toma-se o purgo leite com o chá de arruda".

Outros remédios: "O leite preparado com o mastruz ou chá dele é remédio para tosse, catarro. O chá de alecrim é remédio para dor do lado, estômago, falta de fôlego. A erva cidreira é usada para dor de barriga, barriga fofa. Para criança doente com dor de barriga, obrando água ou obra vermelha. A folha de laranjeira para calmante. Quebra-pedra, pega-pinto, ambos para rim, fígado, bexiga. Salsa-da-costa; pinica-se um bocado, apanha verdosa e com a água do caju, põe-se no fogo até que fique na metade do que bota; é depurativa. Serve pras doenças venéreas, por exemplo mula... o couro de teiú pra defumação (neste ponto dona Olindina discorda de Odilon e diz: "não é o de teiú, é o do jacaré"); raiz de manacá no vinho é pra dor, pode fazer chá também e tem resguardo, por exemplo, não comer limão ou essas tolices de azedo".

Remédio para pustema na cabeça: "Torra-se o fumo, um pouco de mostarda (menos de uma colherinha de chá), a jandiroba e a mostarda. Toma-se agora pixilinga (crua) e a noz moscada e ralam-se, pisa-se tudo, coa-se tudo com um pano bem fino e coloca-se num vidro bem tampado com tampa de vidro e toma-se o tabaco (nome do remédio) "pelas ventas" (narinas) aspira-se fortemente".

Jandiroba: é remédio para o ar (congestão).

Mostarda: "Pisa-se a mostarda crua e faz-se o "castro" (emplastro) e coloca-se na dor, amarrando-se com um pano para segurar. Não se coloca nem no olho, nem na fronte se for o caso, mas sim e somente nas costelas, nas costas, nas pernas. Para beber, a mostarda deve ser torrada. Para beber, usa-se uma colher de chá e para o "castro" uma colher de sopa".

Jericó: é remédio para defluxo. Cozinha-se o jericó, agrião e faz-se o chá para defluxo.

Alcaçuz: é para curar defluxo. Tiram-se os pedacinhos, cozinham-se com erva-doce, aniz e toma-se. É bom para expelir o catarro. Depois do chá pronto e bem fervido, coa-se e de acordo com a porção de chá, coloca-se o açúcar.

Faz-se um "lambedô" (xarope) e toma-se uma colher de sopa por vez. Cozinha-se a erva-doce e quando fria coloca-se uma colher de sopa no açúcar. Cozinha-se o aniz estulado por meia hora. Bota-se mais de meio caneco de água. Quando ficar à altura de meia xícara de água se põe uma colher de sopa de açúcar branco. Depois de tudo já frio coloca-se a aguardente alemã; deve-se coar toda a mistura. Dá-se então ao doente que esteja com febre ou muita dor de cabeça ou com congestão. Ele tem de defecar muito e a defecação arrasta tudo. Tem de ficar durante cinco dias de dieta com chá, pão. Aqui, em muitas doenças, não se deve beber café.

Para hérnias: "Uma colher de sopa de óleo de babosa, um cálice de cachaça (cinqüenta centavos). Mistura-se no cálice e toma.

Coloca-se sobre o local um emplastro de breu bem quente que tome todo lugar da hérnia. Botar o breu no fogo e colocá-lo derretido sobre a hérnia".

Para falta de ar: "Bate-se em nove águas o leite de pinhão branco. Bebe-se depois das noves batidas, em nove águas".

Indisposição estomacal ou gastura: "Mastigar a casca de laranja seca; corta a gastura".

Para reumatismos tipi ou araticum: Amornar a folha e colocá-la em cima do local dolorido. Serve também para dor de cabeça, bem como folha de pinhão roxo.

Para curar soluço: colocar a língua dentro de um copo com vinagre.

Para vermes de crianças e adultos mesmo: pisar a semente do mamão e fazer chá, tomar ao deitar-se, é um "santo remédio", conclui Dona Olindina.

A influência de algumas leituras, as suas muitas observações levaram-na a ser considerada a mais estendida em curas. Sendo muito procurada, sempre aconselha. A influência do Lunário perpétuo, às vezes traz estas confusões. Dona Olindina ao explicar os males da "conjunção do sol", assim definiu o que seja tal conjunção: "a conjunção do sol com a lua apareceu pela vez primeira quando Jesus nasceu, não sabe? Jamais foi gerado pela conjunção do sol. Do Divino Espírito Santo rodando pela cabeça da Virgem Nossa Senhora. O sol sobre o Espírito Santo e o Espírito Santo sobre Nossa Senhora. Foi a conjunção do sol com a lua sobre a cabeça de Nossa Senhora que deu Jesus, não sabe? Foi uma grande guerra, não sabe? Nunca mais nóis tiramo a conjunção do sol com a lua". Gostando de leituras, dona Olindina poderia ser atingida pela influência de bons livros sobre a orientação prática e higiênica de seus clientes.

Receitas de comadres entendidas:

Constipação (gripe): "O eucalipto ("eucalípio") com alecrim e o fedegoso; a isto chama-se chá morno. Isto mesmo pode ser suadouro (suadô)".

Para sarna – coceira: Sambacaitá com a casca branca do cajueiro branco no vinho de jurubeba.

Papeira: Cana pátria branca. Usa-se o talo cortado, que é colocado no pescoço em forma de colar. Papeira – (parotidite ou caxumba). Doença que na época da pesquisa apresentou-se com caráter epidêmico pelo grande número de pessoas atacadas por ela. Dizem alguns que é doença que aparece por ocasião do inverno. Grassou a caxumba na cidade: um homem está tomando injeções de penicilina, enquanto que um menino está tomando umas "pilas" (pílulas) e passando uma pomada de beladona, outros, e isso muitos, trazem no pescoço um colar de talos de folha de mamona (carrapateira). Alguns amarram um lenço onde colocaram gotas de água benta. Eis vários remédios para o mesmo mal.

É crença que sapo quando morde, produz uma ferida que leva sete anos para sarar.

A felicidade está condicionada ao dia, mês, hora e posição (se ainda estava deitada, ou trabalhando) em que vem a menstruação.

Tumores que não se vê o olho são perigosos.

Para curar embriaguez: "ovos da hora" misturado na cachaça. Os ovos do Dia da Hora, isto é, que a galinha põe no dia da Ascensão de Nosso Senhor, são prodigiosos, conservam-se frescos, e a gema quando seca, tem poderes medicinais.

Remédio para olhos: Deve-se banhar com água de arruda.

Remédio para menstruação: Pau-Brasil no vinho quinado.

Lavagem: Faz o chá de macela. Coa-se e faz-se a lavagem intestinal pelo clister ou "chá-de-bico".

Rosário da batata-de-purga: Purgante. Rala-se a batata-de-purga e faz-se o pó. "Se bota uma colher do pó de mé de abelha para quem está inchado e para quem não está inchado ("defluxo" por exemplo) com mé de açúcar."

Perguntaram ao Zé da Muda (sua mãe é muda) por que ela estava assim, muda? Respondeu que foi porque sua avó deu-lhe um purgante de jalapa e a seguir perdeu a fala antes mesmo de aprender a falar, isso quando ela teve ar.

A prática de rezas e benzeduras é sempre justificada. Maria, crioula, empregada da pensão disse: "cum sete dias de nascido dá o mal-de-sete-dias, meu irmão teve isso, ficou amalucado. Isso acontece quando a gente dá muito remédio, é por isso que é melhor rezá ou mandá benzê".


(Araújo, Alceu Maynard. Medicina rústica, p.251-254)

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