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Sumário | Festança | Cancioneiro | Imaginário | Oficina | Palhoça | Colher de Pau | Panacéia | Catavento

JORGINHO DO SERTÃO
(Cornélio Pires)

O Jorginho do Sertão
Rapazinho de talento
Numa carpa de café
Enjeitô treis casamento
Logo veio o seu patrão
Cheio de contentamento
(tenho treis filhas "sorteira que
Ofereço em casamento)
Logo veio a mais nova
Vestidinho cheio de fita
Jorginho case comigo
Que das treis
Sô a mais bonita
Logo veio a do meio
Vestidinho cor de prata
Jorginho case comigo
Ou então você me mata
Logo veio a mais véia
Por ser mais interesseira
Jorginho case comigo
Sou a mais trabaiadeira
Jorginho pegou o cavalo
Ensilhô na mesma hora
Foi dizê pra morenada
Adeus que eu já vou me embora
Na hora da despedida,
Ai, ai, ai
É que a morenada chora
Ai, ai, ai
O Jorginho arresorveu
É melhor que eu mesmo suma
Não posso casá cum as treis, ai
Eu num caso cum nenhuma

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MEU CÉU
(Xavantinho/ Zé Mulato)

Armei a rede na varanda
Afinei minha viola
Sabiá cantou comigo
Mandou a tristeza embora
No lugar aonde eu moro
Solidão não me amola
Quando eu faço um ponteado
A morena cantarola

Não é o céu
Conforme eu aprendi
Mas se Deus achar por bem
Pode me deixar aqui

Quando vai chegando a noite
A natureza desmaia
O sereno vem caindo
Na folha da samambaia
Eu vou na biquinha d'água
E tiro o suor do rosto
Esperando a comidinha
Temperada com bom gosto

Chamo a lua pra catinga
Ao som da modinha boa
E misturo a cantoria
Com os bichos da lagoa
Urutau canta doído
Sapo boi marca o compasso
Afinado com o bordão
Da viola nos meus braços

Noite alta vou dormir
Para acordar bem cedinho
Pois não perco a alvorada
E o cantar dos passarinhos
Pra me desejar bom dia
Coroar o meu sossego
Eu recebo a visita
Do cuitelinho azulego

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MEU PRIMEIRO AMOR (LEJANIA)
(H. Gimenez – versão: José Fortuna / Pinheirinho Jr.)

Saudade, palavra triste
Quando se perde um grande amor
Na estrada longa da vida,
Eu vou chorando a minha dor,

Igual uma borboleta
Vagando triste por sobre a flor
Seu nome sempre em meus lábios,
Irei chamando por onde for

Você nem sequer se lembra
De ouvir a voz deste sofredor
Que implora por seu carinho
Só um pouquinho do seu amor

Meu primeiro amor, tão cedo acabou
Só a dor deixou neste peito meu
Meu primeiro amor, foi como uma flor
Que desabrochou e logo morreu
Nesta solidão, sem ter alegria
O que me alivia são meus tristes ais
São prantos de dor que dos olhos caem
É porque bem sei quem eu tanto amei
Não verei jamais

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MODA DAS LÍNGUAS
(Alvarenga e Ranchinho)

É verdade matemática
Que ninguém pode negar
Que essa história de gramática
Só serve é pra atrapaiar
Ainda vem língua estrangeira
Pra ajudar a compricar
É mior nóis cabar com isso
Pra nós todos poder falar
Na Inglaterra eu vi dizer
Que um pé de sapato é chu
Sendo assim logo se vê
Dois pés tem que ser chuchu
Chuchu pra nóis é legume
No duro, não é boato
Os ingreis que lá se arrume
Mas nóis num come sapato
Na América corpo é bode
Veja que bode vai dar
Encontrei uma americana
Louca pro bode entregar
Fiquei meio atrapaiado
E disse pra me safar
Óia dona, eu não sou cabra
Sai com esse bode pra lá
Em Chile, cueca é dança
Pra se cantar e bailar
Lá se toca e baila cueca
Asta la fiesta acabar
Mas se acaso algum chileno
Vier pro Brasil dançar
Que tente mostrar a cueca
Pra ver ondé que vai parar
Na Itália eu vi dizer
E não sei por que razão
Que manteiga lá é burro
Se passa burro no pão
Desse jeito pra mim chega
Viva nóis lá do sertão
Onde manteiga é manteiga
Nós não come burro, não
Uma gravata esquisita
Um certo franceis me deu
Perguntei onde botar
Ele então me arrespondeu
Mas num gostei da resposta
Isso é que não faço eu
Seu franceis mal educado
Ponha a gravata no seu
Na Argentina ouvi dizer
Que saco é paletó
Lá se o gringo toma chuva
Tem que pôr o saco no sor
E se acaso o dito encóie
A muié lhe diz a pior
Tu saco está mui tiquito
Vá arranjar um saco maior

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MODA DE BOTUCATU
(A. de Oliveira/C. de Paula)

De todos divertimento
Conheço também o baralho
Conheço a viola e a pinga
Pra cantá não faço ensaio
Uns dizem que a pinga é da cana
Outros "diz" que é do pau d'alho
Dizem que a pinga derruba
Como é que eu bebo e não caio.
Arrecebi um convite
Pras festa do mês de maio
O meu pobre coração
Garrou dá gorpe de táiio
Abri o portão da mangueira
Mandei dá milho prô baio
Esperando meus colegas
Sem eles chegá eu não saio.
Na de Santa Cruz eu fui
Na de São João eu não fáio
Eu levo meus companhêro
Com eles não me atrapaio
Eu não canto moda véia
Eu não canto rebotáio
Choro no braço da viola
Que nem tangará no gáio.
Garrêmo pra noite escura
Errando pelos atáio
Coruja cantava triste
Na grama já havia orváio
Rojão explodiu pros ares
Feito faísca de raio
Lá no terrêro da festa
Do seu Francisco Sampaio
Veio chá no caldeirão
E biscoito no balaio
Serviu de fortificante
Pros peito véio e fraio
Dei um sinal pros colega
Deram um balanço no assoáio.
Têia da casa caiu
Não resistiu o chaquáio
Quando foi de madrigada Ai! Ai!
Cantava dois papagaio
Vi um gato de 3 cores
Que não dormiu no borralho
Campeão cantou quatro moda
Que aprendeu com nhô Mario
Moda de enfrentar violeiro
Mas prá nois não deu trabalho.

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MORENINHA LINDA
(Tonico / Priminho / Maninho)

Meu coração tá pisado
Como a flor que murcha e cai
Pisado pelo desprezo
Do amor quando se vai
Deixando a triste lembrança
Adeus para nunca mais

Moreninha linda do meu bem querer
É triste a saudade longe de você

O amor nasce sozinho
Não é preciso plantar
A paixão nasce no peito
Farsidade no olhar
Você nasceu para outro
Eu nasci para te amar

Moreninha linda...

Eu tenho meu canarinho
Que canta, quando me vê
Eu canto por ter tristeza,
Canário por padecer
Da saudade da floresta,
Eu saudades de você

Moreninha linda...

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NAVEGANTE DAS GERAIS
(Zé Mulato / Cassiano)

Se me chamam de caipira
Fico até agradecido
Pois falando sertanejo
Eu posso ser confundido

Eu sou lobo solitário
Sou ave de arribação
Fui forjado nas campinas
Nos confins do meu sertão
Navegante das Gerais
No lombo de algum pagão
Eu só canto natureza
Coisas da minha nação
Minha honra ninguém tira
Quando me chamam caipira
Agradeço a distinção
Veja bem cidadão, pois é

Se me chamam de caipira...

Defendo nossas raízes
Por isso tenho brigado
Não escondo minha origem
Sou caipira liberado
Minha modinha é singela
Igual a flor do cerrado
Mas é sertão brasileiro
Tudo o que eu tenho cantado
Infelizmente o que vejo
É um bando de sertanejo
Com mania de importado
Eu falei, tá falado, pois é

Se me chamam de caipira...

Cacique falou e disse
Dei um dez e botei fé
Que nóis semo caipira
Isso num é pra quem é
Acredito no que vejo
Sou iguar a São Tomé
Enquanto nóis fô caipira
A cultura tá de pé
Negar isso é vaidade
Brasileiro de verdade
Se orgulha do que é
Toma aí, seu mané, pois é

Se me chamam de caipira...

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O HOMEM E A ESPINGARDA
(Zé Mulato / Churrasco)

Analisando direito
Nossa vida é uma piada
Só quem não tem bom humor
Não acha a vida engraçada
Por eu ter cabeça fria
Não andar fazendo nada
Qu'eu fiz a comparação
Do homem com a espingarda

Dos vinte até os trinta
Nossa vida é muito boa
A espingarda anda armada
E o atirador caçoa
Sortimento tá sobrando
Muitas veiz atira à toa
É só triscar no gatilho
Que a língua de fogo avoa

Dos trinta até os quarenta
Pode prestar atenção
O atirador tem cuidado
Arma é de estimação
Não atira em qualquer bicho
Nem joga chumbo no chão
Só atira em caça boa
Pra não perder munição

E dos quarenta aos sessenta
Arma tem que ser tratada
Atira uma vez ou outra
Se for bem lubrificada
Por cada tiro ela passa
Um tempão dependurada
Dá um tiro e fáia dez
A mola tá relaxada

E dos sessenta em diante
Danou com os arrei' pro mato
Arma não atira mais
E se atirar é boato
Espingarda enferrujada
Só aponta pro sapato
Virou peça de museu
Esse mundo é mesmo ingrato

Depois desta triste fase
Só piora todo dia
Óia a arma tem na parede
Só ferrugem e maresia
Quem deu tiro e matou onça
Já assusta cotia
Nunca mais irá caçar
Lá no capão da furquia

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O MENINO DA PORTEIRA
(Teddy Vieira / Luizinho)

Toda vez que eu viajava
Pela estrada de Ouro Fino
De longe eu avistava
A figura de um menino
Que corria abria a porteira,
E depois vinha me pedindo:
"Toque o berrante, seu moço,
Que é pra eu ficar ouvindo"

Quando a boiada passava
E a poeira ia baixando,
Eu jogava uma moeda
E ele saía pulando:
"Obrigado boiadeiro,
Que Deus vá lhe acompanhando"
Praquele sertão a fora,
Meu berrante ia tocando

No caminho desta vida,
Muito espinho encontrei
Mas nem um calou mais fundo
Do que isto que passei
Na minha viagem de volta,
Qualquer coisa eu cismei
Vendo a porteira fechada,
O menino eu não avistei

Apeei do meu cavalo,
No ranchinho beira-chão
Vi uma mulher chorando
Quis saber qual a razão
"Boiadeiro, veio tarde,
Veja a cruz no estradão
Quem matou o meu filhinho
Foi um boi sem coração"

Lá pras bandas de Ouro Fino,
Levando gado selvagem
Quando eu passo na porteira,
Até vejo a sua imagem
O seu rangido tão triste
Mais parece uma mensagem
Daquele rosto trigueiro,
Desejando-me boa viagem.

A cruzinha do estradão,
Do pensamento não sai.
Eu já fiz um juramento
Que não esqueço jamais
Nem que o meu gado estoure,
E eu precise ir atrás
Neste pedaço de chão
Berrante eu não toco mais.

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PAGODE EM BRASÍLIA
(Teddy Vieira / Lourival Santos)

Quem tem mulher que namora
Quem tem burro empacador
Quem tem a roça no mato
Me chama que jeito eu dou
Eu tiro a roça do mato
Sua lavoura melhora
E o burro empacador
Eu corto ele na espora
E a mulher namoradeira
Eu passo um couro e mando embora

Tem prisioneiro inocente
No fundo de uma prisão
Tem muita sogra encrenqueira
E tem violeiro embrulhão
Pros prisioneiro inocente
Eu arranjo advogado
E a sogra encrenqueira
Eu dou de laço dobrado
E os violeiro embrulhão
Com meus verso tão quebrado

Bahia deu Rui Barbosa
Rio Grande deu Getúlio
Em Minas deu Juscelino
De São Paulo eu me orgulho
Baiano não nasce burro
Gaúcho arrenda as coxilhas
Paulista ninguém contesta
É o brasileiro que brilha

Quero ver cabra de peito
Pra fazer outra Brasília
No estado de Goiás
Meu pagode está mandando
O Bazar do Valdomiro
Em Brasília é soberano
vou fazer minha retirada
E despedir dos paulistanos
O repique da viola balanceia
O chão goiano

Adeus que eu já vou me embora
Que Goiás tá me chamando

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PÉ DE IPÊ
(Tonico)

Eu bem sei que adivinhava,
Quando, às veiz, eu te chamava
De muié sem coração
Minha voz, assim queixosa,
Vancê é a mais formosa
Das caboclas do sertão

Certa veiz, tive um desejo
De prová o mer de um beijo
Da boquinha de vancê,
Lá no trio da baixada
Pertinho da incruziada
Debaixo de um pé de ipê

Mas o destino foi traiçoêro
E me deixô na solidão
Foi simbora pra cidade,
Me deixou triste sodade
Neste pobre coração

Quando eu passo a incruziada,
Ainda avisto o pé de ipê
Ainda canta o passarinho,
Me faiz alembrá sozinho
Aquele dia com vancê

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PIRACICABA
(Mariano / Cobrinha)

Uma saudade que punge e mata
Que sorte ingrata, longe daqui
Entre suspiro, triste sem termo
Vivo no ermo, des’que parti.

Piracicaba, que eu adoro tanto,
Cheia de flores, cheia de encanto
Ninguém compreende
A grande dor que sente
Um filho ausente a suspirar por ti

Só vejo estranhos, meu berço amado
Ter a teu lado o que perdi
Pouco se importam com teu encanto
Que eu amo tanto, des’que nasci

Piracicaba, que eu adoro tanto...

Em outras plagas, que vale a sorte,
Prefiro a morte, junto de ti
Adoro os prados, os horizontes,
A serra e os montes onde nasci

Piracicaba, que eu adoro tanto...

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QUANDO O AMOR SE VAI
(Renato Teixeira)

O destino queria
que eu fosse um peão
um vaqueiro matreiro
Mas um dia eu senti
Que queria e podia
Ser um marinheiro
Nas viagens da vida,
Vivi aventuras
E amores primeiros
Fui nesse compasso
Cavalgando mares
Estreitando laços

Quando o amor se vai,
outro logo vem
Depois contam histórias
Narrando seus feitos
pela vida afora

Vi por esses caminhos
Que o amor e a intriga
viajam colados
A paixão e o ciúme
Por serem contidos
viajam calados
E a gente revira esse mundo
E no fundo, tá tudo acertado
O futuro acontece
E no mesmo momento
Se entrega ao passado

Quando o amor se vai ...

RANCHINHO BRASILEIRO
(Elpídio dos Santos)

Numa noite de garoa
Numa rede de taboa
Balançando rente ao chão
Sob a luz do candeeiro
Um caboclo brasileiro
Canta a sua inspiração

Quando desabafa o peito
Sinto até bater sem jeito
O meu pobre coração
Porque a sua melodia
É o Brasil em sinfonia
Bem no meio do sertão

E quem ouve esse violeiro, ai, ai, ai
Tem vontade perguntar
Se um ranchinho brasileiro
Chega bem
Pra dois morar

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REI DO GADO
(Teddy Vieira)

Num bar em Ribeirão Preto
Vi com meus olhos esta passagem
Quando a champanha corria a rodo,
Nas altas rodas da granfinagem
Nisso chegou um peão,
Trazendo, na testa, o pó da viagem
Pediu uma pinga para o garção
Que era para rebatê a friagem
Levantou um almofadinha
Falou pro dono: - Não tenho fé,
Quando um caboclo que não se enxerga
Num lugá desse vem pôr os pés
O senhor dono da casa, não deixe entrar
Um homem qualquer, principalmente, nesta ocasião
Que está presente o Rei do Café
Foi uma salva de palmas gritaram
Vivas pro fazendeiro que tem
Milhões de pé de café
Por este rico chão brasileiro
O seu nome é conhecido
Lá no mercado do estrangeiro
Portanto, veja que este ambiente
Não é pra qualquer tipo rampeiro
Num modo muito cortês respondeu
O peão pra rapaziada:
- Esta riqueza não me assusta,
Topo e aposto qualquer parada
Cada pé do seu café, eu amarro
Um boi da minha boiada
Pra vocês tudo, eu agaranto
Que ainda me sobra
Boi, na invernada
Foi um silêncio profundo
O peão deixou o povo
Mais pasmado
Pagando a pinga com mil cruzeiro
Disse ao garção pra guardá o trocado
Quem quiser saber meu nome
Que não se faça de rogado
É só chegar lá, em Andradina
E perguntar pelo Rei do Gado

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RIO DE LÁGRIMAS
(Tião Carreiro / Piraci / L. Santos)

O rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
Quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Lá no bairro onde eu moro
Só existe uma nascente
A nascente dos meus olhos
Já formou água corrente
Pertinho da minha casa
Já formou um lagoa
Com lágrimas dos meus olhos
Por causa de uma pessoa
O rio de Piracicaba
Vai jogar água pra fora
quando chegar a água
Dos olhos de alguém que chora
Eu quero apanhar uma rosa
Minha mão já não alcança
Eu choro desesperado
Igualzinho a uma criança
Duvido alguém que não chore
Pela dor de uma saudade
Eu quero ver quem não chora
Quando ama de verdade.

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ROMANCE DE UMA CAVEIRA
(Alvarenga/Ranchinho/Chiquinho Sales)

Eram duas caveiras
Que se amavam
E à meia-noite
Se encontravam
Pelo cemitério
Os dois passeavam
E juras de amor
Então trocavam
Sentado os dois
Em riba da lousa fria
A caveira apaixonada
Assim dizia
Que pelo caveiro
De amor morria
E ele de amores por ela vivia.
Ao longe uma coruja
Cantava alegre
De ver os dois caveiros
Assim felizes
E quando se beijavam
Em tom fúnebre
A coruja batendo as asa
Pedia bis.
Mas um dia chegou de pé junto
Um cadáver, um defunto
E a caveira
Pr' ele se apaixonou
E o caveiro antigo
Abandonou.
O caveiro tomou uma bebedeira
E matou-se de modo romanesco
Por causa dessa ingrata caveira
Que trocou ele
Por um defunto fresco

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ROMARIA
(Renato Teixeira)

É de sonho é de pó
O destino de um só
Feito eu
Perdido em pensamentos
Sobre o meu cavalo
É de laço é de nó
De gibeira o jiló dessa vida
Cumprida o sol
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
O meu pai foi peão
A minha mãe solidão
Meus irmãos perderam-se na vida
À custa de aventuras
Descasei, joguei
Investi, desisti
Se há sorte, não sei
Nunca vi

Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida
Me disseram porém
Que eu viesse aqui
Pra pedir
De romaria e prece
Paz nos desaventos
Como eu não sei rezar
Só queria mostrar
Meu olhar, meu olhar, meu olhar
Sou caipira, Pirapora
Nossa Senhora de Aparecida
Ilumina a mina escura e funda
O trem da minha vida

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SAUDADES DE MATÃO
(J. Galati / A Silva / Raul Torres)

Neste mundo eu choro de dor
Por uma paixão sem fim
Ninguém conhece a razão
Porque choro no mundo assim
Quando lá no céu surgiu
Uma pequenina flor
Pois todos devem saber
O que a sorte me tirou
Foi uma grande dor
Lá no céu, junto a Deus
Em silêncio minha alma descansa
E na terra, todos cantam
Eu lamento minha desventura
Nesta grande dor
Ninguém me diz
Que sofreu tanto assim
Esta dor que me consome
Não posso viver
Quero morrer
Vou partir para bem longe daqui
Já que a sorte não quis
Me fazer feliz.

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SERRA DA BOA ESPERANÇA
(Lamartine Babo)

Serra da Boa Esperança,
Esperança que encerra
No coração do Brasil
Um punhado de terra
No coração de quem vai,
No coração de que vem,
Serra da Boa Esperança,
Meu último bem

Parto levando saudades,
Saudades deixando,
Murchas, caídas na serra,
Bem perto de Deus
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus
Vou-me enbora
Deixo a luz do olhar
No teu luar
Adeus!

Levo na minha cantiga
A imagem da serra
Sei que Jesus não castiga
Um poeta que erra
Nós, os poetas, erramos
Porque rimamos, também
Os nossos olhos nos olhos
De alguém que não vem

Serra da Boa Esperança,
Não tenhas receio,
Hei de guardar tua imagem
Com a graça de Deus!
Oh, minha serra,
Eis a hora do adeus,
Vou-me embora
Deixo a luz do olhar
No teu olhar
Adeus!

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SERENÔ
(Domínio popular)

Serenô eu caio eu caio
Serenô deixá cair
Serenô da madrugada
Não deixou meu bem dormir

Minha vida, ai ai ai
É um barquinho, ai ai ai
Navegando sem leme e sem luz
Quem me dera, ai ai ai
Ter agora, ai ai ai
Os faróis dos teus olhos azuis

Serenô eu caio eu caio…

Vivo triste, ai ai ai
Soluçando, ai ai ai
Recordando o amor que perdi
O sereno, ai ai ai
É o pranto, ai ai ai
Dos meus olhos que choram por ti

Serenô eu caio eu caio

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SODADE, MEU BEM SODADE
Zé do Norte

Sodade, meu bem sodade
Sodade do meu amor
Sodade, meu bem sodade
Sodade do meu amor
Foi embora e não disse nada
Nem uma carta deixou
Os óios da cobra verde
Hoje foi que arreparei
Se arreparasse a mais tempo
Não amava a quem amei
Quem levou o meu amor
Deve ser o meu amigo
Levou pena deixou glória
Levou sodade consigo
Arrenego de quem diz
Que o nosso amor se acabou
Ele agora está mais firme
Do que quando começou
Sodade, meu bem sodade
Sodade do meu amor

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TREM DO PANTANAL
(Paulo Simões / Geraldo Roca)

Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
As estrelas do cruzeiro
Fazem um sinal
De que esse é o melhor caminho
Pra quem é como eu
Mas um fugitivo da guerra
Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
O povo lá em casa espera
que eu mande um postal
Dizendo que eu estou muito bem e vivo
Rumo a Santa Cruz de La Sierra
Enquanto esse velho trem
Atravessa o Pantanal
Só meu coração
Está batendo desigual
Ele agora sabe que o medo
Viaja também
Sobre todos os trilhos da terra

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TRISTE BERRANTE
(Adalto Santos)

Já vai bem longe esse tempo eu sei
Tão longe que até penso que eu sonhei
Que lindo quando a gente ouvia distante
O som daquele triste berrante
De um boiadeiro a gritar: eeeiiá
E eu ficava ali na beira da estrada
Vendo caminhar a boiada
Até o último boi passar
Ali passava boi
Passava boiada
Tinha uma palmeira na beira da estrada
Onde foi cravado muito coração
Mas sempre foi assim e sempre será
O novo vem e o velho tem que parar
O progresso cobriu a poeira da estrada
Esse tudo que é meu nada
Hoje tenho que acatar e chorar
E mesme vendo gente, carros, passando
Meus olhos estão enxergando
Uma boiada a passar
Ali passava boi
Passava boiada
Tinha uma palmeira na beira da estrada
Onde foi cravado muito coração

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TRISTEZA DO JECA
(Angelino de Oliveira)

Nestes versos tão singelos
minha bela meu amor
prá você quero contar
O meu sofrer, a minha dor
Eu sou que nem sabiá
quando canta é só tristeza
Lá no galho onde ele está

Nesta viola
Eu canto e gemo de verdade
Cada toada representa uma saudade

Eu nasci naquela serra
Num ranchinho beira chão
Todo cheio de buraco
Donde a lua faz clarão
Quando chega a madrugada
Lá no mato a passarada
Principia um barulhão

(refrão)

Lá no mato tudo é triste
desde o jeito de falar
Quando riscam na viola
Dá vontade de chorar
Não tem um que cante alegre
Todos vivem padecendo,
cantando pra se aliviar

(refrão)

Vou parar c'oa minha viola
Já não posso mais cantar
Pois o Jéca quando canta
Tem vontade de chorar
O choro que vai caindo
Devagar vai-se sumindo
Como as águas vão pro mar

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UM VIOLEIRO TOCA
(Almir Sater / Renato Teixeira)

Quando uma estrela cai
No escuro da noite
Um violeiro toca suas mágoas
Então os olhos dos bichos
Vão ficando iluminados
Rebrilham neles estrelas
De um sertão enluarado
Quando um amor termina
Perdido numa esquina
E um violeiro toca a sua sina
Então os olhos dos bichos
Vão ficando entristecidos
Rebrilham neles lembranças
Dos amores esquecidos
Quando o amor começa
Nossa alegria chama
E um violeiro toca em nossa cama
Então os olhos dos bichos
São os olhos de quem ama
Pois a natureza é isso
Sem medo, nem dó, nem drama
Tudo é sertão
Tudo é paixão
Se um violeiro toca
A viola, o violeiro e o amor se tocam

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VELHO CATIREIRO
(Pena Branca e Xavantinho)

Afinei a minha viola
Junto com meu companheiro
pra ir cantar num fandango
No meu estado mineiro
Pra cantar levei bom peito
Pra dançar bons catireiros, ai
Nós chegamos lá na festa
O povo estava esperando
Entramos acompanhados
Do senhor Otaviano
O povo batia palma
Eu quase pedia calma, ai
Nós começamos dançar
O recortado mineiro
Da sala foi pra cozinha
E findamos no terreiro
O salão estremecia
Com as palmas do catireiros, ai
Quando foi outro dia
Na hora da despedida
Deixamos as caboclinhas
Chorando com a partida
Deixando muitas saudades
Pra aquela gente querida, ai

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VIDE-VIDA MARVADA
(Piraci / Tonico)

Corre um boato aqui donde moro
Que as mágoas que eu choro são mal ponteadas
Que no capim mascado do meu boi
A baba sempre foi santa e purificada
Diz que eu rumino desde menininho
Fraco e mirradinho a ração da estrada
Vou mastigando o mundo e ruminando
E assim vou tocando esta vida marvada
É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos

É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda mágoa é um mistério fora desse plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pra uma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há que encontrar-me num cateretê
Há que encontrar-me num cateretê

Tem um ditado tido como certo
Que cavalo esperto não espanta boiada
E quem refuga o mundo resmungando
Passará berrando esta vida marvada
Compadre meu que envelheceu cantando
Diz que ruminando dá pra ser feliz
Por isso eu vagueio ponteando
E assim procurando a minha flor de lis

É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda moda é um remédio pros meus desenganos
É que a viola fala alto no meu peito, mano
E toda mágoa é um mistério fora desse plano
Pra todo aquele que só fala que eu não sei viver
Chega lá em casa pra uma visitinha
Que no verso ou no reverso da vida inteirinha
Há que encontrar-me num cateretê

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VIOLA CABOCLA
(Piraci / Tonico)

Viola cabocla não era lembrada
Veio pra cidade sem ser convidada
Junto com o vaqueiro
Trazendo a boiada
Com cheiro de mato e o pó da estrada
Fez grande sucesso com a Disparada
Viola cabocla feita de pinheiro
Que leva a alegria pro sertão inteiro
Trazendo a saudade dos que já morreram
Na noite de lua tu sai no terreiro
Consolando a mágoa do triste violeiro
Viola de pinho é bem brasileira
Sua melodia atravessou a fronteira
Mostrando a beleza pra terra estrangeira
Do nosso sertão é a mensageira
É o verde amarelo
Da nossa bandeira
Viola de pinho seu timbre não falha
Criado no mato com a samambaia
Veio pra cidade com chapéu de palha
Mostrou seu valor vencendo a batalha
Voltou pro sertão trazendo a medalha

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VIOLA QUEBRADA
(Mario de Andrade / Ary Kerney)

Quando da brisa do açoite
A frô da noite se acurvou
Fui se encontrar
Com a maroca, meu amor
Eu senti n'arma
Um gorpe duro
Quando ao muro
Lá no escuro
Meu oiá andou buscando
A cara dela e não achou

Minha viola gemeu
meu coração estremeceu
Minha viola quebrou
Meu coração me deixou

Minha maroca resorveu
Pro gosto seu
Me abandonar
Por que o fadista
Nunca sabe trabaiá
Isso é besteira
que das frô
Que brilha e cheira
A noite inteira
Vem depois a fruta
que dá gosto de saborear

Minha viola...

Por causa dela sou rapais
muito capais de trabaiá
e todos dia, todas noite capiná
Eu sei carpi por que
Minh'arma tá arada,
Loteada
Capinada com as foiçada
dessa luz do seu oiá

Minha viola...
 

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