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Perfil do herói

É no ciclo pastoril - a região sertaneja do Nordeste brasileiro, onde a paisagem agreste, flagelada pela seca, se caracteriza pela vegetação espinhosa dos cactus e dos carrascais, - que surge, em nosso folclore, a figura quixotesco de Aleixo, o herói astuto e dono de grande força muscular.

Esse personagem, a um tempo arguto e heróico, cômico e fanfarrão, simboliza a figura mítica por excelência, criada pelo espírito fértil do sertanejo. Não é uma cópia senil de Dom Quixote, mas como esse fidalgo do último romance de cavalaria, possui as qualidade de herói, que gravita em torno da imaginação, brincando com as mentiras, como aquele cavaleiro brincara com os sonhos, e fazendo da vida uma anedota jovial.

Aleixo é o homem que nunca falha.

Ninguem sabe, ao certo, a sua origem. Nem por isso, no entanto, deixou de ter estirpe numerosa. Todos os que espalham, pelo sertão afora, as suas histórias, fazem sempre questão de dizer com ufania que trazem nas veias o sangue vigoroso dessa criatura legendária.

As Histórias de Aleixo fecudam a novelística popular do hinterland nordestino.

Conta-se que, ao relatar as suas façanhas e fanfarronices, de veracidade incrível, Aleixo se conservava sério e impunha a todos os que o ouviam um respeito sacerdotal. Por mais jocosa que fosse a narração ninguém seria capaz de rir. Aleixo não mentia. Pelo menos a sua força muscular assim o fazia crer. O único homem que o podia escutar de dentes à mostra era aquele que o nosso herói já arrebentara os beiços com uma tapa.

Pouco se sabe de sua infância e adolescência. Na verdade o seu aparecimento e popularidade datam do tempo em que embrulhou o padre Ruivo.

Desde então, pelo desassombro de sua afitude ousada e maliciosa, Aleixo se afirmou como o homem invencível, um misto de demônio e herói, que vai povoar de racontos e lendas as mais longínquas pairagens dos sertões.

Joaquim Ribeiro

Foi na época das farinhadas

Os passarinhos começavam "a abrir os primeiros bicos", e já a chaminé da casa de farinha lançava para o alto remígios de fumaça, que se confundiam com a noite.

Mal se distinguiam os vultos dos caboclos que traziam à cabeça balaios cheios de mandioca.

Lá da casa grande, todavia, a gente podia ver a luz fosca da lamparina de azeite latejando aos caprichos do vento, que se embarafustava pelas frestas das paredes de taipa.

Já vinha vindo a madrugada, acompanhada de uma orquestra multiforme de galos de campina, graúnas, canários e outras aves canoras, que nunca se esquecem de acordar a natureza.

No sertão as alvoradas têm sempre uma magia tão sutil que enche de encantamento todas as paragens.

Facilmente se percebia que havia reboliço na casa de farinha.

Os fornos, aos poucos, se apagavam.

Calçando as alpercatas de rabicho, Aleixo foi ver o que se passava na tapera.

A grande roda de pau d’arco estava paralisada. Nem valeu a força hercúlea de Latada, bugre resistente como o jacarandá. Nem tão pouco a de seu companheiro, tambem latagão de fama. As oito rapaduras que os dois comeram não deram energia para aluir sequer a enorme roda.

Os trabalhadores cercavam-nos, apreciando as tentativas infrutíferas.

Os dorsos nus reluziam de suor.

Tudo debalde.

O eixo havia colado e a cevadeira enchido demais o catetu.

Aleixo não perdeu tempo.

Tirando o paletó arregaçou a manga da camisa e sozinho puxou o mancá da roda com tanta força. que esta se deslocando do pé, atravessou a janela e se precipitou no espaço, girando sobre si mesma, numa velocidade de raio, desaparecendo no lusco-fusco da madrugada.

A seca se acentuara de maneira tão alarmante, naquele fim do ano, que todos os prognósticos eram os mais pessimistas possíveis.

Mané Cégo, o homem que adivinhava não só o dia mas até a hora da chuva, afirmava que a estiagem iria se repetir o ano vindouro.

Haviam feito as experiências da umidade do sal. As formigas não se haviam mudado dos barrancos e os joões de barro estavam construindo suas casas de boca para o nascente. Os vaqueiros unanimemente afirmavam que o ano seria ruim. A prova estava nos inchus se mudando para os troncos dos pereiros dos baixios.

Essas árvores - os pereiros - que em muito semelham aos ficus que ornam os jardins públicos das grandes cidades, têm muita importância no ciclo pastoril do nosso folclore.

Se não temessemos a pecha de bairristas, diríamos que o pereiro devia tomar, nos nossos logradouros, o lugar que lhe foi usurpado pela árvore estrangeira.

Em nenhuma época do ano o pereiro muda a sua folhagem verde e elegante, nem há verão que o faça murchar.

A gente sertaneja costuma dizer:

"Seca que mata pereiro, mata pade e jumento"

E mais característica ainda é esta popularísima expressão:

"Todo pau fulora e cai, só o pau pereiro não"

Nenhum animal lhe come as folhas, e as próprias formigas, como que respeitando tradições seculares, deixam que os pereiros verdes e soberbos zombem dos raios causticantes do sol.

- "Formiga sabe que folha corta".

Mas os olhos dos caboclos sentimentais, nessas épocas difíceis, se fixam no firmamento, pois, só dali esperam o manancial de todas as graças.

A lua cheia nascia redonda e vermelha e nuvens esparsas corriam como fumaça fustigada pelo vento.

A natureza ia formando véus delgados de bruma, para em seguida desmanchá-los caprichosamente. Quantas esperanças morriam com aqueles vapores d’água que não chegavam a se condensar de todo?

Por vezes as nuvens se aglomeravam formando torres sobre-postas e a barra escurecia como se o líquido desejado estivesse a ponto de cair. Mau grado as orações mais fervorosas, os roubos das imagens, as promessas cheias da mais ardente fé, o céu ia ficando, aos poucos, límpido e azulado.

Aleixo que nada levava a sério, ao ver subir lentamente uma dessas nuvens, apanhou o clavinote dizendo aos amigos:

- Se esta passar aqui por cima sem chover, vou sapecar fogo.

Dito e feito.

Não obstante as advertências que lhe fizeram de castigos celestes, o tiro partiu.

Segundo relatam os sertanejos, quando foram dormir, "o céu tava limpo cumo o coração de Maria".

Alta madrugada um trovão abalou o alicerce da casa grande e acordou todo mundo.

- Não eram pingos que caíam, não sinhô. Eram pedras que quebravam os telhados. Passado o primeiro momento, o temporal se firmou numa chuva "de matar sapo". A noite inteira o relâmpago faiscou e o corisco despedaçou coqueiros.

Só no dia seguinte se pôde ver a extensão da catásfrofe: o açude arrombado, os coqueiros por terra e a corrente arrastando as últimas cercas.

Cercado de parentes e amigos, Aleixo veio também ver o espetáculo. E alguém, então, advertiu:

- Viu o castigo?

- Era o que faltava!... (retrucou Aleixo) Também Deus anda de uma forma que nem se pode brincar com ele...

(SIQUEIRA, Batista. Folclore humorístico)

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