Jangada Brasil – julho 2001 – nº 35 – Festança – Moçambique

MOÇAMBIQUE

 

Localização Geográfica

Desde que nos iniciamos nos estudos do folclore nacional, ainda quando nos encontrávamos nos bancos universitários, em 1944, coletando dados para uma tese em antropologia social, relacionamos cerca de duas centenas de companhias de moçambique [1] só no estado de São Paulo, sem falar das que registramos nos estados de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Goiás e Mato Grosso.

Função medicinal


A dança atual de moçambique, além de se prestar para que devotos prestem um culto coletivo e ao mesmo tempo individual em louvor a São Benedito, assume também caráter de dança medicinal, curativa. Quando um menino ou moço, fica doente das pernas, uma das promessas mais comuns é a de dançar moçambique.

Outras funções da dança poderíamos apontar, porque embora tenha o caráter profundamente religioso, os moçambiqueiros e mesmo as autoridades não percebem que ela é uma forma de recreação sadia para se aproveitar eficiente e beneficamente as horas de lazer. É musical, coreográfica, ginástica, social e… seletiva. Sim, seletiva, os próprios moçambiqueiros afirmam: “quando ficar velho vou ser congueiro, porque moçambique é dança de moço, não se pode ter as juntas enferrujadas e… velhice.” Não encontramos algo que evidencie o “caráter mágico” do moçambique, o religioso sim.

Função religiosa


O fato de ter um estandarte aponta-nos, como já nos referimos, de estar intimamente ligado a uma instituição religiosa, nesse caso a uma confraria. Aliás, hoje algumas companhias ou ternos de moçambiqueiros pertencem à “Conferência de São Benedito”. Os vínculos religiosos, pretéritos ou não deste bailado, estão presentes no simbolismo do estandarte. Ali está a efígie de São Benedito que pertence ao fios sanctorum católico romano. Prestam reverência ao símbolo, beijam-no, descobrem-se em sua presença. É o rei quem o conduz e ao visitar uma casa, o dono o recebe nos umbrais de sua porta. No local onde está o estandarte não fumam nem falam alto, não proferem dichotes ou palavras obscenas. Não usam estandarte sem que tenha sido benzido pelo padre. Os que, por velhos, ficaram fora de uso, são guardados na capela. Traços reveladores da concepção de que há entre eles uma hierarquia, de objetos sagrados, pontilhados desse culto rústico a São Benedito.

Outro vínculo entre o bailado do moçambique e a religião reside no fato de o moçambiqueiro sentir que está desempenhando um serviço ao santo. E por ser “dança de riligião”, como dizem, não recebem pagamento para executá-la, bem como se esforçam para comprar todo o uniforme para “agradar o santo”, isto revela também o caráter religioso das funções do bailado.

O grau de institucionalização destas companhias de moçambique pode ser avaliado pelos elementos recolhidos em 1944, em Cunha, com o senhor Benedito Domiciano da Silva, do bairro de Capivara: “Os moçambiqueiros têm que fazer matrícula e pagar um imposto anual para São Benedito. Esse dinheiro é pago à Diocese de Taubaté.

A dança dentro da capela


Como a consideram “dança de religião”, dançam-na dentro das capelas ruraisprincipalmente por ocasião dos ensaios da companhia.

Dentro da capela não dançam com bastão, somente cantam e dançam batendo os pés. O bastão é arma, e esta deve ficar fora do lugar sagrado. Entretanto, pode ser colocado no chão para se pular, e tão-somente; o que não pode é bater um contra o outro como se estivesse esgrimindo.

Coroação


De modo geral a cerimônia da coroação do rei e da rainha se passa dentro da capela ou no pátio fronteiro e assim se processa: sentam-se ao centro da roda que os moçambiqueiros formam. Em pé ficam os príncipes e princesas que porventura façam parte do séqüito real. O rei é o guardador. quem empunha o estandarte.

Os moçambiqueiros vão cantando e rodando, batendo os bastões acima da cabeça dos que estão ao centro da roda. Cruzam os bastões, dois a dois, e os colocam sobre a cabeça do rei, depois da rainha. Aumentam o raio do círculo e diminuem, quando então colocam os bastões, coroando. Giram tanto no sentido lunar como no solar. Primeiramente no lunar, e a um apito do mestre, começam a girar no sentido solar, isto é, no sentido dos ponteiros do relógio.

Sentam-se rei e rainha, quando duas almofadas trazidas pelo capitão, uma verde e outra amarela, são colocadas na frente destes, ajoelham-se e os dois menores moçambiqueiros da companhia coroam o rei primeiramente e depois a rainha.

Organização

Uma companhia de moçambique compõe-se de no mínimo seis dançadores. Os maiores ternos conhecidos são de trinta e dois, contando-se os instrumentistas. Há um rei, às vezes uma rainha, príncipes e princesas, um mestre, um contramestre, dois capitães. Algumas companhias têm um general, outras um marechal.

A figura mais importante de uma companhia é o Mestre que enfeixa em suas mãos a disciplina e organização da companhia e a quem compete realizar os ensaios, combinar os dias para a realização das danças nas festas comunitárias ou de bairro rural, as viagens. A ele está afeta a parte musical. As cantorias são “puxadas” pelo mestre que as improvisa segundo as necessidades saudando autoridades ou lugares onde vão dançar. O mestre determina o início das danças, é o coreógrafo da companhia, dele parte a ordem de preparar-se para a dança, o imperativo “amarrar paiá”. Desta ordem, já surgiu quem a denominasse erradamente de “dança do marrapaiá”.

Uniforme

A uniformização é a mais simples possível: trajam-se geralmente de branco. Camisa, calças, gorro brancos. Neste há diversos enfeites bordados com linhas de cores verde, vermelha, azul, amarela ou fitas e lacinhos de cores pregados com alfinetes. A camisa é branca, tendo algumas fitinhas pregadas nos ombros. Nos braços às vezes pregam também alguns laços de fitas. Usam a tiracolo uma fita da cor adotada pela companhia de moçambique a que pertence. Geralmente a cor preferida é a vermelha. A calça é branca, nela não há enfeites. Somente é amarrada sob o joelho por um paiá, e pouco acima do tornozelo por barbante, ficando aculotada para dar maior liberdade de movimentos ao moçambiqueiro.

Com exceção do rei e de todos os tocadores de instrumentos, todos os moçambiqueiros usam um bastão de madeira, preferivelmente de guatambu, de um metro e vinte centímetros, mais ou menos, de comprimento, da grossura de um cabo de vassoura.

Instrumentos musicais

Variam de um terno para outro. Os mais ricos possuem violas, violões, cavaquinhos, rabecas, caixa-de-guerra, caixa clara ou repique, adufes ou pandeiros, canzás, chocalhos de lata, “pernengome”, tamborins, reco-recos. As companhias mais modestas e de recente formação, apenas uma caixa clara e um adufe ou chocalho.

O paiá, também chamado matungo ou conguinho ou coquinho, segundo sua função, pode ser integrado entre os instrumentos musicais. O mesmo pode acontecer com o bastão, quando se entrechoca para dar o ritmo. No entanto consideramo-lo um implemento, como implemento é o apito usado pelo mestre para chamar a atenção dos dançadores; o próprio estandarte também é um implemento, implemento sagrado.

Preparação – Os ensaios são feitos aos domingos pela manhã ou sábados à tarde.

A duração dessa preparação hebdomadária é de mais ou menos seis horas. Não precisam estar uniformizados para os ensaios.

Cantoria e dança – A qualquer ação precede o canto. Compete ao mestre improvisar o verso e a música.

Podem-se dividir as cantorias de acordo com os ambientes em que se encontra a companhia: cantorias de roça cantorias da cidade.

Na roça é a visitação à capela ou casas onde pedem para ir cantar. Na cidade se apresentam outras oportunidades como sejam as de acompanhar procissões, dançar defronte à igreja, prestar homenagem às autoridades religiosas ou civis.

Nota

[1]. O bailado do moçambique já foi aproveitado condignamente no teatro pelo teatrólogo e folclorista Luís Carlos Barbosa Lessa na expressiva peça baseada no folclore paulista intitulada Rainha de Moçambique. Um exemplo a ser imitado.

(ARAÚJO, Alceu Maynard. Cultura popular brasileira)

 

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