Jangada Brasil – julho 2001 – nº 35 – Festança – Santana, a vovó do céu

SANTANA, A VOVÓ DO CÉU

 

A festa de Santana, que se passa a 26 de julho, encerra o ciclo das festas de folclore e fogueiras. Outrora, era, sem dúvida, mais alegre e ruidosa, mas nunca alcançou o mesmo esplendor das dos santos de junho. Entretanto, dentre as figuras bíblicas, a de Santana logrou certa repercussão no nosso tradicionalismo.

É bem compreensível, aliás, essa popularidade, uma vez que Santana teve a graça de ser mãe de Maria Santíssima e avó de Jesus.

Filha de Estolano e Emerenciana, da real descendência de Davi, nasceu em Belém. Casou-se, aos 24 anos, com Joaquim de Nazaré, da cidade da Galiléia. Após o consórcio, foram residir naquela cidade, e só depois de vinte anos de vida conjugal nasceu Maria, enchendo de luz aquele abençoado lar. A menina, meiga e linda, foi criada sob a vigilância carinhosa de Ana, que a orientava nos severos preceitos de piedosa caridade. Tinha Maria três anos quando a família se transferiu para Jerusalém. Seis meses após falecia o pai. Ana e Joaquim estiveram casados vinte e três anos e meio.

Maria foi então encaminhada a um recolhimento, onde se educavam e permaneciam, até contraírem matrimônio, as meninas mais nobres da real família de Judá.

Viúva, teve Ana vida pura e recatada. E a 26 de julho faleceu, com 56 anos, deixando a filha, a menina santa, com doze anos apenas.

Ana santificou-se pela graça divina de ter gerado Maria Santíssima. O Papa Gregório XIII, por bula de 10 de maio de 1584, instituiu e fixou a 26 de julho, dia da morte, a festa de Santana. Coube ao Papa Gregório XV, em 23 de abril de 1622, ordenar que no seu dia se guardasse preceito.

E Santana ficou como o símbolo da velhinha santa, tornando-se tão familiar nas tradições do povo, que é tida como “vovó do céu”, tal a reconhecendo a própria trova popular:

Santana, a vovó do céu,
Embalando os anjinhos,
Ensinou a toda avó
Como embalar os netinhos.

O que não é de estranhar, pois um dos afazeres habituais das avós é ninar os netos.

As crianças do Brasil de todos os tempos ouviram estas quadrinhas em dolentes toadas de “nina-nana”:

Dorme, dorme, meu menino(a),
Dorme, dorme, com Jesus,
Santana teu sono,
Dando-te sonhos de luz.

Menino(a) bonito(a)Não dorme na cama,
Dorme no regaço
Da senhora Santana.

Minha senhora Santana
E meu bom São Joaquim,
Dêem sono a este menino(a),
Que o sono não qué vim.

Senhora Santana,
Vossa casa cheira,
Cheira a cravo e a rosa,
A flor de laranjeira.

Nesta última quadra percebe-se a alusão à velha crença cristã de que os santos e as coisas ligadas a eles possuem o chamado “odor da santidade”.

Esta comparação tem sido aproveitada em loas a outros santos.

O lendário, a respeito de Santana, é relativamente escasso.

Crê a ingenuidade do povo que, através da transparência da lua cheia, se vê, no paraíso, a figura de Santana ensinando Nossa Senhora a ler.

E a trova popular confirma:

Lá dentro da lua cheia
Santana e Maria estão.
Santana é a professora,
Maria aprende a lição.

Esta crendice foi, sem dúvida, sugerida pelas estampas que correm entre os católicos, nas quais Santana aparece tendo ao lado a Virgem Santíssima lendo um livro aberto.

Há uma antiga lenda, repassada de ingenuidade, que se prende ao “ciclo dos santos que, por suas repetidas mudanças, indicam o lugar onde querem que seja edificada sua igreja”.

Essa lenda envolve a imagem da igreja de Santana, em Macaé, no estado do Rio de Janeiro.

Assim a narra Antão de Vasconcelos:

Certo dia, os pescadores, reunidos em torno de pequena fogueira, em cujo calor aqueciam-se e enxugavam as roupas, sentiram ligeiro movimento nos arbustos que coroam a ilha onde se achavam, e, dirigindo-se para o local, temendo qualquer surpresa de animal feroz, com grande pasmo, deparou-se-lhes uma bela imagem de Santana. Dando parte do ocorrido ao vigário, preparou-se uma esquadrilha de canoas e batelões, nos quais seguiram as irmandades, e foi conduzida a imagem em solene procissão para a igreja do Sacramento, única que então existia. No dia imediato, havia desaparecido a imagem, e, feitas novas pesquisas, foi de novo encontrada em seu poético retiro na ilha do centro (o conjunto compõe-se de três ilhas), que daí em diante ficou denominada ilha de Santana, nome que se estendeu às duas outras.

Resolveram então as confrarias erguer uma capelinha, que é a que ainda hoje existe, no alto do morro sobranceiro à cidade, em frente às ilhas para as quais ficava voltada.

Concluída a capelinha, que passou a chamar-se de Santana, foi a imagem trasladada para sua nova morada e instalada em seu respetivo altar.

No dia seguinte ao da trasladação, quando o povo afluía para ouvir a missa na capela nova, a santa havia desaparecido, e de novo foi encontrada no mesmo sítio, na sua antiga morada.

Ficou então resolvido mudar-se a frente da capela e a porta para o lado do morro, dando as costas ao mar e às ilhas.

Concluídas as obras e feita de novo a trasladação, a santa ficou em seu trono, onde é venerada por toda a população dos arredores e de fora, além da de Macaé.

O culto de Santana está espalhado por todo o mundo católico, pelo Brasil inteiro, onde é comuníssimo o nome de Ana e a feliz combinação Mariana para as nossas meninas.

No Rio, é muito antiga a igreja de Santana.

A pedido dos pretos, foi-lhe erguida uma capela, por provisão episcopal de 30 de julho de 1735. Construíram-na em um campo de perto de duzentos mil metros quadrados, tendo por limite a rua da Vala, hoje Uruguaiana, a rua da Ajuda, de que só subsistiu um trecho que é atualmente a avenida Chile, a rua da Prainha, antiga Aljube, e ainda, no fundo, pela lagoa da Sentinela, sobre cujos aterros se ergueu a Cidade Nova. Era nesse campo, coberto de erva rasteira, que as “tropas de linha” faziam exercício e que se armavam as barraquinhas para as tradicionais festas do Divino Espírito Santo.

A primitiva capela foi construída em terrenos cedidos pelo arcediago Antônio Pereira da Cunha, que nela foi sepultado. Ficava a igrejinha mais ou menos no lugar onde se ergue hoje o edifício da estação inicial da Estrada de Ferro Central do Brasil. Fronteira, ainda que distante, estava a igreja de São Joaquim, hoje desaparecida. O local foi, por certo, escolhido a propósito dos laços que haviam ligado em vida os dois santos.

A igrejinha de Santana era um templo baixo e simples. Do lado direito erguia-se uma pequena torre com campanário. O interior, modesto e restrito, tinha cinco altares ornados de obra de talha com decorações douradas. Em 1814 foi a igreja elevada a paróquia, sendo primeiro vigário Antônio Ferreira Ribeiro. Mas só em 6 de agosto de 1816 é que começou a funcionar como vigário, devido a divergências entre as irmandades. O campo que ficava fronteiro passou a ser chamado Campo de Santana, até que nele se realizou a aclamação de Pedro I, como Imperador do Brasil, após a proclamação da nossa Independência. O campo passou a chamar-se Campo da Aclamação. Depois da abdicação de Pedro I, deram-lhe a denominação de Campo da Honra, que, com a República, passou a ser Praça da República. Malgrado tantas, denominações, o povo não esquece a primitiva – Campo de Santana.

O nome de Santana é tão querido pelo nosso povo, que figura até no setor das atividades lúdicas.

É bastante vulgar entre nós o curioso enigma ou adivinha que diz assim:

“Qual é o nome de santa que pode ser lido de frente para trás e de trás para frente?” Resposta: – Ana.

Também é costume dizer-se, à criança que perdeu o primeiro dente de leite, que “mordeu Santana”.

Nas aculturações afro-brasileiras, Santana é identificada à entidade da mitologia negra Naná, Nanã Burucu, Nanamburuque ou, ainda, Anamburucu.

Nos candomblés da cidade do Salvador, na Bahia, cantam-se numerosos pontos rituais a Nanamburique ou Nanã Burucu.

Santana, a “Vovó do Céu”, a professora dos anjinhos, na imaginação ingênua do povo, figura bíblica de grande prestígio, é cultuada com grande fervor em toda a nossa terra.

(LIRA, Mariza. Calendário folclórico do Distrito Federal)

 

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