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| IMAGINÁRIO
- Nesta seção, textos sobre lendas e mitos; contos; personagens; fábulas;
narrativas populares; seres fantásticos... |
Luís da Câmara Cascudo
Informante: Maria Severa Torres de Almeida Souza. Paraíba |
Uma viúva tinha uma filha muito bonita e religiosa que agradava a toda a
gente. A viúva queria casar a filha com homem rico e para isso fazia o possível. Na
esquina da rua onde moravam as duas havia uma casa de comércio afreguesada, cujo dono era
solteiro e de posses. A viúva fazia as compras nessa casa e vivia estudando um meio de
conseguir fazer com que o homem conhecesse e simpatizasse com sua filha.
Um dia ouviu-o dizer que só se casaria com uma moça trabalhadeira e que fiasse muito
mais do que todas na cidade. A viúva comprou logo uma porção de linho, dizendo que era
para a filha fiar, e que esta era a melhor fiandeira do mundo.
A moça ia todas as madrugadas à missa das almas e encontrava lá três velhas
muito devotas que a cumprimentavam.
A viúva chegando a casa entregou o linho à moça, dizendo que teria de fiá-lo
completamente até a manhã seguinte. A moça se valeu dos olhos, chorando, e foi
sentar-se no batente da cozinha, rezando, desconsolada da vida. Estava nesse ponto quando
ouviu uma voz perguntar.
Chorando por quê, minha filha?
Levantou os olhos e viu uma das três velhinhas da missa das almas.
E não hei de chorar? Minha mãe quer que eu fie todo esse linho e o entregue
dobado amanhã de manhã...
Não se agonie, minha filha. Se você me convidar para seu casamento e prometer que
três vezes me chamará tia, em voz alta, darei uma ajuda.
A moça prometeu. A velha despediu-se e foi embora, deixando o monte de linho fiado e
pronto. A viúva, quando achou a tarefa pronta, só faltou morrer de satisfeita. Correu
até a loja do negociante, mostrando as habilidades da filha e pediu uma porção ainda
maior de linho. O negociante espantado pelo trabalho da moça não quis receber dinheiro
pela compra.
Vendo que as cousas se encaminhavam como ela desejava, a viúva voltou a dar o linho pra a
filha fiar até a manhã seguinte. Novamente a moça se agoniou muito e foi chorar na
cozinha. Novamente apareceu uma velha, a segunda das três, que lhe propôs ajudá-la se
ela a convidasse para o seu casamento e a chamasse tia por três vezes. A moça aceitou e
o linho ficou pronto num minuto.
A viúva voltou correndo à loja do homem rico, mostrando o linho fiado e gabando a filha.
O negociante estava simpatizando muito com a moça que fiava tão depressa e tamanhas
qualidades. A viúva voltou com uma carga de linho enorme, entregando aquela penitência
à sua filha.
Aconteceu como nas outras vezes. A terceira velha, mediante convite para o casamento e
chamá-la tia três vezes, fiou o linho num rápido.
Quando o negociante viu o linho fiado, pediu para conhecer a moça, conversou com ela e
acabou falando a casamento. Como era de agradável presença, a moça aceitou e marcou-se
o casamento. O homem mandou preparar sua casa com todos os arranjos decentes e encheu uma
mesa de fusos, rocas, linhos, tudo para que a mulher se ocupasse durante o santo dia em
fiar.
Depois do casamento, na hora do jantar, estavam todos reunidos e muito alegres, quando
bateram palmas e entrou uma das três velhas da missa das almas. A noiva correu
logo dizendo:
Que alegria, minha tia! Entre, minha tia, sente-se aqui perto de mim, minha tia.
Assim que a velha sentou na cadeira, chegou a outra, recebida com a mesma satisfação:
Entre minha tia! Sente-se aqui, minha tia! Vai jantar comigo, minha tia!
A terceira velha chegou também e a noiva abraçou-a logo:
Dê cá um abraço, minha tia! Vamos sentar, minha tia! Quero apresentá-la ao meu
marido, minha tia!
Foram para o jantar e o marido e convidados não tiravam os olhos de cima das três velhas
que eram feias como o pecado mortal.
Depois do jantar, o marido não se conteve e perguntou por que a primeira era tão
corcovada, a segunda com a boca torta e a terceira com os dedos finos e compridos como
patas de aranhas. As velhinhas responderam:
Eu fiquei corcunda de tanto fiar linho, curvada para rodar o fuso!
Eu fiquei com a boca torta de tanto riçar os fios de linho quando fiava!
Eu fiquei com os dedos assim de tanto puxar e remexer o linho quando fiava!
Ouvindo isso o marido mandou buscar os fusos, rocas, meadas, linhos, e tudo que servisse
para fiar, e fez com que queimassem tudo, jurando a Deus que jamais sua mulher havia de
ficar feia como as três tias fiandeiras por causa do encargo de fiar.
Depois, as três velhas desapareceram para sempre. O casal viveu muito feliz.
(Cascudo, Luís da Câmara. Contos tradicionais do Brasil. Belo Horizonte;
São Paulo, Itatiaia, Editora da Universidade de São Paulo, 1986. Reconquista do Brasil,
2ª série, 96, p.158-159) |
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